Como tão bem sabem, este espaço é apartidário e apolítico, não pretendo
por isso afirmar alguma corrente ou ideologia política, pretendo apenas
retratar a decadência do património e contar um pouco da nossa
história...
Não sou fascista, saudosista, nem tão pouco simpatizo com nenhum
partido, pois considero que todos eles são responsáveis pelo descalabro
deste País à beira mar arruinado... julgo que sou humanista, pois sou
apologista da justiça e da igualdade, tal como sou da verdade, mas sou
nacionalista e ainda acredito em Portugal e nos portugueses!
No entanto e em nome da verdade histórica, irei estabelecer paralelos de
comparação para que se possa melhor compreender esta figura de estado
que governou Portugal durante quase quarenta anos... o Dr. António de
Oliveira Salazar.
Em primeiro lugar, e para o melhor julgar, é necessário inseri-lo
numa época em que Portugal estava num caos social bem maior do que
vivemos agora, o rescaldo da Primeira República e da Ditadura Militar.
Ao contrário do que se esperava, foi o período de maior
instabilidade política que este País já conheceu e era necessário um
"pulso de ferro" para reorganizar as contas públicas e a sociedade.
Para tal, a única solução possível, era governar em autocracia evitando
desse modo que o poder se fraccionasse e se inviabilizasse a tão
desejada recuperação, o que conseguiu ao fim de um ano, feito conseguido apenas três vezes, desde o reinado de D. Maria I, um equilíbrio do
orçamento de estado...
O contexto político que o levou Salazar ao poder, era o de um
"messias", um salvador da pátria, uma vez que esta estava de rastos
pelas inúmeras guerras de poder que a república promoveu em nome da
democracia, para acabar com essas guerras era urgente acabar com a
"democracia", que promovia e inviabilizava a estabilidade de Portugal em
nome das eminências pardas que então governavam... acabando com a já citada
"democracia", acabavam as tais guerras de poder, e poder-se-ia governar... era preciso
um homem sério e a sério, para tomar as rédeas e "pegar o touro pelos
cornos"... Salazar foi na altura a salvação.
Outro governante que é hoje celebrizado como um verdadeiro herói da
nação é Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, em boa
parte promovido na história por Oliveira Salazar, que sempre se empenhou
em salutar, como manobra de propaganda, os grandes portugueses, enaltecendo deste modo o patriotismo que tanta falta fazia.
Irei aqui comparar um "herói" e um "vilão", tal como os sistemas da
actualidade para melhor poder tirar conclusões, sem esquecer os
contextos históricos e temporais. Para ser o mais isento possível,
entrevistei várias pessoas de diferentes extractos sociais, culturais e
etários, desde um hortelão de Chelas, antigos militares, um velho
taxista de praça, funcionários públicos, historiadores, gente comum e da
"velha nobreza"... e as opiniões foram consistentes e constantes...
Salazar foi um homem de Estado que nos soube conduzir com honestidade,
embora com alguma austeridade e manteve-se demasiado tempo no poder,
tendo sido ultrapassado politicamente.
Por ter governado sem oposição, e ter sido promovido por António Ferro, a quem foi confiado o Secretariado da Propaganda Nacional, é hoje conhecido por "Ditador"...
assumindo que um governo autocrático é uma ditadura, esse epíteto
cabe-lhe na perfeição, no entanto se atendermos a actuação de outros
conhecidos ditadores, tais como: Estaline, Hitler, Mussolini, Mao Tsé
Tung, Polt Pot, Pinochet, Ferdinando Marcos, Sadam Houssein, etc,
etc... concluímos que Salazar era um "ditador softcore"... um "menino
do coro"... seria mais justo chamar-lhe "paternalista nacional", uma vez
que era a nação e o seu bom funcionamento que mais lhe interessava e
preocupava.
Salazar era um português que acreditava em Portugal, e não gostava ou
sequer permitia "agentes subversivos" que pudessem "contaminar" a
sociedade, por isso não dava tréguas aos idealistas que o confrontavam,
atitude essa que o levou a cometer injustiças e a dominar os meios de
comunicação... a censura no tempo do Salazar era tão austera que se
tornou ridícula, chegando ao ponto de censurar o Fado "Maria Madalena",
por esta ser considerada uma prostituta... pois é... tudo o que é demais
faz mal, e nisso o "ditador" exagerou, como em tantas outras coisas...
... mas a censura ainda hoje acontece e vivemos em plena democracia...
quem não se lembra do caso do Semanário Sol com a reportagem do
Freeport, da tentativa de aquisição da TVI, a perseguição ao professor
Charrua entre outros tristes episódios? Não serão também casos de
censura e manipulação de informação? Não é que seja a favor de qualquer
caso de obstrução à verdade, mas o facto é que continua a acontecer, e
sempre aconteceu e acontecerá... mesmo numa suposta democracia que hoje
vivemos...
Já Pombal, criou a Real Mesa Censória, que controlava e limitava
toda a informação impressa em Portugal e tudo o que colidisse com a
sua política teria que se haver com a "justiça"...
Eu, pela minha parte, instituí em minha casa uma censura à poluição
intelectual, não permitindo que programas de televisão estupidificantes
façam mazelas nos neurónios dos meus filhos: Morangos, Gordos, Splashes,
Big Brothers e muitos outros que tais, não entram em minha casa!!!! São
subversivos!!!! Será isto censura?? Apenas quero proteger os meus
filhos da imbecilidade e dar-lhes algo melhor para pensar e distrair...
Um dos argumentos que mais condena o Estado Novo, é o facto de ter
tido uma polícia política, a famigerada PIDE, que perseguiu e levou
muita gente ao exílio e à prisão. Salazar não gostava ou pactuava com o
comunismo. Conhecendo a realidade soviética e a utopia deste regime
político, além do seu anti-clericalismo, considerava os comunistas
subversivos, e por tal, fazia questão de erradicar esse "mal", pois a
defesa do povo e da nação, a seu entender, estavam em causa e eram uma
prioridade...
É curioso que Álvaro Cunhal, que se opunha ao regime de Salazar, no
entanto pactuava com o de Estaline que era muito mais déspota, além de
que a KGB não era mesmo para brincadeiras, e sabe-se agora que este ditador,
tem o recorde do mundo de assassinatos dentro do próprio país... tudo em
nome da liberdade e da igualdade...
Também Pombal tinha a sua polícia política, era a Inquisição, que
tão bem soube trazer para o seu lado, colocando-a a seu serviço e
manipulada pelos seus... os inúmeros autos de fé que levaram ao
cadafalso milhares de inocentes, são a vergonha da humanidade, e só foi
extinta em 1821 com o liberalismo...
É comum dizer que no tempo de Salazar havia muita pobreza em
Portugal, o que era sem dúvida verdade, mas o País já na altura era
pobre e não havia muita riqueza para distribuir, isto depois da riqueza
ter sido depauperada pelos sucessivos governos que se instalaram no
poder desde 1834... Portugal "estava de tanga"... e ainda hoje está,
pois segundo dados oficiais do INE, temos hoje cerca de 30% da população
a viver no limiar da pobreza...
Outro mito que se instalou e não tenho maneira de contrapor, era o
atraso português em relação à Europa... Salazar deixou Portugal com um
atraso de trinta anos!! Seria indesculpável se hoje, e segundo os
debates televisivos animados por especialistas em economia e sociedade,
não tivéssemos um atraso de cinquenta a cem anos em relação ao "velho
continente"... é caso para pensar no que têm feito os nossos ilustres
governantes desde 1974... onde foram parar as fortunas injectadas pela
União Europeia, para o desenvolvimento??
A corrupção não era permitida por Salazar, e se alguém se atrevesse
sequer a roubar um chupa-chupa, seria exemplarmente condenado, nos dias
de hoje e segundo uma notícia recente de um jornal diário, apenas 5% dos
corruptos chegam à barra do tribunal...
Uma coisa que distinguiu Oliveira Salazar de todos os outros
governantes, foi a seriedade! Como todos sabemos, este senhor nunca
enriqueceu com o poder que lhe foi dado, nem tão pouco permitia que
alguém o fizesse sem legitimidade! Salazar apenas permitia duas
características aos seus colaboradores: honestidade e competência! Um
exemplo que se hoje fosse seguido, não estaríamos no buraco em que nos
encontramos, nem nunca o FMI teria posto os pés (ou as mãos) em solo
português... disso ninguém pode duvidar, ou pôr em causa...
À semelhança de Pombal, Salazar promovia e potenciava os monopólios,
achava certamente (e erradamente) que a centralização económica e a
falta de concorrência favoreciam além de certos grupos financeiros, os
mercados e os consumidores... chegando ao ponto de criar uma licença de
isqueiro para proteger a Sociedade nacional de Fósforos, o que visto à
lupa da realidade, era mais uma ridícula medida... no entanto, hoje como
fotógrafo, necessito de uma licença para usar um tripé nas ruas de
Lisboa, por ocupação de espaço público... parece que estes gajos não
aprenderam nada com o passado...
Os monopólios de Pombal visavam enriquecer algumas empresas por ele
criadas, e entregues aos seus amigos e familiares... o nepotismo ao mais
alto nível... embora também dessem a ganhar algum dinheiro à coroa
portuguesa,a quem ele supostamente servia.
Pombal ficou na história por ter construído Lisboa, embora se tenha
cingido à baixa pombalina e tenha ficado com os melhores talhões e
distribuído os restantes entre a sua família e amigos... Salazar
construiu o Restelo, Campo de Ourique, Avenidas Novas, Benfica,
Campolide, Olivais, etc...
Na periferia construiu a Amadora, Almada e quase todos os subúrbios da
capital, distribuindo-o por várias classes sociais miscigenizando-as ...
ainda restaurou património um pouco por todo o País... malandro...
tirano... da corda, esse ditador... até parece um socialista!!!
Foi a última vez que tivemos um governante que se preocupou com a
recuperação e reabilitação do nosso património histórico. O que teria
sido do castelo de Guimarães ou dos Paços do Duque se não fosse a sua
intervenção, os imensos castelos e estruturas históricas...
Nas obras públicas destacam-se os portos de Sines e de Lisboa, auto
estradas, tribunais, escolas e universidades, pontes sobre o Tejo e
Douro, aeroportos, Estádio Nacional e um sem fim de infra-estruturas que ainda hoje se podem desfrutar na sua plenitude.
Salazar sabia que a arquitectura era uma forma de cultura e um espelho
da nação, soube através dela explorar o patriotismo promovendo até as
aldeias... desde as cidades ao Portugal profundo, nada foi deixado ao
acaso ou ao esquecimento, como não se verifica hoje em dia... Portugal,
para os governantes de hoje, é apenas Lisboa e um pouco do Porto...
Ah!!! e "Allgarve" para ir a banhos...
A arquitectura modernista do estado novo foi a última vez que Portugal
teve uma identidade arquitectónica... houve um batalhão de arquitectos e
engenheiros que embelezaram o País, contribuindo para a cultura
portuguesa com um sem fim de novas construções ao nível do melhor que se
fazia em todo o mundo.
Nomes como Cristino da Silva, Cassiano Branco, Pardal Monteiro, Faria da
Costa, Artur de Andrade, Januário Godinho, Cottinelli Telmo, entre
muitos outros, marcaram Portugal com obras arquitectónicas que ainda
hoje nos enchem de orgulho...
Em contraponto temos hoje uma arquitectura que não só perdeu a
identidade, como também é de uma traça efémera e sem estilo definido...
entre "maisons" e "taveiradas" que depressa passam de moda, o nosso bom e
verdadeiro património caiu no esquecimento...
Aquilo que foi a habitação social no tempo do estado novo, é hoje
valorizado em termos imobiliários, como habitação de luxo... a prová-lo
podemos tentar comprar uma casa nos bairros de Belém, Caselas, Actores
de Benfica, Campolide, Olivais... e comparar com os valores dos bairros
sociais de agora...
Por acreditar no potencial português, nas suas colónias e ciente das
suas riquezas, manteve-se orgulhosamente só, contrariando aquilo que
seria sensato, que seria devolver aos povos autóctones após mais de
quinhentos anos de exploração as províncias ultramarinas... no seu
entender essas províncias eram parte de Portugal, legitimamente
colonizadas pelos nossos antepassados...
Embora a realidade fosse diferente, Salazar teimou em manter a
autoridade sobre esses territórios, o que o conduziu a uma sangrenta
guerra que muitas vidas ceifou... no entanto ainda hoje não demos
autonomia aos Açores e Madeira, que tantas vezes a reivindicaram... a
lógica aqui é diferente??
Como é evidente onde havia população que foi um dia subjugada, esse
território deveria ser devolvido aos legítimos povos, mas os
arquipélagos de S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné foram povoados e
colonizados por portugueses, que como esclavagistas que eram, para lá
levaram mão de obra que acabaram por constituir a actual população...
Se o Faial foi colonizado essencialmente por flamengos deveríamos
dá-los à Bélgica?? Era essa a lógica de Salazar... que me parece ter
algum fundamento... por essa ordem de ideias, não deveria Gibraltar ser
devolvido a Espanha e Ceuta a Marrocos??
Devemos a Pombal o início da industrialização portuguesa, pelo menos as primeiras
fábricas de cerâmica, fiações (sedas e lãs), cortumes, região demarcada
do Douro, etc...
Mas a Salazar devemos uma indústria sólida que foi vandalizada após a
entrada na União Europeia por alguém que decidiu que Portugal seria um
País de serviços... e hoje continuam as falência a um ritmo
preocupante... e pouco ou quase nada se produz.
Também no plano diplomático, Pombal teve um papel importante. Não só tentou a todo o custo manter-se neutro na Guerra dos Sete Anos (o que
não conseguiu), como encetou negociações e tratados comerciais com os
mais importantes países europeus fomentando as exportações, e por
conseguinte equilibrou a balança comercial.
Salazar conseguiu manter a neutralidade na Guerra Civil de Espanha, tal
como na segunda Grande Guerra, no seu governo entrámos para a EFTA, ONU e
NATO, ainda que nos tivéssemos mantido orgulhosamente sós...
Os nossos últimos governos desde 1974 trouxeram três vezes o FMI, e
ultimamente o BCE e a Comissão Europeia... um feito diplomático
inigualável...
Após a expulsão e perseguição dos jesuítas, Pombal instituiu o Colégio
dos Nobres e reformulou todo o sistema de ensino, colocando Portugal na
vanguarda do ensino ao nível europeu. Começando pelos Estudos Menores e
seguindo com novos cursos universitários de Matemática e Filosofia
Natural, além de estudos jurídicos, foi notável o avanço que o ensino
conheceu durante o seu governo.
Já Salazar, instituiu a escolaridade obrigatória abrindo escolas em
todos os cantos e recantos do País, proliferaram os Liceus e Escolas
Industriais, além de ter fundado novas universidades e ampliado as então
existentes...
Hoje fecham-se escolas e abrem-se cursos de "novas oportunidades", cujos
fins se têm demonstrado inócuos e demagógicos, sem nada ou ninguém
servir, e reduziram-se com o Tratado de Bolonha os cursos superiores,
tirando-lhes a devida credibilidade e idoneidade.
Pombal promoveu a emigração massiva para o Brasil, que era então uma
colónia portuguesa, criando novas fortunas que encontraram trabalho e
oportunidades nas terras de Vera Cruz.
Durante o governo de Salazar, houve vagas de emigração de uma população
empobrecida que procurou trabalho em vários países Europeus, enfrentando
as intempéries de uma viagem a "salto" em busca de uma vida melhor do
que a que tinham em terras lusitanas, e levando Portugal a perder uma
boa parte da população activa, essencialmente ao nível do proletariado e
trabalho rural.
Nos últimos governos da república, deu-se uma das maiores vagas de
emigração, levando até os próprios emigrantes a regressar aos países de
origem, além de termos perdido a camada mais jovem e com a maior
formação académica até hoje conseguida... uma fuga de cérebros que
dificilmente regressará.
No âmbito da saúde pública, Salazar edificou dois hospitais escola,
maternidades e centros de saúde, que são hoje compulsivamente fechados
em nome de uma economia que nos levou à bancarrota.
Concluindo esta comparação fundamentada por factos históricos, peço encarecidamente ao Sebastião José e ao António, que reencarnem rápidamente e ajudem estes governos da república a orientar o nosso País, que tanto tem passado e penado nestes últimos anos de democracia...
Com muita LUZ vos desejo um Portugal melhor...
sexta-feira, 19 de julho de 2013
sábado, 6 de julho de 2013
Palácio Farrobo - Vila Franca de Xira
O Palácio Farrobo, foi uma das mais faustosas propriedades de
Portugal, a sua envergadura e riqueza, rivalizava com as mais ricas e
nobres residências de então.
A tradição portuguesa não é rica neste tipo de edifícios, embora grassem pelo país muitos palacetes e solares, os palácios eram quase exclusivos da casa real. Eram símbolos de poder e por tal eram quase um "atrevimento" erigir algo desta dimensão e imponência...
Apenas a uma pessoa de grande fortuna e influência social seria possível realizar um projecto desta índole... espelhando de uma pálida forma a grandeza de Joaquim Pedro Quintela, segundo barão deste nome e primeiro conde de Farrobo.
Era a sua quinta de recreio, onde realizava festas para a nobreza e alta burguesia, organizava caçadas e produzia vinhos de grande qualidade... as marcas que estas festas deixaram na sociedade, pela sua grandeza e criatividade, geraram termos que são hoje comummente usados para definir uma grande folia: a Farra, o Forrobodó, e em brasileiro até se dança o Forró...
Joaquim Pedro de Quintela, era senhor de um vasto império empresarial que herdou do seu pai e tão sabiamente soube ampliar, tornando-se no maior magnata português do século XIX. Os registos das suas propriedades ocupavam nove livros de assentos e estendiam-se por todo o território nacional.
A sua ascensão social, deveu-se em parte pelo apoio dado a D. Pedro IV e à causa liberal, para a qual generosamente contribuiu, tendo sido agraciado com o título de conde como reconhecimento e gratidão.
Farrobo, era não só um homem de negócios, como também um homem de, e da cultura, foi mecenas de vários artistas e empresário do Teatro de S. Carlos... como ouvi um dia ser descrito, seria nos dias de hoje um "Belmiro LaFéria".
Distinguiu-se nas artes como músico, actor e pintor, além de ter promovido vários artistas de relevo, chegando a "importar" para a sua corte grandes vultos da música europeia.
Também se destacou no campo da política, tendo sido deputado pela Estremadura e senador por Lamego e Leiria, como militar, atingiu o posto de coronel de cavalaria da Corte da Rainha.
Embora a sua vida social esteja bem documentada, da sua vida intima pouco se sabe, por escassearem cartas pessoais e crónicas familiares, da sua verdadeira personalidade pouco se conhece com exactidão.
Podemos alvitrar quer era um homem de família, pela prole e pelos seus dois casamentos... sabe-se também que tinha um fetiche por pernas, por ter sido encontrado recentemente uma caixa com várias pernas de cera no Teatro de S. Carlos, que se sabe terem sido da sua pertença, mas isso é muito pouco para definir um homem deste calibre.
A sua queda financeira deveu-se a um negócio de tabaco, cujo monopólio ao ser vendido a um outro empresário, não rendeu a este segundo o que estaria previsto pela especulação de mercado, ao que lhe foi interposta uma acção que mais tarde perdeu em tribunal, levando-o a uma falência injusta por uma indemnização que ultrapassava largamente aquilo que se poderia chamar "astronómico", "pornográfico" e "faraónico"... enfim a (in)justiça portuguesa, já na altura fazia mazelas...
Mas voltemos a esta magnífica quinta que também tem muitas histórias para contar...
A sua história começa em meados do século XVIII, quando era conhecida por Quinta de Santo António (provavelmente pela proximidade do convento com o mesmo nome e já aqui retratado), e pertencia a Manuel da Silva Colaço, a estrutura resumia-se então a uma quinta e um pequeno aglomerado de casas.
Foi adquirida em 1760 por Luís Garcia Bívar, e mais tarde revendida a Francisco de Azevedo Coutinho, que por sua vez a transacciona em 1779, a Luís Rebelo Quintela, que era juiz e desembargador dos Feitos da Coroa e da Fazenda da Casa da Suplicação, tio do primeiro barão de Quintela.
Por sua morte, a propriedade foi herdada pelo 1º Barão de Quintela, pai do conde de Farrobo, que aqui instituiu o morgadio dos Quintela, agregando-a às suas propriedades, evitando deste modo as dispersão das mesmas.
Em 1835, Farrobo empenha-se em ampliá-lo e embelezá-lo, não se poupando a esforços financeiros, para da melhor maneira, lhe dar o fausto e conforto digno da mais ilustre casa real.
Para isso contratou (provavelmente) o arquitecto Fortunato Lodi, que além de trabalhar a sua traça, proviu-o de soluções visionárias e práticas que faziam deste imóvel um exemplo de "arquitectura verde", desde as caves de armazenamento, que eram autênticos "frigoríficos industriais", tal como as águas residuais eram devolvidas ao rio Tejo por canais que as filtravam, minimizando assim o impacte ambiental, também a generosa fenestração garantia ao longo de todo o dia a melhor iluminação, inundando de luz todo o seu riquíssimo interior.
Os interiores foram decorados pelos melhores artífices de então, tendo as pinturas e decorações pictóricas sido da responsabilidade António Manuel da Fonseca, um mestre pintor protegido por Farrobo.
Uma vez que Farrobo era um grande entusiasta e promotor do teatro, aqui instalou uma réplica da sala do S. Carlos, onde actuaram grandes artistas da época e levaram a cena várias óperas e peças que fizeram furor.
A quinta era provida de uma adega, cavalariças, uma capela em estilo neoclássico, um enorme poço forrado a azulejos, e um pombal, que mantinha funcionais as comunicações mais urgentes.
O seu destino altera-se em 1869 pela morte de Farrobo, sendo levada à praça em 1874 e arrematada por cento e doze contos de réis por um fidalgo espanhol, o conde de Torres Novais, que a mantém até 1890, quando é novamente vendida em hasta pública por apenas 12 contos de réis a D. Maria Antónia de Menezes Corrêa de Sá.
Para combater a crise filoxérica, o vinhedo é em 1893, replantado com bacelo americano e em 1895, aqui é instalado a titulo de empréstimo ao patriarcado de Lisboa, um seminário para seminaristas principiantes, tendo albergado quarenta alunos por um curto período de um ano.
Pelo falecimento de D. Maria Antónia e por esta não ter descendência, a quinta é herdada em 1933 pelo seu sobrinho, Artur de Menezes Corrêa de Sá, 2º visconde de Merceana, que já aqui tinha nascido.
Durante o período da segunda grande guerra são recebidos na quinta exilados belgas, que neste local encontraram uma justa paz.
Foi em 1957, generosamente doado à Caritas que lhe faz ainda algumas obras de manutenção, chegando esta a apresentar em 1970 à C. M. de Vila Franca de Xira, um projecto de conversão para colónia de férias, que nunca foi levado avante.
Em 1974, após o 25 de Abril, o palácio foi completamente e brutalmente saqueado, por supostos empreiteiros que o desmontaram, retalharam e venderam em peças soltas... sem que nada, nem ninguém tivesse sequer feito uma queixa ou mexido uma palha... poder-se-ia dizer que foi um roubo do Farrobo...
Uma vez mais a tutela da propriedade foi transferida, e pertence desde 1980 à Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca de Xira que até agora nada fez para a rentabilizar ou para a revitalizar...
Sei que seria um enorme investimento, recuperar o palácio com o mesmo esplendor que noutras eras teve, no entanto se começassem pelo cultivo da propriedade, talvez com tempo e mais dedicação, se conseguisse realizar de novo um sonho, digno da obra e trabalho de quem um dia o idealizou...
A tradição portuguesa não é rica neste tipo de edifícios, embora grassem pelo país muitos palacetes e solares, os palácios eram quase exclusivos da casa real. Eram símbolos de poder e por tal eram quase um "atrevimento" erigir algo desta dimensão e imponência...
Apenas a uma pessoa de grande fortuna e influência social seria possível realizar um projecto desta índole... espelhando de uma pálida forma a grandeza de Joaquim Pedro Quintela, segundo barão deste nome e primeiro conde de Farrobo.
Era a sua quinta de recreio, onde realizava festas para a nobreza e alta burguesia, organizava caçadas e produzia vinhos de grande qualidade... as marcas que estas festas deixaram na sociedade, pela sua grandeza e criatividade, geraram termos que são hoje comummente usados para definir uma grande folia: a Farra, o Forrobodó, e em brasileiro até se dança o Forró...
Joaquim Pedro de Quintela, era senhor de um vasto império empresarial que herdou do seu pai e tão sabiamente soube ampliar, tornando-se no maior magnata português do século XIX. Os registos das suas propriedades ocupavam nove livros de assentos e estendiam-se por todo o território nacional.
A sua ascensão social, deveu-se em parte pelo apoio dado a D. Pedro IV e à causa liberal, para a qual generosamente contribuiu, tendo sido agraciado com o título de conde como reconhecimento e gratidão.
Farrobo, era não só um homem de negócios, como também um homem de, e da cultura, foi mecenas de vários artistas e empresário do Teatro de S. Carlos... como ouvi um dia ser descrito, seria nos dias de hoje um "Belmiro LaFéria".
Distinguiu-se nas artes como músico, actor e pintor, além de ter promovido vários artistas de relevo, chegando a "importar" para a sua corte grandes vultos da música europeia.
Também se destacou no campo da política, tendo sido deputado pela Estremadura e senador por Lamego e Leiria, como militar, atingiu o posto de coronel de cavalaria da Corte da Rainha.
Embora a sua vida social esteja bem documentada, da sua vida intima pouco se sabe, por escassearem cartas pessoais e crónicas familiares, da sua verdadeira personalidade pouco se conhece com exactidão.
Podemos alvitrar quer era um homem de família, pela prole e pelos seus dois casamentos... sabe-se também que tinha um fetiche por pernas, por ter sido encontrado recentemente uma caixa com várias pernas de cera no Teatro de S. Carlos, que se sabe terem sido da sua pertença, mas isso é muito pouco para definir um homem deste calibre.
A sua queda financeira deveu-se a um negócio de tabaco, cujo monopólio ao ser vendido a um outro empresário, não rendeu a este segundo o que estaria previsto pela especulação de mercado, ao que lhe foi interposta uma acção que mais tarde perdeu em tribunal, levando-o a uma falência injusta por uma indemnização que ultrapassava largamente aquilo que se poderia chamar "astronómico", "pornográfico" e "faraónico"... enfim a (in)justiça portuguesa, já na altura fazia mazelas...
Mas voltemos a esta magnífica quinta que também tem muitas histórias para contar...
A sua história começa em meados do século XVIII, quando era conhecida por Quinta de Santo António (provavelmente pela proximidade do convento com o mesmo nome e já aqui retratado), e pertencia a Manuel da Silva Colaço, a estrutura resumia-se então a uma quinta e um pequeno aglomerado de casas.
Foi adquirida em 1760 por Luís Garcia Bívar, e mais tarde revendida a Francisco de Azevedo Coutinho, que por sua vez a transacciona em 1779, a Luís Rebelo Quintela, que era juiz e desembargador dos Feitos da Coroa e da Fazenda da Casa da Suplicação, tio do primeiro barão de Quintela.
Por sua morte, a propriedade foi herdada pelo 1º Barão de Quintela, pai do conde de Farrobo, que aqui instituiu o morgadio dos Quintela, agregando-a às suas propriedades, evitando deste modo as dispersão das mesmas.
Em 1835, Farrobo empenha-se em ampliá-lo e embelezá-lo, não se poupando a esforços financeiros, para da melhor maneira, lhe dar o fausto e conforto digno da mais ilustre casa real.
Para isso contratou (provavelmente) o arquitecto Fortunato Lodi, que além de trabalhar a sua traça, proviu-o de soluções visionárias e práticas que faziam deste imóvel um exemplo de "arquitectura verde", desde as caves de armazenamento, que eram autênticos "frigoríficos industriais", tal como as águas residuais eram devolvidas ao rio Tejo por canais que as filtravam, minimizando assim o impacte ambiental, também a generosa fenestração garantia ao longo de todo o dia a melhor iluminação, inundando de luz todo o seu riquíssimo interior.
Os interiores foram decorados pelos melhores artífices de então, tendo as pinturas e decorações pictóricas sido da responsabilidade António Manuel da Fonseca, um mestre pintor protegido por Farrobo.
Uma vez que Farrobo era um grande entusiasta e promotor do teatro, aqui instalou uma réplica da sala do S. Carlos, onde actuaram grandes artistas da época e levaram a cena várias óperas e peças que fizeram furor.
A quinta era provida de uma adega, cavalariças, uma capela em estilo neoclássico, um enorme poço forrado a azulejos, e um pombal, que mantinha funcionais as comunicações mais urgentes.
O seu destino altera-se em 1869 pela morte de Farrobo, sendo levada à praça em 1874 e arrematada por cento e doze contos de réis por um fidalgo espanhol, o conde de Torres Novais, que a mantém até 1890, quando é novamente vendida em hasta pública por apenas 12 contos de réis a D. Maria Antónia de Menezes Corrêa de Sá.
Para combater a crise filoxérica, o vinhedo é em 1893, replantado com bacelo americano e em 1895, aqui é instalado a titulo de empréstimo ao patriarcado de Lisboa, um seminário para seminaristas principiantes, tendo albergado quarenta alunos por um curto período de um ano.
Pelo falecimento de D. Maria Antónia e por esta não ter descendência, a quinta é herdada em 1933 pelo seu sobrinho, Artur de Menezes Corrêa de Sá, 2º visconde de Merceana, que já aqui tinha nascido.
Durante o período da segunda grande guerra são recebidos na quinta exilados belgas, que neste local encontraram uma justa paz.
Foi em 1957, generosamente doado à Caritas que lhe faz ainda algumas obras de manutenção, chegando esta a apresentar em 1970 à C. M. de Vila Franca de Xira, um projecto de conversão para colónia de férias, que nunca foi levado avante.
Em 1974, após o 25 de Abril, o palácio foi completamente e brutalmente saqueado, por supostos empreiteiros que o desmontaram, retalharam e venderam em peças soltas... sem que nada, nem ninguém tivesse sequer feito uma queixa ou mexido uma palha... poder-se-ia dizer que foi um roubo do Farrobo...
Uma vez mais a tutela da propriedade foi transferida, e pertence desde 1980 à Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca de Xira que até agora nada fez para a rentabilizar ou para a revitalizar...
Sei que seria um enorme investimento, recuperar o palácio com o mesmo esplendor que noutras eras teve, no entanto se começassem pelo cultivo da propriedade, talvez com tempo e mais dedicação, se conseguisse realizar de novo um sonho, digno da obra e trabalho de quem um dia o idealizou...
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