sábado, 4 de janeiro de 2014

Casa de Brasileiro - Frazão

Foi mais uma ruinosa aventura por terras nortenhas, na boa companhia do meu amigo José João Roseira, em que num só dia visitámos seis ruínas, em Frazão.
Depois do salto do Joaquim na Casa da Praça e por estar a chover a cântaros, deixei o "sacanideo" no carro e abusei da fotogenia do José João, que ao estilo do Wally ajudou a compor alguns enquadramentos...
Acho que vou reformar o Joaquim e adoptar este novo colaborador, pois os resultados são muito melhores, além de que não se lança em voos planados não planeados...
Devo também agradecer à Sra. D. Cândida Bentes, ilustre e simpática familiar dos proprietários, que me prestou uma boa ajuda fornecendo-me alguns valiosos dados.
É pela primeira vez em toda esta demanda que abordo um género arquitectónico que marcou uma época e, que tanto marcou o País.
As "Casas de Brasileiro", ou de "Torna-Viagem", eram a essência cultural e financeira de uma nova burguesia recém enriquecida em Terras de Vera Cruz, eram um reflexo do sucesso pecuniário do seu proprietário.
Desde a segunda metade do século XVIII e até ao início do século XX, foram inúmeros os emigrantes que rumaram além mar em busca de uma nova oportunidade, e aí se estabeleceram com sucesso fazendo fortuna.
No seu regresso, era imperativo mostrar esse sucesso em forma de arquitectura, erigindo casas onde cada ego se  espelhava em conformidade com a envergadura da riqueza acumulada.
Muito deveu a nossa economia a estes emigrantes, pois não só a dinamizaram com os seus investimentos, como construíram novos impérios que geraram muita riqueza e trabalho nas terras onde se estabeleceram, eram um exemplo de empreendedorismo para toda a sociedade.
Adolfo Bentes, de Frazão, foi um bom exemplo do emigrante brasileiro, que por própria iniciativa fundou uma empresa de diligências, atingindo além de distantes pontos geográficos, todos os objectivos profissionais a que se propôs.
 
Tornando às suas origens coroado de glórias financeiras, adquiriu esta casa a outro "brasileiro", além de um vasto património que ainda hoje a família detém.
Estas casas proliferaram um pouco por todo País, com especial incidência no Norte, onde estas românticas construções se misturam na paisagem contrastando com os velhos solares.
As casas brasileiras distinguiam-se na sua traça pela combinação de diversas influências estilísticas, eram uma miscelânea da casa colonial victoriana, com laivos afrancesados, revivalismos italianos e pretensões palacianas.
Estas soluções arquitectónicas, eram na sua maioria uma distorção da elegância e da cultura europeia, embora sendo hoje apreciadas com romantismo, eram na altura depreciadas e repudiadas por uma sociedade conservadora dos melhores costumes e tradições.
Eram as "maisons" de então, cuja profusão de elementos decorativos marcavam-nas por um excesso de "bom gosto", denunciando o novo-riquismo patente em cada casa.
Era comum as fachadas serem revestidas com azulejos onde constavam as cores do Brasil, poderiam também ser caiadas ou cobertas de reboco, não faltando ornamentos em forma de metais forjados ou fundidos, estatuária, cantarias, platibandas decoradas, vitrais e outros elementos que tais.
O interior era ricamente decorado com profusas pinturas frescas, marmoreados e papeis de parede, eram utilizadas madeiras nobres e exóticas nos soalhos, vigamentos, revestimentos e escadarias, as portas com almofadas e bandeiras com vidros de côr, tudo era exuberante transparecendo esplendor.
Nos salões eram pendurados lustres de cristal, que iluminavam o rico mobiliário, tapeçarias preciosas e porcelanas pirosas, pratarias diversas e colecções dispersas, manjares principescos, vinhos e refrescos, faziam o dia a dia nesta rica moradia.
A exuberância dos jardins, era marcada pela presença de vegetação exótica oriunda do distante Brasil, tornando cada jardim numa "embaixada tropical" da Amazónia, sendo em regra as palmeiras, as rainhas destes frondosos espaços.
Não esquecendo a índole rural desta propriedade, era o rés do chão utilizado como lagar e zona de produção agrícola em regime de auto suficiência.
No casario envolvente eram acomodados os animais e armazenados os produtos da terra, dos quais apenas restam memórias.
Como o sucesso e boa fortuna é frequentemente alvo de invejas, tal como a incompreensão e intolerância com a inovação, várias foram as vozes que jocosamente retrataram esta nova classe social...
"Há longos anos o brasileiro (não o brasileiro brasílico, nascido no Brasil - mas o português que emigrou para o Brasil e que voltou rico do Brasil) é entre nós o tipo de caricatura mais francamente popular [...] grosso, trigueiro, com tons de chocolate, pança ricaça, joanetes nos pés, colete e grilhão de oiro, chapéu sobre a nuca, guarda-sol verde, vozinha adocicada, olho desconfiado, e um vício secreto. É o brasileiro: [...], o senhor de todos os prédios grotescamente sarapintados [...] Tudo o que se respeita no homem é escarnecido aqui no brasileiro. [...] De facto, o pobre brasileiro, o rico Torna-viagem, é hoje, para nós, o grande fornecedor do nosso riso."

Queirós, Eça de, Uma campanha alegre, vol. 2, Porto, Lello, 1978, pp.87-89.
"Veio edificar uma casa no sítio em que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo com três andares e varandas, jardins com estátuas de louça e alegretes pintados de verde e amarelo, o qual tinha mais fama que os jardins suspensos da Babilónia"

Dinis, Júlio, Morgadinha dos Canaviais, Porto, Liv. Civilização Editora, 1964, p.137 .
"[...] mandaria edificar um palacete de azulejo côr de gema de ovo, com terraços no tecto para quatro estátuas simbólicas das estações do ano, e dous cães de bronze sobre as ombreiras do portão de ferro com armas fundidas, de saliências arrogantes, entre os dois colossos de dentaduras anavalhadas, minazes, como todos os bichos de heráldica."

Castelo Branco, Camilo, Eusébio Macário, 7ª ed., Porto, Liv. Chardron, s/d, p.50. 
https://www.instituto-camoes.pt/revista/revista11m.htm

http://palaciorochavellozo.no.sapo.pt/brasileiro.htm

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

As dez mais belas Ruínas em cinco estilos

 
Aproveitando o mote que tantas ondas tem agitado no cibernético espaço: "As dez mais belas ruínas", ou "Os mais belos locais abandonados",  já vistas em diversas listas um pouco por todo o lado, de que este site se orgulha de ter dado algumas contribuições, tanto em planos nacionais como internacionais, decidi explorar esse tema, gerando as minhas próprias listas.
Por a escolha ser difícil e injusta, pela beleza gráfica de cada uma, resolvi ponderar diversos critérios menos superficiais, tais como : Importância histórica, valor arquitectónico, aproveitamento económico, social e cultural, que são muito mais criteriosos no âmbito deste nosso projecto.
Como não se pode "misturar alhos com bugalhos", formulei cinco categorias : Património Industrial, Arquitectura Palaciana, Ruínas com História, Jóias de Arquitectura e Ruínas Românticas. Esta última dedico a casos anónimos com menor protagonismo social, mas que nem por isso deixem de ter importância em qualquer outro plano.
Entre perto de um milhar de ruinosas ocasiões com que me deparei nestes últimos cinco anos de actividade vi um pouco de tudo, no entanto e como é óbvio, não consegui ir a todos os locais que queria, e menos ainda todos aqueles que desconheço, por isso, esta lista não deve ser entendida como o top nacional, mas como o  top Ruin'Arte.
Aqui ficam cinquenta momentos e monumentos que já conheceram melhores dias,  que tive o privilégio de visitar...

Património Industrial
 Central Termo Eléctrica do Freixo - Porto
 Efanor - Matosinhos
Fábrica das Devezas - Gaia 




Abel Pereira da Fonseca - Lisboa
Fábrica do Braço de Prata - Lisboa
Fábrica de Fiação A.C. da Cunha Morais - Crestuma
Moinhos de Santa Iría - Póvoa de Santa Iría
 
Real Fábrica de Atanados - Povos - Vila Franca de Xira
 
Moagem do Caramujo ou Fábrica Aliança - Cova da Piedade

 Central de Captação de Água de Foz do sousa
 Fábrica de Lanifícios da Arrentela
Arquitectura Palaciana


Paço das Alcáçovas
Quinta do Duque - Alpriate

Palácio do Duques de Aveiro - Azeitão

Casa do Passal - Cabanas de Viriato

Real Quinta de Caxias
Paço dos Duques de Cadaval - Tentúgal

Palácio dos Viscondes da Gandarinha - Sintra
 
 Casa da Pesca do Marquês de Pombal - Oeiras

 Palacete do Duque de Saldanha - Sintra

 
Casa da Praça - Frazão
Ruínas Históricas

Forte da Graça ou do Conde de Lippe - Elvas
Torre de S. Sebastião da Caparica ou Lazareto Velho - Porto Brandão

Convento de N. Senhora de Seiça - Ribeira de seiça

Real Castelo de Montoito ou de Valongo
 
Convento de santo António da Castanheira - Loja Nova
 
Castelo de Barbacena

 
Torre da Águias - Brotas
 
Quinta do Covelo - Porto 
 
 Estação de Mala-Posta - Sanfins
Jóias de Arquitectura


 
  Cavalariças de Santos Jorge - Estoril

 Villa Sousa (Prémio Valmor 1912) - Lisboa

 
 Castelo da D. Chica - Palmeiras

 Quinta do Montado - Canidelo

 Palácio da Fonte da Pipa - Loulé

 Chafariz dos Olhos - Lisboa

 Ermida de S. Faraústo - Oriola

 Casa do Professor ou Quinta do parreira - Oliveira de Azeméis

 Av. dos Aliados - Porto

  
 Casa Arte Nova - Avintes

Ruínas Românticas


 
Cinema Batalha - Porto

 Hotel Águas de Radium ou Serra da Pena - Sortelha

 Pavilhões do Parque - Caldas da Rainha
 
 Centro Comercial Cruzeiro - Monte do Estoril

 Casa de Salazar - Vimieiro

Quinta do Paço da Serrana - Boassas - Cinfães do Douro
  
 Casa do Relógio ou Manuelina - Foz do Douro - Porto

 Celeiro setecentista - Arrábida

 Seminário de Santa Teresinha - Pombeiro de Ribavizela

 
Prédio na R. de Miragaia (já derrocado) - Porto

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