segunda-feira, 19 de abril de 2010

Convento dos Monges ou convento de Nossa Senhora do Castelo das Covas de Monfurado - Serra do Monfurado / Montemor-o-Novo.

Quando fui desfiado para um safari ruinoso no concelho de Montemor o Novo, sabia que iria encontrar algumas pérolas de património degradado, mas nunca me passou pela cabeça que seriam de tão grande calibre. 

Foi um exaustivo dia a brincar aos fotógrafos em estruturas que ameaçavam ruir a qualquer instante e que proporcionam além de um interessante espólio fotográfico, um sem fim de fortíssimas emoções. Foi como se tivéssemos feito uma viagem no tempo regredindo cinco séculos de história. Num só dia visitámos casas nobres, clericais e plebeias tentando dessa forma aproximar um povo e uma cultura que representam apenas uma bandeira...
 
É mais um retrato  de um País em ruínas, que sem olhar para classes e credos, vai-se esquecendo do seu distante passado e valioso património arduamente edificado pelos egrégios avós. 
Estas ruínas são atentados à inteligência e moral de um povo, são também graves crimes de lesa cultura perpetrados ao longo de várias gerações de por mentecaptas eminências, que não distinguem uma verdadeira obra de arte de um rotunda animada por uma escultura “vanguardista de intervenção pop”.
 

Não consigo entender porque é que um País com quase novecentos anos de história e tantos grandiosos nomes de cultura, nobreza e arte deixa chegar  ao estado de ruína  o seu património arquitectónico, comprometendo todo um glorioso passado.
É apanágio da raça lusitana resistir às intempéries e vicissitudes que através dos tempos  nos assolaram... conseguimos fazer frente a invasores, pragas, crises financeiras, politicas e sociais...mas não conseguimos fazer frente às eminências pardas que nos governaram e conduziram à ruína este maravilhoso País à beira mar plantado... se calhar temos o que merecemos...

Este monumento é um verdadeiro testemunho de preservança, esforço colectivo e  fé. É também testemunho de má gestão política, passividade e inacção, desleixo cultural e ingratidão...
Foi edificado no séc. XVIII , por monges anacoretas, que através do sofrimento, penitência, oração, meditação e abstinência, expiavam os seus pecados e evoluíam espiritualmente. Estes monges habitaram primeiramente as cavernas da Serra de Monfurado, onde se isolavam do mundo e dos pecados que os tentavam. 
Os mosteiros e conventos foram idealizados para esse fim, eram locais de reclusão onde os pecados mundanos eram privados de entrar, facilitando dessa forma a vida de quem neles habitava evitando o contacto com as tentações do diabo.

Foi Baltasar da Encarnação, um monge que pelo exemplo da sua conduta conquistou fama e merecida simpatia em todo o Alentejo. Pelas obras de caridade e ensinamentos às populações, tal como a espartana vida que caracterizava este grupo de homens santos, que a sua veneração foi crescendo, granjeando o afecto e generosidade da parte de outros crentes.

João de Vilalobos e Vasconcelos, um nobre descendente do morgado da vizinha Torre do Carvalhal,  doou  a Frei Baltasar juntamente com outros três monges, o terreno onde foi edificado este convento. 

O convento de Monfurado, é o resultado de um hercúleo esforço humano e de uma fé inabalável, onde está patente em toda a sua grandiosa estrutura a índole destes monges. Ao contrário de outras ordens religiosas, todos os indícios de riqueza ou opulência foram suprimidos em favor de uma austeridade material que facilmente se entende pela  simplicidade da sua traça e pela falta de elementos decorativos que estes espaços de devoção nunca prescindiram.

 A sua curta história foi marcada pelo terramoto de 1755 que o danificou profundamente e logo após o seu restauro foi vitimado pelo decreto de 1834 que extinguiu as ordens religiosas, ditando assim a sua sorte. Ainda se manteve aberto ao culto até ao início do séc. XX e as habitações que o rodeiam estiveram a uso até aos anos oitenta dessa centúria.
 

Assim entrei no seu interior, o choque emocional que senti ao vislumbrar  este desolador cenário foi suficiente para me fazer chegar uma lágrima ao canto dos olhos...exprimi um vigoroso FODA-SE!!!! Ao ponto do meu colega ter pensado que me tinha acontecido alguma coisa... tinha sido apenas  a minha revoltada sensibilidade que não conseguiu conter  mais uma decepção... foi também o início de uma das maiores reportagens deste projecto...

A nave central foi completamente despojada de todos os elementos que a compunham, restando apenas no chão uma pedra tumular dois púlpitos e o retábulo que ainda tem o encanto com que foi desenhado.
 

A pedra tumular tem uma inscrição que denuncia os seus locatários, trata-se de D. Luís Fidalgo e sua mulher Archangela, falecidos em 1745...nada mais consegui apurar.
O retábulo foi certamente idealizado com todos os preceitos de magnificência e pobreza, a talha dourada, característica do estilo barroco, foi substituída por frescos em trompe l’oeil, conseguindo ter deste modo a austeridade e opulência que esta igreja necessitava. 

 As pinturas que ainda hoje exibe, são apenas desenhos geométricos e motivos rocaille sem alguma referência religiosa, há também um brasão partido, com as armas da coroa e da família Matos ou Sepúlveda, conforme o identifiquei pelo armorial lusitano. 
 
Embora tenha investigado a genealogia de J. Vilalobos de Vasconcelos, não encontrei nenhuma ligação com estas famílias, mas fiquei bastante agradado quando soube que descendemos da mesma linhagem... a família Freire d’Andrade. Ah! “ganda” primo!!!!

Por um corredor lateral temos acesso à cripta, onde se encontra ainda um altar e oratório em relativo bom estado de conservação. A luz existente e a monocromia destes espaços não permitem grandes contraste de cor e de luz, conforme estou habituado a trabalhar, tornando este espaço no ponto de vista de fotogenia como um difícil exercício de criatividade gráfica.

Seguimos em direcção ao claustro que se encontra intransitável pela vegetação que livremente ali cresceu, o que torna esta ala uma vez mais no ponto de vista fotográfico completamente impraticável, sobrando apenas as arcadas para tirar algum partido fotogénico deste espaço.

Por uma íngreme e escura escadaria acessa-se ao andar superior, onde somos conduzidos por dois compridos corredores, ao coro alto e uma outra ante camara, à torre sineira e às celas dos monges, além de outros cómodos que serviam para aliviar as monásticas tripas destes homens de Deus. 
Há ainda uma grande sala que por ser mais iluminada, poderá ter sido utilizada pelos frades copistas que ali viveram.
Uma outra escada, menos grandiosa e mais iluminada levou-nos a um espaço que se adivinha ter servido de cozinha e sala de jantar, além de uma grande lareira, há também lavatórios que nos mostram que a higiene destes monges não era descurada.
Num outro corredor que nos leva ao claustro, jaz no chão o que resta de um engenho coberto de ferrugem e que deverá ter sido nos seu tempos áureos uma bomba de água.

 Uma vez mais voltamos ao claustro, que ao lado direito das suas arcadas tinha várias salas,  sendo a última certamente uma dispensa onde se armazenariam alguns viveres e onde se distribuiria  às populações carenciadas alguns dos géneros ali produzidos.
 Outras salas  retratadas devem ter sido enfermarias e camaratas que acolhiam viajantes e crentes que por aqui procuravam abrigo ou reclusão. Todas elas estão vazias mas ainda capazes de contar algumas histórias, para isso basta ouvir com atenção as pedras e paredes que continuam eloquentemente a transmitir as suas memórias.

Da mesma propriedade fazem parte outros edifícios, o convento tem adossado em cada alçado outras estruturas de menor dimensão  e importância arquitectónica, cujo acesso nos foi vedado pelas silvas que como autênticas guardiãs mantém inexpugnável os seus interiores abrindo apenas uma excepção. 


 
 Há também uma casa de maior dimensão e com uma traça mais elaborada, conhecida nas cartas militares como “palacete dos monges”, embora esteja longe de parecer um palacete,  pela falta de nobreza na sua traça, tem um tamanho que quase lhe permite ter esse mesmo epíteto, o que choca naturalmente com a austeridade que era imposta aos monges que aqui viviam e me leva a crer que seria utilizada por outras pessoas que não fossem de carácter religioso ou monacal.
 Uma vez mais as silvas fazem questão em manter qualquer intruso longe do seu interior, permitindo apenas a sua abordagem pelo lado de fora, esta casa segundo consta foi habitada até aos anos oitenta do século passado e poderia perfeitamente ser recuperada como casa de campo ou quinta. 

Embora todas as estruturas arquitectónicas deste núcleo estejam em avançado estado de ruína, os campos circundantes estão bem aproveitados como propriedade agrícola, demonstrado que a prosperidade e o trabalho neste local ainda não tiveram fim.

A visita a este monumento só deve ser feita por alguém que esteja acompanhado e tomando todos os cuidados necessários para evitar situações de risco. Todo o convento está numa situação de derrocada eminente, havendo vários pontos estruturais muito fragilizados que auguram ruir a qualquer instante. 
 
Uma vez que estamos num templo, é portanto aconselhável ter não só o respeito natural que este tipo de construções exige, como também é preciso ter em conta os perigos constantes destas aventuras ruinosas. 

A nossa segurança nunca deve ser posta em causa por muitos apelos que possamos ter nalgum ponto de vista mais interessante, evitando deste modo o risco que a nossa integridade física corre de se arruinar de um momento para o outro.

Localização : 38º34'26''N  8º11´36''W

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A companhia do Cabo Submarino - Carcavelos

Já tinha visitado este local noutras duas ocasiões, passo por estas ruínas sempre que me desloco a Lisboa e ainda não me tinham inspirado o suficiente para as abordar com a paixão que este trabalho exige...finalmente a luz estava como eu queria e o meu sacanídeo deu uma grande ajuda na composição destas imagens, acabou por valer a pena esperar...obrigado Edgar...
Foi em 1862 que o telégrafo revolucionou as comunicações a nível global com a instalação do primeiro cabo transcontinental, aproximando distâncias e ligando todos os cantos do mundo de uma forma instantânea. Portugal por ser um País com colónias além mar teve a necessidade urgente de criar uma rede telegráfica eficiente, que pudesse além de cumprir com essa tarefa, aproximar-nos-ia em termos tecnológicos e sociais de outros países de vanguarda.

A localização geográfica de Portugal, quer no continente quer nos Açores, tornou-se bastante atractiva para para as empresas internacionais apostarem neste avultado investimento. Foi em  1870, que o governo de D. Luís assinou com a inglesa Falmouth Gibraltar and Malta Company a primeira concessão para a exploração de um cabo entre Londres e Malta, com amarração em Portugal continental. Carcavelos foi o ponto de partida e assim nasceu a Companhia do Cabo Submarino, de onde sairam ligações para todos os continentes conectando-nos aos mais distantes pontos do planeta.

Foi adquirida em 1872 a Quinta Nova, de Santo António ou da Lobita, conforme foi conhecida através dos tempos, uma extensa propriedade rural virada para a praia. O valor da venda cifrou-se na altura pela fantástica soma de 23 contos de reis!!! Além da sua localização, o solar da quinta tinha uma atraente e imponente traça , um luxurioso jardim e ainda uma vinha que produzia anualmente 500 barris de vinho . Todo este conjunto foi determinante para os “súbditos de sua majestade” se instalarem neste local.
 
 Esta grande empresa foi responsável por uma enorme transformação que teve Carcavelos e toda a zona do Estoril, no plano imobiliário, económico e social. Houve um êxodo massivo de uma comunidade britânica que  aqui se fixou, com ela vieram novos hábitos e valores sociais que rapidamente tiveram sucesso. Foi neste espaço que pela primeira vez em Portugal se jogou foot-ball, o tennis, o volley-ball, o golf, o  rugby, etc. Aqui também foi fundado em 1932 o “Saint Julian School”, que ainda hoje é uma referência no ensino.

Nos terrenos da propriedade foram construídos dois edifícios de grande volumetria e de traça simples para albergar alguns funcionários e instalações técnicas. São estes dois edifícios que este post retrata, são os sobreviventes deste epopeia que embora já tenha acabado, ainda não teve fim...


Pertencem hoje à CM de Cascais que os poderia reabilitar e criar além de postos de trabalho, alguma infra estrutura que nos pudesse trazer alegrias e dividendos. Ideias não faltam, desde um centro ambiental, desportivo, cultural, etc... em vez de promover droga, prostituição e decadência. Segundo relatos e testemunhos fidedignos estas casas têm servido para essa finalidade, o que está certamente bem longe das necessidades primárias desta histórica vila.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Aldeia de Safira - Silveiras / Montemor o Novo

Numa viagem cibernética na demanda de mais interessantes ruínas  encontrei  uma aldeia abandonada que agoniza no Alentejo. As descrições que li sobre este local não lhe fizeram suficiente justiça ou a minha imaginação não terá sido suficientemente estimulada...é mais um local paradisíaco que além de distantes recordações guarda ainda entre as suas pedras muitas memórias latentes.
 

 Quando falei neste local ao meu novo amigalhaço que me levou num agradável e ruinoso passeio por terras alentejanas, para grande sorte minha, não só ficava no nosso itinerário como também já conhecia este local. A aldeia de Safira fica situada perto de Montemor o Novo, numa via de acesso a escassos kilómetros da EN4. Por ser demasiado isolada das vizinhas populações foi perdendo importância social e económica, que acabou por condenar esta povoação a uma morte lenta. Irónicamente, as distâncias hoje em dia são fáceis de cumprir, embora de nada valha a esta velha aldeia que ninguém se lembrou de ressuscitar.
 A aldeia de Safira foi erigida no cume de um pequeno monte, circundado por uma lagoa e campos de montado. Avista-se o cemitério na outra margem, que embora não esteja bem cuidado é ainda utilizado e não está em ruínas. A  estrutura da aldeia é bastante pequena, resumindo-se a um pequeno aglomerado de casario e a uma igreja, cujas dimensões que testemunham que esta terra era frequentada por uma numerosa população.
 

É mais uma paisagem idílica que parou no tempo. Aqui reinava a paz e a alegria de uma manhã de primavera... todos os elementos constantes nesta paisagem eram de uma harmonia incomensurável, não só pela quietude do espaço circundante, mas também pela comunhão que esta aldeia tem com a natureza, justificam a toponímia de “Safira” como uma valiosa e rara jóia.

Todo este património natural, histórico e arquitectónico fizeram-me viver uma forte emoção e inspiraram um dia de trabalho ruinoso. O ar puro que se respira convida a sentir o cheiro do campo e apura todos os sentidos, sem um único indício de poluição sonora, visual, actos de vandalismo ou qualquer outro agente intoxicante, facilmente nos deixamos envolver nesta atmosfera cheia de fantasmas e boas memórias.

 As habitações são humildes e construídas em taipa, como é característico nesta região. Este tipo de construções utilizam como matéria prima para a sua edificação a própria terra que é retirada quando se escavam os alicerces. 
 Com esta terra é feita uma argamassa que junta com a pedra, mantém firme  as robustas paredes. Por serem utilizados materiais que não oferecem grande resistência aos agentes erosivos, a manutenção torna-se difícil e constante tornando-as vulneráveis a um período de tempo bastante mais curto em relação a outro tipo de construções.

Há apenas quatro casas em Safira, por serem de arquitectura chã não permitem um grande aglomerado populacional, o que leva a concluir que toda a importância deste local se centrava na igreja, pólo de atracção social de todas as localidades vizinhas e certamente deu um enorme protagonismo económico e político a Safira, tendo esta chegado a ser freguesia do concelho de Montemor o Novo e teve até um titular, Augusto Dâmaso Miguens da Silva Ramalho da Costa, um latifundiário de Montemor-o-Novo, cidade onde exerceu também o cargo de Presidente da Câmara. O título de Visconde foi criado  por decreto do Rei D. Luís em 30 de Abril de 1886 e mais tarde foi elevado a Conde. Faleceu em Montemor a 3 de Fevereiro de 1945, sem descendência.
 “No ano 1768 o Padre Thomás de Vasconcelos Camello, respondendo "aos interrogatórios" ordenados pelo  Arcebispo de Évora Dom Frei Miguel de Távora, escrevia: "tem esta freguesia 57 propriedades, e nelas se incluem 120 fogos onde residem 578 pessoas. No alto de uma charneca estão edificadas a igreja e as casas do padre e do sacristão ". 
 
 Segundo esta descrição, este pequeno aglomerado era o centro de uma dispersa povoação que para aqui convergia  pela existência de uma “casa de Deus” . A igreja foi construída no século XV, durante o bispado do Infante Cardeal D. Afonso, filho de D. Manuel I e foi severamente castigada no terramoto de 1755. Dela restam hoje apenas as paredes, o telhado há muito que derrocou  deixando exposto o seu interior. 
 

 A fachada  mantém-se firme desde o último restauro em 1903, conforme a data de uma lápide que teimosamente resiste às intempéries. 
 O retábulo era ornamentado com frescos em trompe l’oeil dos quais restam ainda ilegíveis vestígios, tem três nichos e uma escada que dá acesso ao nicho maior . Onde era a sacristia jaz hoje no chão um telhado apodrecido, entre quatro paredes pintadas num vermelho vivo que bem condiz com o vinho tinto da região. 

As casas que compõem este conjunto são bem diferentes entre si. A primeira estrutura da aldeia tem uma comprida fachada e uma arquitectura mais ou menos elaborada entre as casas que une.  São três casas geminadas que certamente terão sido a taberna e loja, além de habitação.   

A casa menor quase se sobrepõe a esta, plantada a caminho da igreja bem no meio da encosta evidenciando-se pelo isolamento e pela arquitectura mais rude e robusta... embora a sua robustez já não seja a mesma, as suas paredes mantém-se de pé.
 

A maior casa seria certamente a do padre e é a que se encontra em pior estado de conservação não havendo sequer vestígios da sua traça. Tem como vizinha duas oliveiras e tem ainda nas traseiras um nostálgico forno.

Safira estará para sempre preservada enquanto o seu espírito se mantiver vivo,  salvando-se pela solidão que a mantém a sua índole incólume e intocada pelo progresso.

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