quarta-feira, 22 de maio de 2013

Casa do Monge Lagareiro / Lagar dos Frades - Ataíja de Cima

 
Soube da existência deste lagar pelo programa Horizontes de Memória, apresentado pelo saudoso Dr. José Hermano Saraiva, que tanto contribuiu para cultura portuguesa...
Aqui faço uma tardia homenagem a esse grande homem, que ensinou a domicílio 10.000.000 de portugueses e a quem muito devemos pela sua linda obra.
Casa do Monge Lagareiro, já na altura da gravação do programa era uma ruína em avançado estado de degradação, a que esse ilustre professor, oportunamente  chamou a atenção para a sua eminente derrocada se não fosse feita uma rápida intervenção...
 
É pena que nenhuma competente  eminência o tenha ouvido... pois acabou mesmo por derrocar... da sua estrutura restam paredes, vestígios do telhado... e muitas memórias...
Está situado em Ataíja de Cima a escassos metros da Estrada Nacional 1 / IC2,  e fazia parte do couto do Mosteiro de Alcobaça.
 
A sua revitalização colocaria esta terra no mapa e traria dividendos para toda a população e para quem passa nessa movimentada via, pois nada é mais saudável para quem viaja do que uma paragem num aprazível local onde se possa descansar, enquanto se goza um ambiente calmo e impregnado de beleza e cultura...
...seria didáctico, criando um núcleo museológico e um espaço comercial e de restauração, poder-se-iam servir monásticos repastos e vender lembranças da região que é rica em tradições... apenas seria necessário um pouco de trabalho e alguma sensibilidade... hoje chama-se empreendedorismo...
A sua construção deve-se a Frei Manuel de Mendonça, na sequência da plantação de grandes olivais por este incentivada, na zona do sopé da Serra dos Candeeiros.
Pelas condições propícias para o cultivo deste fruto, esta localidade foi largamente explorada por vários proprietários, entre os quais os frades de Alcobaça.
A este olival foi chamado "do Santíssimo", por a suas receitas reverterem para cobrir as despesas do culto do Santíssimo Sacramento... e espera agora uma extrema unção...
Este monumento foi mais uma vítima da extinção das ordens religiosas, e desde 1834 que o seu destino ficou traçado, pois o zelo necessário para a sua exploração e manutenção desvaneceu-se com o desinteresse dos seus sucessivos proprietários, apenas quem o construiu e manteve lhe tinha o amor e dedicação paternal que o fez viver durante alguns anos de glória.
A sua traça é de cariz nobre, longe da austeridade característica das ordens monásticas, e a qualidade da construção está patente nas suas firmes paredes que teimosamente o mantém de pé.
 
Foi construído com a técnica de "taipal à galega", que consiste numa argamassa de cal, argila, cortiça e azeite, preenchendo uma "estrutura com prumos e barrotes de travejamento", garantindo desta forma as melhores condições de isolamento térmico e durabilidade.
As molduras de brincos com frontão de laços nas janelas do primeiro andar e as janelas gradeadas do nível térreo, assemelham-no a um pequeno solar,  a graciosa pedra de armas que ostenta o brasão do Mosteiro de Alcobaça sobre motivos rocaille e encimada por uma coroa, dão-lhe uma altivez que faz corar muitas elegantes residências.
A fachada apresenta uma fenestração equilibrada, tendo ao centro uma janela cega. O seu estado de degradação desvendou um mistério que há muito intrigava os mais curiosos, a janela que se cuidava ser entaipada, revelou-se ser apenas um elemento ornamental.
As dependências do lagar dividiam-se na parte de habitação e na de produção, sendo a primeira no andar superior onde vivia o monge lagareiro, o rés do chão era reservado à produção de azeite e armazenamento. Tinha adossadas outras dependências para os animais, das quais restam apenas paredes, pensando-se pela falta de vestígios que o telhado fosse de colmo.
Rezamos agora para que este triste monumento, conheça melhores momentos e volte um dia a produzir riqueza...

IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 67/97, DR, 1.ª série-B, n.º 301 de 31 dezembro 1997 *1 -  39º33'01.67'' N 8º53'47.68'' O

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Convento de Santo António da Castanheira


O Convento de Santo António da Castanheira, foi uma das maiores e melhores das ruinosas aventuras deste vosso amigo... já tinha tomado conhecimento deste monumento, mas nem sequer por um momento imaginei que fosse um dos nossos maiores tesouros, quer pela sua arquitectura, quer pela sua história...
Chamou-me a atenção o meu bom amigo Daniel Gouveia, que o tinha visitado com um grupo... a sua descrição e fotografias por muito eloquentes que fossem, não lhe fizeram a devida justiça... a devassidão e tesouro que vislumbrei... era muito maior... uma vez mais o Jorge Gil de Almeida, meu reputado companheiro de ruínas e um grupo de jornalistas acompanharam e documentaram a aventura...
Como se pode descrever com a devida eloquência e sem faltar palavras, um cenário tão grotesco e rocambolesco como este?? Como se pode admitir um crime continuado ao longo de várias gerações em nome da competência??Como é que se pode desprezar a história, a glória, a nobreza de um povo e uma herança tão digna?? Qual é o seu futuro??
Entre muitas outras perguntas que naturalmente surgem ao visitar o Convento de Santo António da Castanheira, estas foram as únicas que ainda não tiveram resposta... todas as outras estão bem documentadas em vários sítios de história e património, corroborando o seu valor histórico e arquitectónico...
Este monumento é um dos momentos mais altos deste nosso projecto, que conta já com perto de um milhar de reportagens realizadas, tendo já testemunhado as mais diversas e difíceis histórias que se podem encontrar neste pobre País à beira mar abandonado...
O Convento de Santo António da Castanheira, reúne num só monumento, as mais vis atitudes de estupidez e ganância humana... desde a profanação de túmulos, a dispersão do seu riquíssimo espólio e a inviabilização da sua cuidada reabilitação... foram demasiados golpes baixos, sendo que a maior parte, foram pela parte do estado...
Desde 1810, data da terceira invasão francesa, que este convento tem sofrido diversas vicissitudes, e entrou em decadência a 28 de Março de 1834, tal como todos os outros que pertenciam a ordens masculinas, nem os terramotos de 1531 e de 1755 o danificaram tanto como estes infelizes episódios...
Desde então a sua espoliação continuada conduziu-o ao seu estado actual, tendo sido maltratado pelas muitas intempéries que passou... e continua a passar...
Foi outrora um próspero convento e viveu muitos e bons dias de glória. O ambiente que hoje  aqui se vive, está entre o glorioso e nobre, e entre o pavoroso e pobre...
 
Os históricos episódios que aqui tiveram lugar, tornaram-no num local pleno de memórias ainda guardadas entre as suas decadentes paredes, cujos gritos ecoam com estridência muda, e podem ser ouvidos pela sensibilidade do ser mais insensível.
A índole sagrada deste monumento é reforçada por ser a última morada de vários representantes das mais nobres casas do reino, repousando aqui algumas das mais ilustres personagens que fizeram a nossa história, marcando em vida o nosso País como nação, e marcando na sua morte este local como panteão.
Os seus actuais proprietários tudo têm feito para defender o que ainda resta, mas as infindáveis "burrocracias" travaram e chumbaram todos os projectos que salvariam a dignidade deste monumento, além de terem desgastado até à morte o seu último mentor, o digníssimo Dr. Mário Lopes da Costa,  que merece além de uma homenagem deste nosso projecto, um lugar no céu...
A sua longínqua história é reportada aos anos  entre 1396 e 1405. Foi edificado por ordem de D. João I,  que ao pretender ampliar o convento franciscano em Alenquer o fez erigir.
Sabendo da existência de uma ermida dedicada a Santo António de Vila Franca que distava trinta quilómetros de Lisboa, incumbiu os monges desse convento,  Frei Pedro de Alamancos, mestre de Santiago, Frei Diogo de Arias e seus monacais seguidores de aí cumprirem este santificado projecto.
Frei Pedro era tio de Joana de Bulhões, familiar de Santo António, esta era casada com João de Mello e Cunha (Castanheira), o capitão que recepcionou Cristóvão Colombo na Ilha de Santa Maria, factos coincidentes ou premonitórios da futura história deste monumento...
Pois foi neste local que o citado navegador se reuniu no dia 11 de Março de 1493 com a rainha D. Leonor de Lencastre e com o seu irmão, Duque de Beja, o futuro rei D. Manuel I. Também D. António de Ataíde, o primeiro Conde da Castanheira, se tornou mais tarde no século XVI o patrono deste convento, transformando-o no panteão da sua linhagem... coisas do destino...
A sua estrutura foi sendo alterada e ampliada ao longo do tempo, apresentando por isso diversos estilos de arquitectura, enriquecendo-o como monumento.
O convento foi depois dinamizado por D. Afonso V, que ordenou a construção de uma fonte para que a sua auto-suficiência fosse garantida, uma vez que a primeira secou.
No seguinte reinado, D. João II re-constrói a fonte dividindo-a em duas para as consolidar, uma vez que a primeira obra não estava segura. Sua mulher, a Rainha D. Leonor, em 1493 promove uma nova ampliação ao construir as capelas da igreja e as celas do convento.
Também D. Manuel I investiu neste convento ao melhorar as oficinas, construir o claustro, erguer uma cerca e fazer uma horta, corroborando que este local foi um sítio de eleição para a segunda dinastia.
Após o terramoto de 1531, em que a vila de Castanheira sofre graves danos, o seu senhor, D. António de Ataíde, aplica os seus esforços e meios na reconstrução da vila e do convento, tornado-se então seu padroeiro.
Deve-se a D. António de Ataíde, 1º Conde da Castanheira, entre 1540 e 1550 a construção das capelas laterais onde instala o seu panteão de família.
Foi o seu filho, D. Jorge de Ataíde, Bispo de Viseu, o responsável pela casa do fresco.
D. Jorge é possivelmente quem mais contribuiu para este conjunto religioso, tal como o conhecemos. Todo o convento foi remodelado por obras suas.
 
A capela-mor é reedificada onde coloca os túmulos dos seus ilustres pais, erigiu um altar com sacrário, dois altares com retábulos laterais, são colocados caixões na sacristia, providencia cadeiras para o retrocoro,  constrói o corredor que liga a igreja ao claustro, a escada que  acedia à biblioteca, e reconstrói o alpendre e as quatro galerias do claustro.
Na segunda metade do Séc. XVII é construído coro-alto, é edificada a segunda casa do fresco pelo o aproveitamento do tanque e da antiga ermida de Santo António de Vila Franca, onde está uma das fontes atrás referidas, e onde resta uma lápide tumular de inigualável beleza.
O convento sofre novamente danos no terramoto de 1755, rompendo-se um fresta ao logo da nave central, e como um mal nunca vem só, é em 1810 saqueado pelos soldados franceses na terceira invasão...
Para agravar o seu destino, é abandonado, novamente saqueado e vandalizado em 1834, quando são extintas as ordens religiosas masculinas. O que restou do seu espólio foi inventariado e requerido pelo delegado de Vila Franca,  tendo sido  os seus livros (cerca de 1700) distribuídos por bibliotecas de Lisboa e o espólio ecuménico por várias igrejas.
Joaquim Pedro de Quintela, segundo barão de seu nome e primeiro conde do Farrobo, adquire-o em 1838 e converte-o numa fábrica de fiação de sedas, e aproveitando a capela da Conceição faz o panteão da sua família, decorado com elementos imperiais e maçónicos onde está o seu profanado túmulo.
Após a falência de Farrobo, o convento vai à praça e os seus azulejos são vendidos ao conselheiro José Dias ferreira, que os traslada para a capela da sua casa em Colares, é também vendido a este senhor os retábulos e alguma estatuária que leva o mesmo fim.
Já no final do século XIX, D. Manuel Domingos Telles da Gama, 1º conde de Cascais, adquire a propriedade em quase estado de ruína e doa algumas peças do convento à capela de Jesus dos Incuráveis, seu filho D. Domingos em 1933 chega a aqui habitar e utiliza a igreja como adega e celeiro ameaçando de ruína o resto do edifício. Por essa altura restavam ainda no coro cerca alguns volumes abandonados da antiga biblioteca.
Mais tarde em 1982 é inventariado pela comissão de arte sacra do Patriarcado de Lisboa, todas as peças da igreja matriz de Castanheira, tendo sido identificadas três que outrora pertenceram ao convento da Castanheira.
Em 1984 o convento é vendido a José Albuquerque Barroso que o começa a reabilitar e em 1996, é novamente vendido aos actuais proprietários... que compraram um sonho e uma dor de cabeça... não que a reabilitação seja um processo difícil para quem tem gosto e cultura, mas os organismos tutelares e as burocracias, inviabilizam por excesso de zelo e/ou incompetência qualquer projecto que seja melhor do que uma ruína...
A fachada com traços de maneirismo , apresenta três nichos onde vivem santos franciscanos em terracota,  abrindo-se em par duas janela encimadas por uma clarabóia oval, e uma "pedra de armas" com o símbolo desta ordem religiosa por baixo do nicho maior.
A galilé é aberta num arco de asa-de-cesto e conduz-nos ao interior do templo por uma porta manuelina esmeradamente esculpida com elementos vegetalistas, e subliminarmente gravada uma cruz templária, que denuncia a presença dos cavaleiros da Ordem de cristo.
A nave central é ladeada à esquerda pela capela dos Ataíde, o espaço mais sumptuoso deste templo. A parede ostenta ainda orgulhosa uma fantástica pedra de armas, no chão as lápides tumulares lembram e guardam religiosamente os ilustres desta casa, os tectos abobadados e nervurados mantêm-se firmes como o próprio firmamento.
O presbitério da capela é uma obra prima de arquitectura renascentista, o imponente portal é esculpido com relevos florais e as pilastras apresentam duas efígies de uma beleza ímpar, as suas paredes estão ténuamente pintadas com alegres frescos setecentistas que resistem estoicamente ao tempo e às intempéries.
 
Os tectos igualmente nervurados, são rematados por bucetes com temas vegetais e heráldicos, o retábulo e o altar foram vandalizados e deles sobra o vestígio da sua grandiosidade.
Na majestosa nave, as lápides tumulares revelam os nomes dos seus eternos locatários que certamente dão voltas perante esta situação, o tecto em de abóbada de berço eleva-se como um céu de almas penadas, nos confessionários expiam-se os pecados aqui cometidos, no púlpito oram-se as horas canónicas que anunciam o fim do mundo...
Lugar da Loja Nova, EM1239. WGS84 (graus decimais) lat.: 38,985289; long.: -9,002061
IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56 de 06 março 1996

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