sexta-feira, 10 de maio de 2013

Convento de Santo António da Castanheira


O Convento de Santo António da Castanheira, foi uma das maiores e melhores das ruinosas aventuras deste vosso amigo... já tinha tomado conhecimento deste monumento, mas nem sequer por um momento imaginei que fosse um dos nossos maiores tesouros, quer pela sua arquitectura, quer pela sua história...
Chamou-me a atenção o meu bom amigo Daniel Gouveia, que o tinha visitado com um grupo... a sua descrição e fotografias por muito eloquentes que fossem, não lhe fizeram a devida justiça... a devassidão e tesouro que vislumbrei... era muito maior... uma vez mais o Jorge Gil de Almeida, meu reputado companheiro de ruínas e um grupo de jornalistas acompanharam e documentaram a aventura...
Como se pode descrever com a devida eloquência e sem faltar palavras, um cenário tão grotesco e rocambolesco como este?? Como se pode admitir um crime continuado ao longo de várias gerações em nome da competência??Como é que se pode desprezar a história, a glória, a nobreza de um povo e uma herança tão digna?? Qual é o seu futuro??
Entre muitas outras perguntas que naturalmente surgem ao visitar o Convento de Santo António da Castanheira, estas foram as únicas que ainda não tiveram resposta... todas as outras estão bem documentadas em vários sítios de história e património, corroborando o seu valor histórico e arquitectónico...
Este monumento é um dos momentos mais altos deste nosso projecto, que conta já com perto de um milhar de reportagens realizadas, tendo já testemunhado as mais diversas e difíceis histórias que se podem encontrar neste pobre País à beira mar abandonado...
O Convento de Santo António da Castanheira, reúne num só monumento, as mais vis atitudes de estupidez e ganância humana... desde a profanação de túmulos, a dispersão do seu riquíssimo espólio e a inviabilização da sua cuidada reabilitação... foram demasiados golpes baixos, sendo que a maior parte, foram pela parte do estado...
Desde 1810, data da terceira invasão francesa, que este convento tem sofrido diversas vicissitudes, e entrou em decadência a 28 de Março de 1834, tal como todos os outros que pertenciam a ordens masculinas, nem os terramotos de 1531 e de 1755 o danificaram tanto como estes infelizes episódios...
Desde então a sua espoliação continuada conduziu-o ao seu estado actual, tendo sido maltratado pelas muitas intempéries que passou... e continua a passar...
Foi outrora um próspero convento e viveu muitos e bons dias de glória. O ambiente que hoje  aqui se vive, está entre o glorioso e nobre, e entre o pavoroso e pobre...
 
Os históricos episódios que aqui tiveram lugar, tornaram-no num local pleno de memórias ainda guardadas entre as suas decadentes paredes, cujos gritos ecoam com estridência muda, e podem ser ouvidos pela sensibilidade do ser mais insensível.
A índole sagrada deste monumento é reforçada por ser a última morada de vários representantes das mais nobres casas do reino, repousando aqui algumas das mais ilustres personagens que fizeram a nossa história, marcando em vida o nosso País como nação, e marcando na sua morte este local como panteão.
Os seus actuais proprietários tudo têm feito para defender o que ainda resta, mas as infindáveis "burrocracias" travaram e chumbaram todos os projectos que salvariam a dignidade deste monumento, além de terem desgastado até à morte o seu último mentor, o digníssimo Dr. Mário Lopes da Costa,  que merece além de uma homenagem deste nosso projecto, um lugar no céu...
A sua longínqua história é reportada aos anos  entre 1396 e 1405. Foi edificado por ordem de D. João I,  que ao pretender ampliar o convento franciscano em Alenquer o fez erigir.
Sabendo da existência de uma ermida dedicada a Santo António de Vila Franca que distava trinta quilómetros de Lisboa, incumbiu os monges desse convento,  Frei Pedro de Alamancos, mestre de Santiago, Frei Diogo de Arias e seus monacais seguidores de aí cumprirem este santificado projecto.
Frei Pedro era tio de Joana de Bulhões, familiar de Santo António, esta era casada com João de Mello e Cunha (Castanheira), o capitão que recepcionou Cristóvão Colombo na Ilha de Santa Maria, factos coincidentes ou premonitórios da futura história deste monumento...
Pois foi neste local que o citado navegador se reuniu no dia 11 de Março de 1493 com a rainha D. Leonor de Lencastre e com o seu irmão, Duque de Beja, o futuro rei D. Manuel I. Também D. António de Ataíde, o primeiro Conde da Castanheira, se tornou mais tarde no século XVI o patrono deste convento, transformando-o no panteão da sua linhagem... coisas do destino...
A sua estrutura foi sendo alterada e ampliada ao longo do tempo, apresentando por isso diversos estilos de arquitectura, enriquecendo-o como monumento.
O convento foi depois dinamizado por D. Afonso V, que ordenou a construção de uma fonte para que a sua auto-suficiência fosse garantida, uma vez que a primeira secou.
No seguinte reinado, D. João II re-constrói a fonte dividindo-a em duas para as consolidar, uma vez que a primeira obra não estava segura. Sua mulher, a Rainha D. Leonor, em 1493 promove uma nova ampliação ao construir as capelas da igreja e as celas do convento.
Também D. Manuel I investiu neste convento ao melhorar as oficinas, construir o claustro, erguer uma cerca e fazer uma horta, corroborando que este local foi um sítio de eleição para primeira dinastia.
Após o terramoto de 1531, em que a vila de Castanheira sofre graves danos, o seu senhor, D. António de Ataíde, aplica os seus esforços e meios na reconstrução da vila e do convento, tornado-se então seu padroeiro.
Deve-se a D. António de Ataíde, 1º Conde da Castanheira, entre 1540 e 1550 a construção das capelas laterais onde instala o seu panteão de família.
Foi o seu filho, D. Jorge de Ataíde, Bispo de Viseu, o responsável pela casa do fresco.
D. Jorge é possivelmente quem mais contribuiu para este conjunto religioso, tal como o conhecemos. Todo o convento foi remodelado por obras suas.
 
A capela-mor é reedificada onde coloca os túmulos dos seus ilustres pais, erigiu um altar com sacrário, dois altares com retábulos laterais, são colocados caixões na sacristia, providencia cadeiras para o retrocoro,  constrói o corredor que liga a igreja ao claustro, a escada que  acedia à biblioteca, e reconstrói o alpendre e as quatro galerias do claustro.
Na segunda metade do Séc. XVII é construído coro-alto, é edificada a segunda casa do fresco pelo o aproveitamento do tanque e da antiga ermida de Santo António de Vila Franca, onde está uma das fontes atrás referidas, e onde resta uma lápide tumular de inigualável beleza.
O convento sofre novamente danos no terramoto de 1755, rompendo-se um fresta ao logo da nave central, e como um mal nunca vem só, é em 1810 saqueado pelos soldados franceses na terceira invasão...
Para agravar o seu destino, é abandonado, novamente saqueado e vandalizado em 1834, quando são extintas as ordens religiosas masculinas. O que restou do seu espólio foi inventariado e requerido pelo delegado de Vila Franca,  tendo sido  os seus livros (cerca de 1700) distribuídos por bibliotecas de Lisboa e o espólio ecuménico por várias igrejas.
Joaquim Pedro de Quintela, segundo barão de seu nome e primeiro conde do Farrobo, adquire-o em 1838 e converte-o numa fábrica de fiação de sedas, e aproveitando a capela da Conceição faz o panteão da sua família, decorado com elementos imperiais e maçónicos onde está o seu profanado túmulo.
Após a falência de Farrobo, o convento vai à praça e os seus azulejos são vendidos ao conselheiro José Dias ferreira, que os traslada para a capela da sua casa em Colares, é também vendido a este senhor os retábulos e alguma estatuária que leva o mesmo fim.
Já no final do século XIX, D. Manuel Domingos Telles da Gama, 1º conde de Cascais, adquire a propriedade em quase estado de ruína e doa algumas peças do convento à capela de Jesus dos Incuráveis, seu filho D. Domingos em 1933 chega a aqui habitar e utiliza a igreja como adega e celeiro ameaçando de ruína o resto do edifício. Por essa altura restavam ainda no coro cerca alguns volumes abandonados da antiga biblioteca.
Mais tarde em 1982 é inventariado pela comissão de arte sacra do Patriarcado de Lisboa, todas as peças da igreja matriz de Castanheira, tendo sido identificadas três que outrora pertenceram ao convento da Castanheira.
Em 1984 o convento é vendido a José Albuquerque Barroso que o começa a reabilitar e em 1996, é novamente vendido aos actuais proprietários... que compraram um sonho e uma dor de cabeça... não que a reabilitação seja um processo difícil para quem tem gosto e cultura, mas os organismos tutelares e as burocracias, inviabilizam por excesso de zelo e/ou incompetência qualquer projecto que seja melhor do que uma ruína...
A fachada com traços de maneirismo , apresenta três nichos onde vivem santos franciscanos em terracota,  abrindo-se em par duas janela encimadas por uma clarabóia oval, e uma "pedra de armas" com o símbolo desta ordem religiosa por baixo do nicho maior.
A galilé é aberta num arco de asa-de-cesto e conduz-nos ao interior do templo por uma porta manuelina esmeradamente esculpida com elementos vegetalistas, e subliminarmente gravada uma cruz templária, que denuncia a presença dos cavaleiros da Ordem de cristo.
A nave central é ladeada à esquerda pela capela dos Ataíde, o espaço mais sumptuoso deste templo. A parede ostenta ainda orgulhosa uma fantástica pedra de armas, no chão as lápides tumulares lembram e guardam religiosamente os ilustres desta casa, os tectos abobadados e nervurados mantêm-se firmes como o próprio firmamento.
O presbitério da capela é uma obra prima de arquitectura renascentista, o imponente portal é esculpido com relevos florais e as pilastras apresentam duas efígies de uma beleza ímpar, as suas paredes estão ténuamente pintadas com alegres frescos setecentistas que resistem estoicamente ao tempo e às intempéries.
 
Os tectos igualmente nervurados, são rematados por bucetes com temas vegetais e heráldicos, o retábulo e o altar foram vandalizados e deles sobra o vestígio da sua grandiosidade.
Na majestosa nave, as lápides tumulares revelam os nomes dos seus eternos locatários que certamente dão voltas perante esta situação, o tecto em de abóbada de berço eleva-se como um céu de almas penadas, nos confessionários expiam-se os pecados aqui cometidos, no púlpito oram-se as horas canónicas que anunciam o fim do mundo...
Lugar da Loja Nova, EM1239. WGS84 (graus decimais) lat.: 38,985289; long.: -9,002061
IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56 de 06 março 1996

domingo, 28 de abril de 2013

Forte de S. Luís Gonzaga - Setúbal

Descobri este forte por acaso, nunca tinha ouvido sequer falar deste esquecido monumento que faz parte do património militar de Setúbal, constituindo um valioso edifício.
Navegava no Google Earth à procura de uma outra ruína, quando percebi os contornos de uma fortaleza em estilo Vauban, os revelins e panos bem definidos denunciavam a sua existência, como naufrago que acena numa ilha deserta a um salvador vindo do céu...
Após uma rápida pesquisa neste cibernético espaço, e com ajuda do meu ruinoso amigo Jorge Gil de Almeida, facilmente concluímos tratar-se do Forte de S. Luís Gonzaga... impunha-se uma incursão...
Desta vez fomos acompanhados por uma jovem jornalista que está a desenvolver um trabalho sobre este nosso projecto, tendo para isso feito um levantamento de uma série de ruínas que pretendíamos explorar... foi um dia em cheio...
O Forte de S. Luís Gonzaga encontra-se soterrado por um autêntico matagal que livremente cresceu e ocupou toda a sua estrutura, à sua volta floresceu um bairro social que em nada tira partido da sua existência... atrevo-me a sugerir à autarquia, não só a sua requalificação, como o seu aproveitamento para um espaço verde que tanta falta faz naquela localidade.
Os custos inerentes a essa obra, facilmente seriam diluídos no orçamento municipal e certamente que esta população, tal como todos nós, ficaríamos agradecidos... o desperdício de tal monumento e de tal espaço, é um crime de lesa sociedade e de lesa cultura...
A história deste forte remonta ao século XVII, e foi traçado por Luís Serrão Pimentel. Por força da guerra da restauração foi necessário reforçar a muralha de Setúbal, para cumprir essa tarefa e evitar uma invasão por terra, foi edificado no cimo de uma colina entre o Viso e a Rerboreda, onde ainda hoje vive em agonia... vale a pena visitá-lo, mais que não seja para admirar a vista e o que ainda resta desta pobre fortaleza.  

Coordenadas :38°31'42.56"N 8°54'22.08"W

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Fábrica da Chemina - Alenquer

A Fábrica da Chemina, tal como é commumente conhecida é mais uma agonizante ruína industrial que fere o coração a quem passa por Alenquer.
Além da sua magnífica estrutura ser um autêntico monumento é também um símbolo do estado da indústria portuguesa. Todos os dias se encerram unidades fabris que apenas contribuem para o desemprego e para alargamento deste projecto, e que em nada  dignificam Portugal como nação.
Todas as fábricas foram pólos de desenvolvimento social, local e nacional, representaram muitas vezes o melhor, levando o nome de um produto e elevando o nome de um país além fronteiras.
É difícil de explicar e conceber que locais que foram outrora prósperos, não passam hoje de uma recordação que constantemente nos lembram das grandezas de outros dias
Mas a dissertação já vai longa e vou-me cingir a esta defunta fábrica que fez parte da alegre história de Alenquer e que esperamos que volte em breve a fazer, pois o seu aproveitamento não só é possível, como é o desejo de toda esta povoação.
A Companhia de Lanifícios da Chemina, foi assim chamada por ter sido erigida no local onde havia uma quinta com o mesmo nome, e a sua construção deve-se aos esforços de dois irmãos que a idealizaram e realizaram o sonho industrial de ali criarem uma fábrica de fiação.
Foram José Joaquim e Salomão dos Santos Guerra os seus mentores, ambos com experiência profissional no ramo, adquirida nas fábricas da Romeira e na do Meio, na Arrentela, conselho do Seixal.
Em Abril de 1889 lançaram a primeira pedra desta monumental empreitada que ficou concluída em Junho do ano seguinte, um hercúleo feito que só foi possível tendo recorrido às novas técnicas de construção da era da arquitectura do ferro.
A sua traça é da autoria de José Juvêncio da Silva, um insigne arquitecto que é também o responsável pelo edifício dos Paços do Conselho de Alenquer. Pela sua fenestração e aproveitamento dos recursos naturais este imóvel terá sido concebido com o conceito de arquitectura sustentável, muito antes deste ter a conotação actual, era um edifício inteligente de então.
A  força motriz  era gerada por uma máquina a vapor, uma opção que sempre mantiveram pela sua proximidade do rio e lhes garantia uma energia constante, fácil, ecológica e económica.
No início da sua laboração, imediatamente se constituíram cerca de 200 postos de trabalho empregando operários de ambos os sexos, que davam vida aos diversos produtos ali elaborados. Estes eram essencialmente produtos derivados de finas lãs que rivalizavam em qualidade com os seus concorrentes estrangeiros.
Pelo sucesso conquistado no mercado, atraíram investidores e rapidamente a empresa se tornou numa sociedade anónima, passando uma boa fatia do capital para as mãos de banqueiros e industriais do Norte.
Eram agora os novos donos Cândido Ribeiro da Silva e Carlos José Alves, embora os irmãos Santos Guerra se tenham mantido ao leme da companhia, chefiando os departamentos de acabamento e tecelagem, tal como a gerência da própria fábrica.
Em 1940 passa a ser gerida por um sobrinho, Isidro Castro Guerra que mantém a produção até 1948, altura em que é vendida e passa então a ser conhecida por Fábrica Barros, Lda.
Tendo sido interrompida a produção entre 1949 e 1952, até ser novamente vendida, reequipada e renomeada, passando então a chamar-se Empresa Lanifícios Tejo, como ainda consta na sua fachada.
Trabalhou em pleno até 1977, empregando 160 funcionários e entrou em declínio fechando definitivamente em 1994, tinha apenas nessa altura, 15 a 20  postos de trabalho activos.
Como um mal nunca vem só, em 2000 deflagrou um grande incêndio que consumiu além dos interiores, todo o seu espólio e memórias, transformando este edifício numa ruína gigantesca cujas paredes teimam em manter viva uma glória de Alenquer.
É hoje propriedade municipal e os vários projectos para a ressuscitar não foram levados a cabo por falta de verbas, embora hajam empresas interessadas neste imóvel o risco da sua alienação poderá ser prejudicial para toda a vila de Alenquer.

Fonte : http://alenquer-tradepatri.blogspot.pt/2008/02/fbrica-de-lanificios-chemina.html

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