quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O Cine-Teatro Ódeon - Lisboa

O Cine-Teatro Odeon tem os dias contados e a sentença proferida ... uma sentença de morte com uma promessa de ressurreição.
Caiu no esquecimento dos lisboetas por mais de vinte anos e é hoje palco de um espectáculo menos lúdico do que o que nos tinha habituado... a sua descaracterização em nome da sua salvação.
Uma vez mais o carrasco é em simultâneo o “salvador”... tornando ainda mais bizarro este rocambolesco projecto.
 Durante o seu fecho ninguém se incomodou com a sua preservação, agora que se vê irremediavelmente ameaçado é hora de “descruzar os braços”...
Este tão grandioso e icónico edifício foi vítima da sua índole, estrutura, localização e inépcia das entidades que o deviam proteger.
A falência das grandes salas de espectáculos ditou o seu destino comercial inviabilizando a continuação da exploração, limitada pela escassa rentabilidade de tamanha estrutura.
Embora se possa supor que pela escassez de salas de congressos em Lisboa, se poderia dar-lhe outro destino que não a sua desfiguração e condenação, a especulação imobiliária e os valores pecuniários tiveram a última palavra neste infeliz processo.
A sua breve história contribuiu para um enriquecimento cultural e patrimonial, quiçá também para servir de exemplo às vindouras gerações de tudo aquilo que se deve evitar, uma vez que costumamos apenas dar valor àquilo que se perde.... neste caso, irremediavelmente.
O seu projecto foi gizado pelo seu construtor, Guilherme A. Soares em 1923, tendo sido erigido quatro anos depois na Rua dos Condes, adossado às traseiras do cinema com o mesmo nome.
O seu estilo, com laivos de classicismo confere-lhe uma aura de erudição arquitectónica corroborando-o como uma casa de cultura.
A fachada rica em elementos decorativos e graciosamente prendada com uma fenestração exemplar, torna-o numa jóia de arquitectura que faria roer de inveja qualquer capital mundial.
No interior somos brindados com uma traça Art Déco elevada ao seu maior esplendor. O tecto certamente inspirado num majestoso navio de cruzeiro das índias, foi construído em madeira de Pau-Brasil e é encimado por uma generosa clarabóia que enche este espaço de LUZ , tornando-o único no seu género em todo o mundo.
O frontão da boca de cena é outro elemento decorativo que torna este singelo espaço num autêntico tesouro de arquitectura e "antro de cultura", é suportado por duas colossais colunas caneladas que lhe emprestam uma grandiosidade digna de um Teatro Nacional, sobrepondo a sua beleza a qualquer outro cenário que aqui tenha vivido nos tempos áureos deste espaço.
O recinto divide-se pela sua altura em plateia e quatro ordens, constituindo frisas, um balcão inferior, camarotes (onde Salazar tinha um lugar de honra) e balcão superior, distribuídos por uma área de 5.000 m2 que acomodavam uma pequena multidão em cada espectáculo.
Foi inaugurado com a devida pompa a 19 de Setembro de 1927, com a projecção do filme de Eric von Sroheim , “A viúva alegre”, e aqui se estrearam filmes como o “Pátio das Cantigas” e o “Leão da Estrela”.
No plano musical foi também um espaço de eleicção, tendo sido palco de actuações  de estrelas como de António Calvário e de Madalena Iglésias, além de ter tido uma excelente orquestra residente.
O Ódeon foi também concebido como um espaço teatral, onde essa arte fez furor neste palco
Este edifício era dotado de toda uma logística e meios técnicos do melhor de então, contando com camarins e bastidores para um elaborado elenco, tal como adereços e apoio cénico... como era um espectáculo completo e completamente espectacular. 
Foi acrescentado à sua traça em 1931 os balcões laterais e a galeria exterior que hoje anima a sua fachada e ainda preserva alguns dos vitrais e vestígios do glamour dos velhos tempos.
Por uma questão estratégica de mercado e por acordo com uma distribuidora, dedicou-se  a partir dos anos sessenta, à projecção de filmes espanhóis e mexicanos, garantindo o seu sucesso comercial por preencher um nicho de mercado de aficcionados espectadores.
Acabou os seus gloriosos tempos entrando em vertiginosa decadência, quando nos últimos anos de vida apenas projectava filmes de adultos e de carácter duvidoso...
 
A luta para a preservação do Ódeon foi encetada e encabeçada por Paulo Ferrero, líder e fundador do fórum Cidadania LX, que tem sido incansável na defesa do património erigido de Lisboa.
Este exemplar cidadão fez dar início no então IGESPAR para a sua classificaçlão, entre 2005 e 2009, foi em 2010 revogado o pedido extinguindo o processo.
Não rendido à desgraçada situação, iniciou uma petição atravéz do fórtum, recolhendo onze mil assinaturas que não foram suficientes para impor a democracia num dito estado de direito... não há direito...está tudo torto!
A sociedade que o detinha, colocou um projecto para o transformar num centro comercial e de congressos, com a promessa de manter o tecto e o frontão, projecto que tem sido travado, adiado e protelado...
Até que a DGPC aprovou a sua conversão para apartamentos e lojas, dando início às obras de demolição...
Por ter prometido ao guarda que me deixou fotografar que só publicaria este trabalho nesta ocasião, aqui vos deixo este último testemunho do Cine-Teatro Ódeon e tudo o que restou do seu esplendor.

3 comentários:

  1. Mais um Tesouro arquitetónico da cidade de Lisboa que se vai perder...porque? Quem lucra com este crime patrimonial? Com este atentado a Historia e Cultura da nossa cidade? Entre deixar desmoronar, demolir ou descaracterizar, mais vale entregarem estas salas de espetáculo a Grupos de Expressão Religiosa que os conservem e deem uso, como acontece com o mítico e histórico Cinema Imperio que ainda hoje "ta de pé" graças a um desses Grupos Religiosos! Chega! O Monumental desapareceu, o Éden transformou-se, o Jardim Cinema desapareceu, o Europa e um condomínio, o Paris um destroco a derrocar....Meu Deus, não lhe perdoes, pois sabem o que fazem!


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  2. Caros Amigos, Juntem-se a Nós, no nosso Grupo, e façamos desta causa Nossa, e eco dela como poderemos: Partilhando Informação publicada neste, ou Adicionando Familiares, Amigos e Conhecidos, quer sejam do concelho de Vila Franca de Xira, quer sejam sensíveis ao Teatro, Património, e Artes no seu geral! Um Muito Obrigado a Todos e desde já sejam muito Bem-Vindos!

    Temos de Crer em Nós e no Restauro do Teatro Salvador Marques - Alhandra Lisboa Portugal! Um Património que é Nosso e que devemos Querer que nos seja devolvido, sendo um dos Símbolos e Referências de Memórias locais para a população de Alhandra - e também de todo o Concelho de Vila Franca de Xira - visto este já ser exemplar único de todo um conjunto de teatros e cine-teatros que outrora nele existiram. Se o deixamos destruir, resignando-nos à tristeza e pena, já pouco restará aos "nossos filhos e netos" dos marcos físicos da identidade da nossa Memória Colectiva e materialidade do nosso Património Imaterial. Não nos admiremos depois que as novas gerações menosprezem o que é de todos Nós: pois sem elementos físicos de ligação às Nossas Raízes, deixamos de ter elementos palpáveis das manifestações da Identidade, do Gosto e do Amor que temos ao local de onde Nascemos!

    Grupo > Teatro Salvador Marques: Queremos Restaurado!
    https://www.facebook.com/groups/teatrosalvadormarques/

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  3. Como o nome indica este pretende ser um Grupo onde se discuta e se dê a conhecer os exemplos de Teatros e Cine-Teatros que de norte a sul do pais [ainda] existem, quer estejam abertos ou encerrados, quer estejam recuperados/restaurados ou em ruína/pré-ruína.
    O grande objectivo é sensibilizar a população para um debate que já há muito se deverei ter tido na sociedade portuguesa. Eis algumas perguntas que gostaríamos de ver esclarecidas e discutidas:
    - Quantos Teatros e Cine-Teatros existem em Portugal?
    - Quais os mais representativos?
    - Quais as diferenças entre um Teatro/Cine-Teatro e um Cinema/Auditório?
    - Quantos ainda existem de média ou pequena dimensão?
    - Qual o seu verdadeiro valor para o local de onde estão inseridos?
    - Qual o seu valor Patrimonial? Seja Material (artístico e arquitectónico), seja Imaterial (afectivo e memorial)?
    - Como os Reabilitar? Qual a diferença entre uma reabilitação por Recuperação e Restauro, e uma reabilitação por Renovação ou Recriação?
    - Existem leis que exijam alterações profundas em espaços históricos?
    - Quantos foram verdadeiramente Restaurados? E quantos foram "adulterados"?
    - Quantos dos Teatros e Cine-Teatros são públicos? E quantos são privados?
    - Seria interessante uma Rede Portuguesa de pequenos e médios Teatros e Cine-Teatros de Portugal? Para que serviria?
    - Poderia esta Rede ser financiada ao abrigo da lei do mecenato?
    - Poderia esta Rede ser explorada por uma grande empresa de telecomunicações (já que patrocinam concertos), em contraponto à que detém o monopólio cinéfilo português?
    - Seria lucrativo ver, num espaço colectivo com história, e antes mesmo de passar na TV, o lançamento/estreia das novas temporadas das nossas séries preferidas no grande ecrã?
    - Uma União de Vontades sob esta temática poderia sensibilizar autarquias, proprietários e a população/publico para esta temática? Para o Património edificado? Para o Teatro, o Cinema, a Cultura e as Artes no seu geral?
    - Que importância têm estes edifícios nas Memórias Colectivas e na Identidade das localidades onde estão erigidos? Não serão estes elementos basilares na ligação/fixação das suas gentes às suas terras?
    - Até que ponto o abandono destes Templos do Espectáculo não são sinónimo do desprezo pelos nossos centros históricos?
    - Não serão estes Marcos Históricos fundamentais na Requalificação das malhas urbanas onde estão inseridos?
    São estas algumas das questões que JUNTOS podemos colocar e Obtermos Respostas, bem como Procurar Membros, e delas fazermos ecos por um bem comum a todos nós: a Recuperação e Restauro de pequenos e médios Teatros e Cine-teatros de Portugal!
    Desde já um Muito Obrigado pela atenção prestada.
    Casimiro Gonçalves

    https://www.facebook.com/groups/teatroscineportugalmovimento/?fref=ts

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