segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sanatório dos Ferroviários - Covilhã


Após um prolongado interregno que me permitiu reorganizar a minha vida pessoal e recolher muitas pérolas ruinosas, preparei o que será o maior post de sempre neste blogue.
Após um breve périplo por terras nortenhas, com passagem por diversas ruínas à muito desejadas por este projecto, trago “na manga” muita “lenha para me queimar”, e após ter editado mais de quarenta imagens só deste monumento, terei de dissertar cerca de quarenta parágrafos para poder acompanhar esta reportagem.
 
Quando era miúdo costumava ir todos os Invernos à Serra da Estrela passear e ver a neve, e já nos idos anos 70 jazia imponente o Sanatório dos Ferroviários. 
Era um edifício magnífico e afirmava-se pela sua traça e enorme envergadura, lembro-me de nessa altura já se encontrar abandonado e de me interrogar sobre a sua malfadada sorte. 
Mais tarde e ao longo de vários anos em que por lá passei a situação não melhorou e fiquei assim a “dever-lhe” uma visita desde que iniciei este projecto. 
Foi projectado por José Ângelo Cottinelli Telmo e construído pelo engº Virgílio Preto para os funcionários da CP, a sua traça é composta por uma miscelânea de estilos que lhe dão um acrescido valor arquitectónico.
Por me lembrar dele com alguma saudade e pela oportunidade gráfica que representa, à muito que desejava lá ir.
 
Aproveitei um itinerário alargado de uma viagem de trabalho para o visitar, tal como outras ruínas com bastante interesse que atempadamente aqui colocarei.
Sendo esta região em termos turísticos um dos pólos mais importantes do País, era injustificável a quase inexistência de uma estrutura hoteleira que desse conta dos inúmeros turistas que a frequentavam. 
Durante várias décadas foi uma das maiores lacunas da região que foi sendo suprida pelo florescimento de vários hotéis que oportunamente foram construídos colmatando assim essa necessidade.
Tendo em conta a sua envergadura e volumetria, em determinada época poderia ter sido reabilitado e convertido em grande hotel, essa mesma envergadura acabou por o condenar a uma morte lenta pela difícil rentabilização de tão grande estrutura.
Acabou por ser vitima de si próprio por representar um autentico “elefante branco”.
O colossal investimento que é exigido nesta empreitada, além de toda a logística necessária para o manter deitou a perder mais uma pérola de história e património, até que algum investidor estrangeiro o venha salvar e converter em condomínio de luxo... já estou a imaginar: ”Condomínios dos Montes Hermínieos” ....”Venha, venha viver para a montanha, viva com tranquilidade, respire ar puro, beba água cristalina e viva mais perto do céu...”  
Ena pá, até soa bem...e a vista que daqui se avista é simplesmente divina.
Comecei bem cedo para aproveitar os primeiros raios de Sol, e após uma breve viagem desde Penhas da Saúde começa-se a vislumbrar o edifício na sua totalidade, sendo aí a única oportunidade de o visualizar no seu completo, além do seu contexto paisagístico.
Uma vez mais a boa cãopanhia do Edgar ajudou não só gráficamente como também se fez sentir no espírito que este trabalho exige... é que antes bem acãopanhado do que só e estes sítios são demasiado solitários... 
Ter um cãopadre para cãofraternizar torna o trabalho mais fácil, é um cãopincha e um cãomarada que ainda por cima enriquece o meu trabalho, pago-lhe com ração e atiro-lhe paus para ir buscar...fica feliz e nunca reclamou.
Mas voltando ao sanatório...assim que me inseri na propriedade dirigi-me para a fachada principal para assim iniciar esta aventura. As sombras das árvores projectadas criavam um contraste interessante no ponto de vista gráfico.
O cenário era entre o fantasmagórico e o colossal, um misto de gótico, renascença, barroco, neoclássico e pós moderno em plena harmonia, perfeitamente inseridos numa paisagem digna do melhor postal ilustrado.
É uma espécie de apocalipse a que este edifício tem resistido ao longo das últimas quatro décadas e que a qualidade da sua construção o tem mantido herculeamente de pé. A sua estrutura, embora sem telhado não aparenta derrocar, a solidez com que foi edificado é prova de esmero e competência, de valor patrimonial e imobiliário.

A  enorme  fachada é completamente ocupada por inúmeras janelas e arcadas que tiram partido da orientação solar, dando ao seu interior um magnífico ambiente cheio de luz e contrastes.

Cada um dos cinco pisos tem um generoso pé direito, atribuindo uma impressionante altura ao edifício e reafirmando a sua imponência, quer pelas suas exorbitantes dimensões, quer pela sua delicada traça enriquecida por elementos revivalistas.
Para melhor se adaptar às características do terreno a planta deste edifício foi traçada em V. Foi adossado um corpo ao edifício principal que o prolonga em todo o comprimento.
A fachada assume-se  com traços de vários estilos revivalistas. A cantaria da porta principal e da enorme escadaria é claramente inspirada no período barroco, lembrando um palácio real ou um convento. 
 
A altura da fachada e os cinco pináculos que rematam o frontão têm alguns laivos de gótico. O frontão triangular e a clarabóia são um tanto neoclássicos. 
As cornijas e pilastras fazem lembrar a renascença. O torreões que adossados ao longo da fachada têm um toque de pós modernismo. As enormes janelas de sacada generosamente distribuídas espelham a funcionalidade e o bom ambiente que era exigido a um sanatório.


Tal esmero arquitectónico e envergadura, representam um enorme investimento financeiro num projecto social que a companhia dos caminhos de ferro empreendeu a favor dos seus funcionários. 
Velhos tempos em que o erário das grandes empresas era gasto em prol dos seus pares, malditos tempos em que havia tanta tuberculose...
Já no interior em que apenas tive acesso aos dois primeiros pisos. Seriam os “andares nobres”, pois eram os mais amplos e elaborados em termos de decoração.
Toda a actividade social de um sanatório daquele calibre se desenrolava naqueles salões ricamente decorados e certamente bem frequentados.
Uma vez que a planta do edifício é simétrica, podemos contar com espaços de idênticas dimensões em ambas as direcções embora as instalações do prolongamento direito sejam maiores e mais requintadas.
Em ambos os lados, havia um enorme salão com janelas de arco, paredes revestidas de azulejos da autoria do próprio Cottinelli Telmo, com motivos lusitanos e séries de colunas que lhe emprestam um ambiente quase eclesiástico.
Sucedem-se uma série de alas contíguas ao longo de um enorme corredor, que se adivinham ter sido quartos e salas de tratamento.
Todo o ambiente nostálgico nos transporta aos tempos em que estes espaços estavam ocupados por pacientes que padeciam de tuberculose e buscavam aqui a cura para tão nefasta doença. 

Não é difícil imaginar a rotina diária dos tratamentos, os equipamentos hospitalares, os doentes que melhoraram, os que aqui morreram, enfermeiras, médicos, ...
O acesso aos pisos superiores era feito por escadas de madeira e elevadores, que como era de esperar não estavam operacionais. 
 
Ainda pensei em arriscar e fazer alpinismo uma vez que estava na Serra da Estrela, mas era demasiado perigoso tentar subir e depois descer aos andares de cima, o que acabou por cingir esta ruinosa aventura a dois pisos e fachadas.
Nas divisões mais escuras deste espaço, tal como outros congéneres que tive oportunidade anteriormente de fotografar no Caramulo, havia autênticas nuvens de enxames de moscas varejeiras, que além de tornarem deveras incómodo este trabalho, são neste momento os verdadeiros donos destes sanatórios...justificando assim a expressão que ficaram  “às moscas”...
Despedi-me deste edifício com uma última tomada pelas traseiras, como uma abordagem que tenta captar a sua grandiosidade exagerando-a pela perspectiva, mas não lhe consegui fazer justiça...


Fazendo ainda parte do mesmo núcleo, havia outras estruturas que suportavam este grande sanatório.

 Poucos metros abaixo deste edifício, encontramos também em estado de ruína o que terá sido a casa do gerente e ainda algum outro casario que certamente tinha um cariz logístico.

Para saber mais:
http://www.lugaresesquecidos.co.cc/forum/viewtopic.php?f=13&t=132&sid=badfb3b5c68f0cc6b543c73d4a5056ad
http://www.monumentos.pt/Monumentos/forms/002_B2.aspx?CoHa=2_B1
http://www.saudepublica.web.pt/TrabFrada/TBsecXX_JFrada.htm

16 comentários:

  1. Já por cá estive, em filmagens para um filme francês. É triste, assustador, perigoso e mais uma vez a pergunta do costume: como é possível deixar estes espaços privilegiados, em locais privilegiados chegar a este ponto. Incúria? crime? somos um país rico, sem saber, que podemos dar-nos ao luxo de tamanho desperdício? se assim fosse, seríamos também imbecis.
    Obrigado Gastão, por este excelente trabalho que é urgente ser publicado e divulgado pelo público mas também em todas as instâncias nacionais.
    Teresa Leal

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  2. no post anterior não mencionei também duas verdades: é belo e imponente!!
    Teresa Leal

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  3. Magnífico, mais uma ruína que deveria ter melhor sorte do que a que lhe foi destinada...abraço
    Sandro

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  4. Este espaço continua com uma qualidade e um propósito admiráveis...
    Um abraço, amigo Gastão e muito obrigado, mais uma vez, pelo legado que nos vai deixando por aqui...

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  5. Tanto património votado ao abandono!.... :-(
    Obrigada por nos trazeres estas belas imagens!
    Fiquei com vontade de visitar muitos destes lugares quando for à nossa terra...
    Vanda M.

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  6. Mais uma estória sobre o património nacional abandonado, idêntica a tantas que já contou. Só dei um suspiro, já está tudo escrito. Não tenho palavras diferentes para deixar.
    Parabéns por mais um excelente trabalho.

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  7. Um edifício que irias gostar de registar:
    http://arrumario.blogspot.com/2010/02/estalagem-da-serreta.html

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  8. A ruir fiquei!... Com um sentimento de profunda impotência!... A "alma" erguesse em cada ruína abandonada!
    Obrigada!

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  9. Também já por aqui passei e fotografei e me impressionei...Até fichas de clientes consegui encontrar...de 1962...Fascinante! Realmente é pena assim estar ao abandono...como tantas outras tão grandes riquezas que construimos neste nosso "pequeno" país.
    P.S: também tive pena de não conseguir subir a nenhum andar...era mesmo impossivel!

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  10. a casa não era de um gerente mas sim a casa do médico. O edifício que está mais abaixo era a casa do chaufer. O edifício mais acima era a casa das enfermeiras (freiras).
    MAG.20101205

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  11. Descobri hoje o seu blog e rapidamente pesquisei sobre o monumento mais imponente de Portugal, para o qual olho todos os dias antes de vir trabalhar. Não sou da Covilhã, mas sou enfermeira cá e tenho muitos colegas de outras épocas, que me falam muito do sanatório e de como era a vida das enfermeiras que lá trabalhavam. Tenho pena que nunca tenha lá entrado, ainda para mais agora que as obras de remodelação arrancaram. Já deitaram os telhados abaixo e apenas restam as fachadas. Cada vez que olho lá para cima, só me lembro da Sagrada Família e as suas inúmeras gruas... Só espero que não demore tanto tempo!

    Muito obrigada por este momento
    Li

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  12. das mais belas artes implementadas em portugal. Felizmente está em recuperação. as obras arrancaram e vão recuperar um edificio histórico e imponente que um incendio devastou.
    Obrigado por estas imagens fantasticas que me fazem recordar as inumeras vezes que tive oportunidade de as ver com os meus olhos.

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  13. Obrigada por estas imagens. Muito, muito obrigada. Quando tinha nove anos passei por lá, as memórias que tinha eram muito vagas, mas lembro-me desses pisos e do elevador...

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  14. Das poucas vezes que fui a serra da estrela, este local tornou-se uma paragem obrigatória, estudei o edificio sempre com a promessa de o precorrer todo. À uns anos com um amigo meu arriscamos lá ir e fomos preparados para uma escalada e uma sessão fotográfica, o único piso que não deu para subir foi o do telhado mas o resto do edificio é imponente e majestral. Tenho extrema pena que deixem um edifio destes ruir desta maneira..

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  15. Por sorte ou não o antigo sanatório foi transformado numa Pousada de Portugal com 95 quartos que irá abrir ao público durante este ano.

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  16. Qualquer coisa tinha que ser feita. E foi. Bem ou mal o tempo o dirá. A mim parece-me bem.

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