domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Quinta do Parreira ou Casa do Professor - Santiago de Riba-Ul - Oliveira de Azeméis

 
A Quinta do Parreira, ou Casa do Professor, em Oliveira de Azeméis, é mais uma triste ruína que tive o privilégio de visitar. Já a tinha visto num fórum de locais abandonados e no Facebook, e a sua localização era guardada como um "segredo de estado"...
Quem lá tinha ido não revelava as suas coordenadas, supostamente para a defender de assaltos de vândalos, que infelizmente vão causando mazelas ao património abandonado... embora me pareça que na maior parte das vezes, esses segredos são guardados para preservar os louros de uma reportagem fotográfica, garantindo a glória de um "artista" por falta de concorrência...
É verdade que "o segredo é a alma do negócio", mas o que seria da humanidade se não houvesse uma saudável partilha de conhecimento? Como seria o firmamento animado apenas por uma estrela? Certamente ainda não teríamos ainda saído das cavernas onde viveram os nossos antepassados...
A vandalização destes locais abandonados deve sem dúvida ser combatida, mas  se estes casos de abandono não forem denunciados, também não serão conhecidos, o que creio que contribui muito mais para a defesa desta causa, que é a do património depauperado, e é uma luta para mim muito mais importante, preservar, mais que não seja as suas memórias.
A melhor forma de combater o vandalismo, é na minha opinião, sensibilizar, educar e cultivar... já que todos estes locais estão "à mão de semear" e só não os encontra, quem não os quiser procurar, a única maneira de travar os vândalos, é educá-los!!!
Este trabalho é dirigido a todos os portugueses, como forma de sensibilizar um público para este flagelo que a todos incomoda, é também uma partilha gratuita de conhecimento e experiências que dão sentido à minha vida e a este trabalho... imagine-se guardá-lo na gaveta para uso pessoal... seria uma calamidade tão grande como as ruínas que visito.
Depois desta breve dissertação, vou agora contar esta ruinosa aventura que há tanto tempo estava na calha...
Desta vez fui bem acompanhado por um pequeno grupo de ruinosos amigalhaços recrutados no ciber-espaço, além da generosa boleia, proporcionaram-me agradáveis momentos de ruinosa confraternização, em que a boa disposição e a fotografia estiveram sempre presentes...  estava formada uma equipa, com a qual contarei para as próximas expedições.
A Casa do Professor, ou Quinta do Parreira, foi buscar os seus nomes aos antigos proprietários, além de supostamente ter aqui vivido um outro professor, de quem adiante falarei.
O seu primeiro proprietário, terá sido um tal Doutor Aguiar, foi um bem conhecido médico da região e rico proprietário, que entrou para a posteridade por prestar ajuda aos mais carenciados conterrâneos, proporcionando-lhes emprego nas  propriedades que detinha na região do Porto e na quinta de Riba Ul.
Conforme algumas referências, esta propriedade terá sido vendida no primeiro  quartel do Séc. XX, a Domingos Parreira, um ilustre cidadão com origens em Cabreiros, no concelho de Arouca, que terá conquistado simpatias nesta terra (Riba-Ul), por ter arranjado trabalho aos locais, na extracção de volfrâmio, na sua terra natal.
Por morte deste último proprietário, a quinta passou depois de uma conturbada herança para a posse de um sobrinho, que entretanto e seguindo os passos do tio, também faleceu, deixando-a aos seus descendentes emigrantes na Terra Nova, e consequentemente, votada ao abandono.
Foi também nesta casa que segundo se conta, viveu durante a sua infância o insigne Doutor António de Castro Alves Ferreira, de quem transcrevo uma breve biografia:
Breves dados biográficos do Prof. Doutor António de Castro Alves Ferreira da Silva
“Parte superior do formulário
Nasceu em Figueiredo, Santiago de Riba-Ul, concelho de Oliveira de Azeméis no dia 30 de Abril de 1926. Foram seus pais o tenente-coronel António Joaquim Ferreira da Silva Júnior (1887-1947), militar de carreira e engenheiro de minas que foi diretor das minas de Tete, em Moçambique, e Director das Obras Públicas da colónia de Macau, e D. Maria Luísa de Castro Ferreira Alves (1902-1928) que faleceu jovem e vítima da tuberculose. Órfão de mãe desde os 2 anos de idade e de pai desde os 21, o professor António Ferreira da Silva teve uma educação austera de seus avós, com quem viveu a infância e adolescência na casa da Quinta de Figueiredo, dada a quase constante ausência do pai, em comissões de serviço. Julgo terem sido estas circunstâncias que principalmente contribuíram para a sua extraordinária personalidade, que poderá ser brevemente caracterizada por uma tão rara combinação de seriedade, amor ao trabalho, amor à família, sentido do dever e das responsabilidades, desprendida modéstia, simplicidade de trato, generosidade, aliadas a uma grande capacidade intelectual, em que o seu espírito lógico e analítico se conjugava com a mais notável habilidade manual e mecânica, dedicando muitas das suas horas vagas estes trabalhos, assim como a outras, de arquitectura e construção, digo, desenho de construção civil. Estudou nas Universidades de Porto e Lisboa, e formou-se em Ciências Matemáticas. Após uma breve passagem pelo ensino secundário, foi convidado para assistente na Universidade do Porto. Mais tarde faz concurso para professor auxiliar e professor extraordinário, estando na última fase dos mais de vinte anos que ensinou na Universidade do Porto, sobretudo ligado à cadeira de Desenho, embora tivesse seguido aí, anteriormente, muitos outros cursos. Por volta de 1976 ou 1977 pede transferência para a Universidade de Aveiro onde é Professor Agregado e rege também cursos para pós-graduados. E na madrugada de 21 de Julho de 1984, depois de uma noite mal passada, e quando apesar de tudo se preparou para fazer nessa manhã exames em Aveiro e levar para lá de automóvel um colega professor, é acometido de um ataque cardíaco fatal, surgido cerca de 8 anos após os primeiros sinais de doença. Como filho deste falecido professor, não me compete falar de favores ou benefícios que por ele realmente foram feitos ao longo dos anos a pessoas residentes na zona de Figueiredo, algumas das quais me pediram para redigir estas curtas notas, tendo em vista a possível (e justa) perpetuação da sua memória numa placa toponímica. Se tal se concretizar, gostaria de fazer uma sugestão, para evitar a confusão com o nome de outras pessoas, avô do meu pai, também chamado António (Joaquim) Ferreira da Silva, nascido no convento de Cucujães e que foi o professor que introduziu na ciência química no nosso país e que foi sócio correspondente de Academias Científicas de Berlim e de Paris (1853-1923) e cuja passagem por este mundo é lembrada em ruas de Oliveira de Azeméis, Amadora (em Lisboa), Porto e Cucujães. Assim, a placa deveria ser “Rua Ferreira da Silva, matemático, 1926-1984”, ou “Rua do matemático Ferreira da Silva, 1926-1984”, ou “Rua António C. Ferreira da Silva”, ou outra qualquer que sirva para distinguir estes dois naturais de Oliveira de Azeméis que foram professores na Universidade do Porto.”
Por : António E. Ferreira da Silva
Este imóvel é uma casa romântica com aspirações a palacete, é cercada por um gradeamento que mantém à distância os curiosos, embora o muro que completa a propriedade seja de relativamente fácil assédio... por aí nos introduzimos após uma bem sucedida escalada, descobrindo depois que teria sido bem mais fácil solicitar o acesso ao simpático vizinho da frente, que toma conta da propriedade.
A sua fachada revestida a azulejos é um prenuncio dos interiores, pois em tudo esta casa é uma afirmação de estatuto social. Os maiores cómodos rivalizam em amplitude com o salão de baile de um quartel de bombeiros, e os estuques que adornam os tectos, fazem corar de vergonha a mais faustosa residência nobre, que pela profusão,  ultrapassam o limite de bom gosto, entrando no limiar no novo-riquismo.
Aqui se vive o romantismo de uma classe burguesa que pela sua cultura e fortuna, se tentava aproximar da aristocracia rural, imitando o seu estilo de vida transposto na arquitectura. Há indícios de uma actualização decorativa no estilos de alguns estuques, que pelas figuras de mitologia se afirmam como arte-nova, estes, são sem dúvida os elementos de maior valor artístico desta casa.

O momento mais alto em todos os sentidos, desta ruinosa aventura, é o cimo da imponente escadaria, que é coroado com um fantástico lanternim e uma varanda sobre toda esta ruína... não nos pudemos aventurar muito mais neste andar, porque o soalho não oferece as condições de segurança mínimas... e já sabemos que o equipamento fotográfico é caro e deve ser poupado a trambolhões...
A casa encontra-se em muito mau estado de conservação. Pelas muitas infiltrações,  todas as madeiras que suportam a sua estrutura apodreceram, tornando-se numa verdadeira armadilha para os incautos visitantes, que facilmente seduzidos pelo ambiente, se esquecem dos iminentes perigos que estão sempre à espreita.
No andar superior, o piso chegou a ceder ao peso de um dos meus colegas fazendo desabar o tecto do andar intermédio que por alguns centímetros não acertou na restante equipa de ruinólogos ... uma vez mais aconselho a ter toda a cautela quando se visitam ruínas, este episódio poderia ter causado baixas que só por sorte se ficaram por um susto. E assim foi mais um dia bem passado a visitar ruínas de um País abandonado...

20 comentários:

  1. Grande reportagem!
    Estamos à espara das próximas "excursões"...

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  2. Fico sempre triste ao ver estas reportagens.

    Laura

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  3. Formidável!!!

    Este local é imensamente bonito!!

    Lástima de ficar nesse estado..

    Saudaçoes desde Espanha! :)

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  4. Excelentes fotografias!! Adorei o trabalho de estuques da casa. Que crime deixa-los assim. Talvez fossem do Atelier Baganha do Porto, a mais famosa casa de estuques do País.

    A Câmara Municipal de Oliveira de Azemeis não terá dinheiro para comprar a casa? Aposto que é mais barata do que fazer uma rotunda na cidade com grupos escultóricos de qualidade duvidosa.

    Um abraço

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  5. É uma casa muito linda.

    Excelente trabalho fotográfico.

    Um abraço desde Salamanca, muito perto de Portugal

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  6. Nasci em S.Tiago de Riba-ul 1945.
    Esta casa é um marco da minha infância.Ferreira da Silva tem ligação á minha família "Godinho".Meu avô era sobrinho do Visconde Godinho este era sogro de Ferreira da Silva.Quimico e cientista,natural de Cucujães .

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  7. sou oliveirense (de Oliveira de Azeméis) e gostei, por um lado, do excelente trabalho de reportagem e documentação, e algo 'incomodado' por só agora saber da riqueza (em várias vertentes) do imóvel. Mas num município onde se pagaram, por exemplo, 100 mil euros por uma peça de arte que esteve, primeiro, semi soterrada e agora armazenada (em 'recuperação' diz fonte oficial) já diz algo sobre a (falta) de sensibilidade.

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  8. Boa tarde, antes de mais devo dizer que o trabalho (tanto as fotografias como a parte escrita) está incrível!! Gostaria de saber se é preciso autorização para entrar nessa casa, pois gostava também eu de realizar um trabalho fotográfico no âmbito de um trabalho final de curso. Aguardo uma resposta, Francisca Oliveira

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  9. Quem me dera ter dinheiro para recuperar isto! A beleza vê-se e está bem patente por entre infiltrações e tectos caídos!
    Mto bom trabalho!
    Quem sabe um dia se restaura e se devolve este lugar à imponência de tempos idos!

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  10. O documentário fotográfico sobre a casa do Parreira, que eu conheci a negociar coelhos, está deveras demonstrativo do estado de abandono do palacete. Parece-me contudo haver confusão com a casa do Dr. Ferreira da Silva. Relativamente ao topónimo ele já existe no Lugar, muito embora não defina a data do personagem (1926/1984)

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  11. Alguem me pode fornecer as coordenadas gps? obrigado

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    Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Bela reportagem. Aqui deixo o meu contributo...


    Almas partidas

    A parede despe-se
    Desfaz-se desse papel
    Cheio de mofo da idade
    Cai-lhe essa pele
    Em pedaços de saudade

    Vestiram-lhe de quadros
    De caras, de flores
    Encheram-lhe de vida
    De luzes e cores
    - tão longe era a despedida...

    Ouviu vozes, viu festas
    Tantas gargalhadas
    E toda a alegria que existe
    Agora, veste-se de nada
    Pintada de triste

    O silêncio de hoje
    Do quarto vazio
    Grita tão alto a dor...
    - tão cruel este frio
    Onde ontem houve amor...


    EV, 5-Jan-2014

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  13. Pena e desperdício são as palavras que me vêem à mente. Infelizmente, penso que a casa se encontra no momento, em muito pior estado do que aquele nas fotografias, devido ao clima chuvoso dos últimos meses. Quem passa, pode fácilmente ver que, parte de uma parede de um dos andares superiores desabou.

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  14. Nice location! Is it still possible to visit this site?

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  15. Boa tarde. Acha que seria possivel utilizar o local para fazer uma sessão fotográfica Trash the dress? Ou o acesso é muito dificil? Pode dizer-me onde fica ao certo? Obrigado, fica aqui o meu email. sueli.davo@gmail.com

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  16. Buenas tardes! Estaré em Portugal este verano y me encantaría visitar esta casa,me podrían dezir las cordenadas ???

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  17. Bom dia!
    Sou aluna do Curso Profissional de Turismo e estou a realizar um trabalho sobre locais abandonados. Esta casa/quinta é um dos locais que vou abordar. Gostei imenso das imagens que vi (muito apelativas) e gostaria de saber a sua localização. Será possível?
    Aguardo resposta. Muito obrigada,

    Dalila Madeira
    dalilaturismo2013@gmail.com

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  18. Sou de Oliveira e há muitos anos resido em Abrantes. Desconhecia em absoluto esta maravilha abandonada.Como foi possível chegar-se a este abandono. Maravilhas deste país adiado em que outros valores (?) têm mais importância.
    Ferreira da Costa

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  19. Nossa... Como seria este palacete nos tempos áureos? Se neste estado é "maravilhoso"...
    Alguém com o euromilhões que o recupere para um hotel ou coisa do género, assim terá retorno investido e não se perderá esta beleza!!

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