segunda-feira, 27 de maio de 2013

Seminário de Santa Teresinha - Pombeiro de Ribavizela / Felgueiras

As primeiras imagens que vi deste seminário, eram anónimas e chegaram-me por email numa tentativa de as identificar, desde então que o tenho perseguido e finalmente descobri o que é e onde fica...e lá consegui ir...
Eram imagens de uma abadia gótica e de longos e solitários corredores, que me despertaram não só a curiosidade como me deram uma enorme vontade de a visitar... além de a desvendar.
Foi numa manhã submersa em ruinosas emoções, que me aventurei neste monumento, cuja história não se perde no tempo, mas nas  intempéries burocráticas...
Fui na companhia de um ruinoso amigalhaço que se deleitou com esta aventura, o arquitecto Virgínio Moutinho, que pela sua formação e cultura viveu em pleno todos estes monumentais momentos.
Não foi vitima da extinção das ordens religiosas, pois a sua edificação é muito posterior,  foi sim, vitima da intervenção da burocracia, da inépcia, da arrogância e da ignorância...
É um grandioso edifício em granito com uma austera fachada sem estilo definido, porém, a sua traça lembra-nos um colégio vitoriano e tem semelhanças conventuais que se evidenciam na sua arquitectura.
Os revivalismos deste seminário, transportam o nosso imaginário para épocas muito distantes, pelos elementos constantes em toda a sua estrutura...
A imponência da fachada e sua rica fenestração, escondem um claustro arcado onde vive ainda uma estátua de um padre que testemunha a sua índole de seminário...
 
O edifício é composto por quatro pisos, sendo o último em mansarda, que creio ter sido reservado ao pessoal docente por ter cómodos mais alargados.
 
A planta forma um 9, distribuindo de uma forma equilibrada e inteligente as diversas alas que o integravam e interligavam.
O interior é rasgado por longos corredores que foram crismados com nomes de santos, sendo ladeados por um sem fim de quartos onde se albergavam os futuros padres.
Era no primeiro andar que se situava a zona de convívio, sala de refeições e cozinha, onde se preparavam as monacais refeições que nutriam os monásticos discípulos e certamente se confeccionavam as hóstias que lhes alimentavam as almas.
No rés do chão foi o momento mais alto deste monumento, onde há uma imponente capela neo-manuelina que ainda conserva os vitrais e algum mobiliário digno da mais ilustre abadia.
Uma grandiosa escada de madeira liga os três últimos pisos sendo iluminada por divinos raios de luz que entram pelas devastadas janelas.
Curiosamente há muito pouca documentação ou informações sobre um edifício desta envergadura e com esta importância, é caso para indagar como é que num país tão burocratizado, não se conservam registos de tão magnífica obra?
Depois de o visitar, contactei a Junta de Freguesia de Pombeiro, a C. M. de Felgueiras, o Bispado do Porto, o Patriarcado, o IGESPAR... e ninguém nada sabe, nem mesmo a sua existência em alguns dos casos...
Por sorte, foi-me aconselhado falar com o Padre Horácio Gomes, que não só professa na paróquia em questão, como também aqui que se formou...
Este digníssimo pároco, por própria iniciativa está a escrever uma obra dedicada aos seminários, onde há uns breves parágrafos sobre este edifício, onde viveu e se formou...
A ele devo as poucas informações que consegui extrair desta triste epopeia...
Soube também que nos últimos anos, houve um projecto para o converter numa unidade hoteleira, seria ouro sobre azul, uma vez que não só o salvaria da ruína, como também fomentaria emprego e traria turismo a esta rica terra...
Infelizmente os mais de vinte processos e pareceres necessários para o licenciamento desta empreitada, continuam a atrasar irremediavelmente não só país, como também estão a avançar a decadência do edifício, que cada vez mais se degrada juntamente com a nossa cultura e economia.
Foi requerido à C.M. de Felgueiras um processo que leva já mais de dez anos de apreciações, e ainda a missa vai no adro... depois queixam-se da austeridade ... como é possível fazer progredir uma nação, se os processos que a dinamizam não andam em frente?
Tentei em vão contactar o proprietário, mas o telefone da empresa estava desligado... certamente faliu pelo tamanho do investimento falhado... foi mais uma vitima da máquina burocrática e de um sonho que se tornou num pesadelo.
Se todos os processos andassem em frente e em tempo útil, a Troika nunca cá teria vindo fazer nada... se os nossos governantes locais, regionais e nacionais, não tivessem guerras pessoais ... seriam muito mais bestiais...
Resta-nos agora rezar para que destino deste lindo edifício seja tão glorioso, como os homens que aqui se formaram...
Aqui vos deixo algumas linhas tecidas pela única pessoa que se preocupou em preservar a história deste local...
Escola Apostólica dos Padres da Missão/ Assento-Jugueiros 1927
A formação dos futuros Padres Vicentinos, no século XX, organizou-se no Norte, na Zona de Felgueiras. O Norte tinha uma grande tradição Vicentina, ligada ao Monte de Santa Quitéria, ao Colégio, então transformado em Hotel e a uma grande acção missionária nas redondezas.
 
Foi em Jugueiros , Concelho de Felgueiras, no lugar do Assento que alugaram uma casa e lá funcionou durante um ano a primeira Escola Apostólica dos Padres da Missão.
Estávamos em 1927. Jugueiros é Junta de Freguesia e Paróquia. O Assento é um lugar desta Paróquia, onde uma Capela do Século XVII (?) mostra a influência de pessoas senhoriais e a presença de pessoas crentes.
 
O que caracterizava uma Escola Apostólica, na organização da formação vicentina, era uma escola de meninos que iniciavam em comunidade a formação para o sacerdócio, num nível a que hoje chamamos 2º ciclo do Ensino Básico.
No fim da Escola Primária que incluía os quatro primeiros anos de formação básica, os meninos que sentiam vontade de ser padres vinham para o Seminário menor, para nós, Escola Apostólica.
 
Os apostólicos Iniciavam os estudos correspondentes do 1º ao 5º anos da Escola Secundária. É o que hoje designamos de quinto ao nono anos do 2º Ciclo do Ensino Básico. A Escola Apostólica, em Jugueiros, durou apenas um ano. O local do Assento foi uma escolha provisória.                           

                                       Seminário de Santa Teresinha / Burgo 1928
                                                                       
A Escola Apostólica de Jugueiros transitou em 1928 para o Seminário de Santa Teresinha. Jugueiros ficou para trás como passagem histórica. A casa ainda, hoje, lá se encontra. Continua majestosa apesar dos sinais de degradação.
 
A partir desta data, a Escola Apostólica dos Padres da Missão começou a funcionar na quinta do Campo do Burgo, em Pombeiro. Começava o Seminário de Santa Teresinha.
Os verdadeiros construtores do Seminário de Santa Teresinha foram dois – os Padres Sebastião Mendes e Francisco de Sousa. Trabalharam na mais intima união e, como a união faz a força, venceram, galhardamente, todos os empecilhos, e tantos foram eles, com que sempre têm de contar as obras de Deus. Falaremos deles mais à frente.
                                      Os acessos ao Seminário de S. Teresinha
A abertura dum caminho praticável deu-se em 1935. Em “Apontamentos para a História da Província Portuguesa da C.M.” podemos saber que os acessos ao Seminário eram difíceis. “ As comunicações do Seminário com o exterior vão melhorando pouco a pouco. 
Em 1935 foi aberta a estrada entre o Lugar da Rua e o Mosteiro, passando ao lado do Seminário e substituindo o antigo lamacento e quase impraticável caminho que vinha das velhas gerações.
Lemos num apontamento relativo a 27 de Outubro desse ano: Festa de Cristo Rei. Foi a comunidade à adoração em Pombeiro, pela nova estrada que já anteontem deixou passar no seu automóvel o Engenheiro Baltasar de Castro ( restaurador dos monumentos nacionais ) que então trabalhava no restauro da Igreja do Convento.
E o anotador comenta com visível satisfação: “Sumiu-se nas profundezas da lama o antigo caminho de Pombeiro que era um verdadeiro abrigo de salteadores, além de intransitável no inverno”.
E seguem estas notas de evocação histórica: “ O sr. P. Leitão, quando velho, ainda há-de contar aos miúdos vindouros, os tempos saudosos em que ele ia de madrugada, com uma enxada ao ombro, alumiado pela lanterna do sacristão, Irmão Pereira, abrindo regos para esvaziar as poças de água que encharcavam o caminho, e para levantar o lamaçal e arrumá-lo para os lados!...
Quantas vezes a missa começou fora de horas, por causa dos trabalhos desses improvisados zeladores da via pública, sem recompensa do Estado, nem da Câmara…” O Sr. P. Inácio também mostrará os seus velhos tamancos com que fez prodígios de equilíbrio para se não estender nos charcos que abundavam nesse caminho! Uma Odisseia esses três anos de capelania na matriz de Pombeiro, desde 4 de Junho de 1932!”.
                                            Seminário de S. José/ Oleiros 1938
                                                       
Dez anos depois, em 1938, dá-se a primeira reestruturação na organização da formação dos futuros sacerdotes vicentinos.
 
A Escola Apostólica como primeira fase de formação, deslocou-se para Oleiros, Lagares, Felgueiras. A nova Escola Apostólica recebe oficialmente o nome de Seminário de S. José.
O Seminário de Santa Teresinha fica livre desta valência de formação inicial e assume as duas etapas complementares da formação vicentina: Seminário Interno e Estudantado.
 
Serão estas duas valências da formação que continuarão, no Seminário de Santa Teresinha por dezenas de anos até à sua extinção. Foi, ali, que a maioria dos Padres actuais estudou e se formou.
Foi no Convento do Mosteiro de Pombeiro com a Paróquia entregue ao cuidado dos Padres do Seminário de Santa Teresinha que muitos seminaristas, ali, se ordenaram de presbíteros.
 
A presente geração dos Padres Vicentinos é, na sua maioria, a última geração dos Padres de S. Teresinha. Interrompeu-se esta continuidade dos seminaristas maiores em Pombeiro, a partir da reestruturação da formação dos Sacerdotes após o Concílio Vaticano II.
A Universidade Católica com a faculdade de Teologia em Lisboa e Porto, veio dar uma nova resposta à formação dos futuros sacerdotes.
 
De mudança em mudança chegou-se ao encerramento e à venda do Seminário de Santa Teresinha.
                                           A Paroquialidade de Pombeiro 1932
                                                                      
A responsabilidade dos Padres Vicentinos pela Paróquia de Pombeiro anda ligada à fundação e organização do Seminário de Santa Teresinha. Ali, era o lugar de formação dos Seminaristas Maiores.
 
O Seminário de S. José assumiu o nome e a função de seminário menor. O Seminário de Santa Teresinha tinha os Seminaristas Maiores: filósofos e teólogos e os noviços.
Ali, se concluía a formação teológica e se recebia a Ordenação Sacerdotal. Ali, se formavam durante dois anos no conhecimento do espírito vicentino, os jovens (noviços) para serem admitidos na Congregação da Missão pela emissão dos votos ou compromissos evangélicos.
 
A pedido do Sr. Bispo do Porto de então, D. António A. Castro Meireles, os Padres Vicentinos assumiram a Paroquialidade de Pombeiro.
O Pároco, normalmente, era o Superior do Seminário de Santa Teresinha. Os outros padres que faziam parte da equipa de professores dos seminaristas colaboravam na Paróquia.
 
A Paróquia tornou-se um espaço de animação litúrgico-pastoral e de estágio dos seminaristas.
Ali se faziam Celebrações solenes onde os Seminaristas com os seus mestres mostravam a riqueza da polifonia e a beleza da Liturgia. E ficávamos por aqui. O clima de abertura, de então, era pequeno. Dava para desenvolver capacidades musicais, teatrais, futebolísticas, académicas e missionárias.
Não dava para ser catequistas. Animadores de grupos juvenis. Mas com a aproximação das mudanças conciliares, o ambiente foi-se abrindo e os Seminaristas começaram a dar aulas de Educação Moral, nas Escolas do Ramalhal, Monte e Trofa.
 
Isto aconteceu na década de 60 do século passado. Começou-se a sentir mais a proximidade das pessoas; a conhecer-se o ambiente familiar e social e a reflectir–se a responsabilidade da pastoral futura.
Foi, no dia 22 de Maio de 1932, festa da Santíssima Trindade que o Sr. P. Francisco de Sousa, como Superior do Seminário de S. Teresinha, tomou posse da Paróquia de Pombeiro de que o Sr. Bispo do Porto, D. António Augusto de Castro Meireles, o encarregara a título provisório.
 
Foi com o Sr. P. Francisco de Sousa que começou a paroquialidade dos Padres Vicentinos, na Freguesia de Pombeiro. E continua até hoje.
O P. Francisco de Sousa foi o primeiro Pároco de Pombeiro. Completam-se este ano os 80 anos de serviço paroquial e pregação dos Padres da Missão ou Vicentinos às populações vizinhas, particularmente, de Pombeiro e Vila Fria.
 
Vários Párocos se sucederam ao longo destes anos. É esta história de Párocos Vicentinos que é bom lembrar e fazer memória.
 
Muitos dos actuais paroquianos ainda os conheceram, ouviram e saudaram. Por isso, falar deles é falar de vidas que se gastaram, apagaram e até se sepultaram no Cemitério local.

Padre Horácio Gomes

14 comentários:

  1. Tenho pena de não vos ter acompanhado. Vai haver uma segunda ronda ?

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  2. Excelente descoberta! Parabéns Gastão...

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  3. Un lugar impresionante, y un mejor reportage, las texturas de ese seminario son muy buenas.
    Buen trabajo!!
    Te añado en blog: eloxidodeltiempo.blogspot.com

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  4. Tomei conhecimento e gostei de tão boa reportagem. Vou divulgar num grupo Felgueirense em que estou incluído, do facebook, ok

    Armando Pinto

    http://longrahistorico.blogspot.pt/

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  5. É imponente... E que belas fotografias tiraram!

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  6. Estes grandes edifícios destinados à formação de sacerdotes, espalhados pouco por todo o País, perderam a sua razão de ser. Já ninguém vai para padre para escapar a miséria, nem tão pouco há grandes apelos para servir Deus.

    Mas o que está em causa não é a crise das vocações, mas antes o despedício de equipamentos. Um belo edifício em pedra poderia servir para escola secundária, hospital ou centro de saúde. Mas, em Portugal, deixámos cair tudo e nos últimos anos só construímos edíficios novos. Não reutilizámos antigos equipamentos e esbanjámos dinheiro em novas construções, de qualidade muito duvidosa. Por exemplo, a maioria das escolas secundárias erguidas nos últimos 20 anos são de uma arquitectura perfeitamente ordinária. Continuo sem saber porque não se reutilizam os antigos edifícios.

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  7. Facil,os supostos politicos de meia tijéla nao sao mais que uns ordinarios corrompidos!!
    E foi assim que grandes civilisaçoes desapareçeram.É evidente que as religioens contribuiram para esse desmoronamento

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  8. Caríssimo Gastão.

    Em primeiro venho felicitá-lo pelo seu engenho e arte de descobrir, divulgar e denunciar patrimónios que são identidade do povo português.

    Em segundo lugar e se o turismo é nossa principal ou das maiores fontes de receitas e com indicadores promissores, não preservar e não recuperar monumentos identitários é crime. os sujeitos desse crime já estão identificados nos seus trabalhos e nos comentários ao seu blogue, pelo que é despiciendo aqui voltar a evocá-los, desde as organizações que entravam os estudos, aos tribunais que não aceleram os processos, às autarquias que não pressionam tanto como deviam esses poderes decisores ...

    Em terceiro lugar informo a existência do Restaurante Mónaco, na curva do Mónaco, marginal de Caxias, e cujo estado de ruina, vandalização extração de qualquer coisa de útil ameaça muitas memórias daquele local.

    Uma vez mais, o meu reconhecimento pelo seu trabalho muito útil para o país, se quiser apostar nas memórias e no turismo que nos pode ajudar a salvar como Povo e Nação grande que fomos e poderemos voltar a sê-lo se todos fizermos algo por isso, em especial com o apoio dos poderes públicos.

    Cumprimentos.

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    1. Viva, Alfredo... obrigado pelas suas amáveis linhas. Já fotografei o Mónaco e é uma das muitas reportagens que tenho em "Banho Maria"...no entanto ainda não consegui saber algum dado sobre o mesmo, o que me impede de publicar essa pérola, se souber alguma coisa...

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    2. Senhor Gastão. Pode contar com o meu testemunho sobre o seminário de santa Teresinha.
      Julio Alves - 919843434

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  9. Deixa-me muita pena ver uma casa por onde passei em 1979/1980 neste estado, é triste, deixa-me muito magoado ver isto, sou de Felgueiras e passo por la muitas vezes e não consigo olhar, alguém que se deixe de burocracias e faça algo por este seminário que tem muita historia de quem la passou para contar, de bom e mau.

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  10. Aconselho vivamente visitar este magnifico local que alem das suas condições não perde o encanto!

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  11. Vivi na quinta deste seminário até aos meus 9 anos de idade. Meu pai era o carpinteiro e marceneiro da casa; meu irmão ajudante de cozinha; minha mãe cuidava da quinta, da vacaria e da porcaria e ainda amassava a farinha e punha o pão num grande forno. Eu era o mascote dos estudantes e dos padres. Boas e belas histórias tenho na memória. Se for útil, estou disponível para ajudar a fazer a história deste seminário. Podem-me contatar para 919843434. Julio Alves

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  12. "Se todos os processos andassem em frente e em tempo útil, a Troika nunca cá teria vindo fazer nada." 😂😂😂😂😂😂 Foi mesmo isso que a troike veio cá fazer, foi LOOL

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