sábado, 1 de março de 2014

A Casa da Pesca do Marquês de Pombal - Oeiras

A Casa da Pesca do Marquês de Pombal / Conde de Oeiras, é um raro exemplar de arquitectura barroca e, infelizmente um vulgar exemplo de laxismo!
 

Integrada na Quinta do Marquês de Pombal e hoje sob a tutela da Estação Agronómica Nacional / Ministério da Agricultura, tem vindo a degradar-se ao longo de penosas décadas sem que nada seja feito para a preservar... a desculpa de sempre!! Falta de verbas!!
A Casa da Pesca foi classificada Monumento Nacional em 1940, e desde que foi entregue à EAN / MA, que tem sido completamente descurada, é inadmissível que um organismo do Estado trate o património de uma forma tão vil!!!
Antes de abordar a sua história, gostaria de sugerir uma forma fácil de rentabilizar este espaço, tornando-o auto-sustentável e até rentável, até um chimpanzé consegue ver essa tão óbvia hipótese... uma CASA DE PESCA!!
Quantos de nós não gostaríamos de passar algumas horas com amigos e familiares a descontrair à beira lago, numa agradável pescaria envolvidos num ambiente monumental e cheio de história?
Alugando no local uma cana de pesca, e pagando ao kilo tudo o que conseguíssemos pescar podendo também confeccionar num grelhador, ou para os mais exóticos com um "chef" de sushi. Também se poderia aqui ministrar aulas de pesca, com um professor trajado à marquês que nos ensinaria o melhor desta arte, além de poder vender as minhocas que povoam estes férteis terrenos...
Muitos outros projectos aqui se poderiam executar, contribuindo financeiramente para a recuperação e sustentação deste magnífico espaço. Desta forma, angariar-se-iam as verbas necessárias para a reabilitação, criar-se-iam postos de trabalho, e dar-se-ia a Oeiras mais um aprazível local de saudável convívio, em vez de eternamente esperar pelas verbas há muito esgotadas pelo IGESPAR.
A história deste monumento reporta-se ao ano de 1765, e terá sido a última estrutura a ser construída neste núcleo arquitectónico. Terá sido eventualmente gizada por Carlos Mardel, uma vez que foi este o autor do projecto do palácio e dos jardins, embora a sua edificação seja posterior à morte do mestre que reconstruiu a cidade capital.
Foi erigida na chamada "Quinta Grande", a antiga "Quinta do Taveira", uma parte da propriedade dedicada à exploração agrária, e a sua função era puramente lúdica. Foi idealizada para as pescarias de fim-de-semana que tanto entusiasmavam Sebastião José de Carvalho e Mello.
O Marquês anunciava a sua vinda via pombo correio, despoletando uma autêntica "caça ao peixe" na Ribeira da Lage levada a cabo pelos seus atarefados empregados, incumbidos de providenciar o tanque com o maior número peixes que conseguissem apanhar. A faina era feita numas embarcações conhecidas por "casca de côco", levando o destino destes pobres peixes a que fossem pescados duas vezes.
Este conjunto é formado por um jardim adornado com um frondoso arvoredo, ladeado por três portões que lhe servem de nobre acesso, ao centro vive um lago com o formato de quatro cadernas tendo ao centro uma estrela de oito bicos, representando o brasão dos Carvalho e reivindicando a posse da propriedade para a casa de Pombal.

Dando-nos acesso ao patamar superior, somos convidados a subir por umas escadas simétricas, onde ao centro resta uma fonte seca como uma testemunha muda dos seus tempos áureos.
No patamar superior somos brindados com um dos mais românticos cenários que nos transporta ao século XVIII em todo o seu esplendor... o ambiente e toda a envolvência deste encantado recanto, além de uma lição de história, dá-nos uma lição harmonia arquitectónica, em que facilmente nos transportamos para um mundo de fausto barroco, recuando duzentos e cinquenta anos.
Aqui encontramos um lago de generosas e harmoniosas proporções, alimentado por uma fonte pisciforme e envolvido por um grandioso mural revestido por riquíssimos painéis de azulejos holandeses, onde estão representadas cenas de mitologia e cenas de pesca. Ao centro, uma escadaria leva-nos a uma fonte, outrora servida pela Cascata do Taveira ou dos Gigantes.
 
Nesse patamar, duas portas em cada lado da cascata, conduzem-nos ao terraço onde se pode admirar este cenário num ponto de vista privilegiado, dando-nos uma clara noção da grandeza deste espaço.
É neste nível que se encontra a Casa da Pesca, totalmente degradada e descurada, o seu interior, ao qual não tive acesso, é decorado por elaborados estuques e frescos em avançado estado de ruína. Vítima de infiltrações e apodrecimento do telhado que ameaça derrocar.
Esta casa era utilizada pelo Marquês de Pombal para guardar o seu equipamento de pesca e para se apetrechar para essa empolgante actividade. Foi utilizado nos anos setenta do século passado, como creche começando aí a sua acelerada deterioração. Consta que as crianças se divertiam a apedrejar os painéis de azulejos causando mazelas irreparáveis...
Recentemente, um corajoso e dedicado cidadão, a quem aqui presto homenagem, tem-se devotado às suas próprias custas à preservação de todo este espólio. Quis um dia que o destino o tivesse guiado nesta direcção, deparando-se horrorizado com o estado de abandono deste magnífico local. Deitando mãos-à-obra, diariamente se empenha com todos os seus esforços para melhorar a Casa da Pesca, da qual se tornou guardião... Ao valoroso Paulo Augusto, aqui tiro o meu chapéu...

17 comentários:

  1. Um ESCÂNDALO indescritível e uma autêntica VERGONHA!:-( Como é possível que num país que se diz "civilizado" ocorram situações destas??!
    Grande Paulo, parabéns pela tua dedicação e pelo esforço desinteressado e sem igual! Infelizmente, já não se "fazem" Homens assim!

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  2. Em que estado isto chegou, é vergonhoso, e faz pensar a nossa riqueza histórica assim vai

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  3. POis é. se isso fosse em Itália, o proprio turismo seria suficiente para recuperar e manter o espaço mas, como é Portugal, nem sequer acreditam que "aquilo!" pode valer alguma coisa..."-Quando muito, um dia podera virar um condominio..." deve ser o que pensam...

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  4. Excelente reportagem, Gastão.

    Por vezes sinto que o Gastão faz mais pelo Património que o Ex-Igespar, agora DGPC. Pelo menos é mais convicto na sua defesa.

    Por outro lado, quando vejo imagens deste jardim, recordo-me daqueles portugueses que afirmam que o nosso património é pobrezinho e que em Espanha ou França é que há coisas maravilhosas. Claro, não nos podemos obviamente comparar com a riqueza cultural da França. Mas, talvez, o nosso património seja afinal pobrezinho, porque o deixamos cair, porque não lhe ligamos pevides.

    Este belo jardim poderia ser um local cheio de visitantes, crianças, pares de namorados, com esplanadas, com um horto para vender plantas, um sítio para fazer pescarias, um espaço para alugar como cenário de filmes de época.

    Parabéns pela reportagem

    um abraço

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  5. Parte-se-me o coração ao ver edifícios e locais que transpiram história serem tratados desta forma. Como foi dito no comentário anterior, realmente há quem considere que o património de França e Espanha é bem mais rico do que o nosso, mas eu creio que a única diferença é que nesses países tratam o património como ele merece ser tratado e respeitam a herança dos antepassados e a riqueza da sua história. Obrigada por mais esta partilha e pelas excelentes fotos.

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  6. Olá!
    Em primeiro, os meus parabéns por este "rico" blog.
    Gostaria de saber se este Palácio ainda está assim, também faço fotografia e agora ando à procura dum projecto novo e esta área parece muito boa.
    Estava a pensar ir lá esta sábado, caso ainda assim esteja e passar também num restaurante que há lá perto (lados de oeiras) também abandonado.

    mais uma vez parabens!

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  7. É só mais um dos nossos monumentos a degradar-se. Ainda por cima de um homem que fez da destruída Lisboa, em tão pouco tempo, aquela maravilha que nos encanta.
    Obrigada por partilhar estas imagens

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  8. Este País tem monumentos lindíssimos, mas temos tido governantes vergonhosos, porque não sabem preservar toda esta maravilha, nunca há dinheiro mas para vigarices há sempre dinheiro realmente o 25 de abril mostra bem as pessoas que apareceram sem principios alguns ou educação, em como se deve manter a história de um País, e mostrá-la aos mais novos que precisam disto.
    Felicito o sr. que tenta manter esta beleza e se me saísse o euromilhões era uma das coisas para as quais eu ajudava a cultura em Portugal.

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  9. Excelente texto. É uma vergonha o que fazem ao nosso Portugal

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  10. Surpreender-me-ia se fosse um caso esporádico! Infelizmente é um mal transversal neste triste pais com população inculta e governantes indoutos. Não só não preservamos o passado como até já fizemos tentativas para retirar da historia os nossos grandes feitos de outros tempos de primeiros globalizadores de povos. E esta inqualificável actuação é recentíssima como certamente muita gente ainda não esqueceu. Enfim uma má característica dos povos que não se respeitam a si próprios e, por isso deixam de ser respeitados pelos outros povos.

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  11. Custa a acreditar, que uma coisa assim tenha acontecido......Tristeza....

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  12. É realmente lamentável e triste o estado a que este espaço chegou. Ainda não há muitos anos cheguei a ir lá a concertos, na altura das festas de Oeiras. Já nessa altura entendia que aquele espaço deveria ser aberto ao público para que dele usufruisse.
    Afinal, ficou na lástima que se vê!

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  13. gostaria de ver ele restaurado, e lindo, que o governo respeite,

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  14. Concordo globalmente com todos os comentários, nomeadamente o de Neliciyosi e o de Aníbal Caetano. O primeiro, porque elege o actual e único zelador como obreiro dedicado e incansável, que continua persistente no esforço de uma reabilitação esquecida. O segundo, porque explicita e reforça o triste lamento de mais património agonizante, assente nos valores culturais da nossa história, sem que se vislumbrem perspectivas institucionais de mudança de atitude e melhoria. É pena, Portugal.

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  15. Deixo-lhe um exemplo do esforço que fizemos, durante anos, para não deixar cair o espaço da Casa da Pesca no anonimato: http://www.youtube.com/watch?v=Vxmxaxym8E8
    Esse espaço foi de tal forma marcante para o GSFMH que lhe sugiro uma visita a estas duas páginas:
    http://www.fmh.utl.pt/serenatas/historial/emblema.php
    http://www.fmh.utl.pt/serenatas/historial/estandarte.php
    Envio-lhe um forte abraço,
    André Cunha

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