sexta-feira, 15 de abril de 2011

Restaurante Boa Viagem - Alto do Jamor

Já tinha fotografado este edifício há muito tempo, embora o tenha revisitado recentemente para melhorar as condições de LUZ ... e que LUZ... desta vez tive a sorte de ser contemplado com a melhor disposição do S. Pedro, o que contribuiu  em muito para a minha...
Por aqui passo praticamente desde que nasci e desde sempre que me lembro de o ver abandonado, e desde miúdo que perguntava aos "mais velhos" o que foi este edifício? O que aconteceu e porque é que não é de reaberto? Aproveitando toda a sua estrutura e condições geográficas, teria todos os condimentos para ser bem sucedido... 
Após muito ter pesquisado na internet, nada consegui saber a seu respeito, e por isso o mantive em "banho Maria" até hoje... finalmente fui elucidado por um simpático leitor que me acendeu a primeira LUZ... estava identificado o arquitecto, a partir daí foi mais fácil continuar a minha pesquisa e com a ajuda da Dra. Filomena Rocha, da CM de Oeiras consegui reunir mais alguns elementos...
Finalmente ao fim de quarenta e quatro anos acordei mais um fantasma, era um dos maiores enigmas desta ruinosa aventura...
Como todos os edifícios abandonados, este é mais um que encerra histórias há muito esquecidas e pretendo com estas reportagens ressuscitar o seu passado, quem sabe encomendar-lhes o futuro... por vezes são criados mitos à volta destes lugares e que lhes dão uma falsa fama, este é conhecido por ser assombrado e é praticamente desconhecida a sua mundana e curta existência. Por mais que tivesse indagado, nunca consegui sequer saber o seu verdadeiro nome, tendo-me sido adiantadas pistas que mais me afastaram do bom rumo da pesquisa.
Trata-se do "Restaurante Boa Viagem", localizado na Quinta da Boa viagem, no alto do Jamor, na convergência da Av. Marginal com a auto estrada de Monsanto. Foi edificado em 1948, nos terrenos pertencentes ao engenheiro agrónomo Vasco Alcobia. Foi traçado por o arquitecto João Faria da Costa, e perfeitamente integrado paisagisticamente em todo o ambiente circundante.
Fazendo parte do plano urbanístico do complexo do Jamor, completando-o com uma estrutura de apoio dedicada à restauração e à venda de produtos agrícolas, conforme é mencionado na sua memória descritiva. Terá sido por isso um dos pontos com maior protagonismo social desta zona, uma vez que era um local onde as multidões que por aqui se aventuravam, mais cedo ou mais tarde teriam que por aqui passar para um inevitável repasto.
Não consegui apurar quem o explorou ou quando fechou as portas... conto com os vossos testemunhos para enriquecer esta história...
Pelos registos  das minhas mais longínquas memórias, creio que tenha sido encerrado entre finais dos anos sessenta e o início dos anos setenta, e desde então que o desperdício e a nostalgia aqui se instalaram num cenário de continua decrepitude que certamente contribuíram para a sua assombrosa fama.

A sua arquitectura, magistralmente concebida com a traça característica do período do Estado Novo, foi idealizada privilegiando-o pela fenestração com uma luminosidade sem par, aproveitando a orientação solar e brindando-o com uma vista sobre a barra do Tejo, o que o torna num dos mais atractivos edifícios da zona.
A qualidade de construção que aqui foi empregue garantiu a sua segurança ao longo dos anos. Por ter sido exposto a todo o tipo de intempéries naturais , sem deixar de referir o saque de todo o seu interior a que durante décadas esteve sujeito, seria de esperar uma deterioração  muito maior.
Embora nunca tenha frequentado este local, não me foi difícil imaginar alguns acontecimentos sociais que decerto aqui tiveram lugar. O salão com paredes adornadas por os azulejos tipicamente lusitanos, terá sido palco de românticos jantares à luz de vela enquanto o Sol se punha no horizonte... quase que se consegue ouvir as crianças que há mais de quatro décadas brincaram nos baloiços que ainda balançam corroídos pela ferrugem ao sabor do vento... quantas mais memórias aqui estão adormecidas??

A sua estrutura está quase incólume e com uma boa operação de cosmética poderia ser reabilitado sem grandes investimentos, e segundo soube, está em marcha um plano de urbanização desta encosta que inclui a sua integral recuperação... parece que finalmente vou ter a oportunidade de o visitar e desfrutar desta jóia perdida no tempo... até que enfim...

19 comentários:

  1. Viva Gastão!
    Mais uma ruina, um espaço abandonado... que se percebe, cheio de recordações e, se assombrado,... tambbém repleto de almas, de gentes, de emoções.
    Que bom saber que há projectos de reabilitação.
    Faço parte dos dez milhões que usufrui deste espaço que nos faz pensar na nossa história e do que dela se faz.
    Obrigada! Continue a acordar fantasmas deste tipo.
    Abraço,
    MSK

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  2. Já tinhas prometido!
    Belíssima historia, belíssimas fotografias.
    Parabéns :)

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  3. Ainda me lembro quando, aos domingos, fazíamos o passeio obrigatório com toda a família, de ver o edifício, principalmente a zona da varanda envidraçada, com mesas postas para o chá e os empregados, afadigados, servirem as famílias para o "chá das cinco". Depois veio a degradação e o vandalismo...
    if

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  4. Excelentes fotos e texto muito informativo.

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  5. Tenho pena do Ruin'arte estar a virar para uma vertente mais moderna/contemporânea...

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  6. Para o anónimo das 02:50:

    Tem que vir sempre alguém com pena de alguma coisa. Tudo tem de ser estanque neste país.

    Ruin'arte:
    Continua, que a vida é feita de diversidade e não de pena. Adorei as fotos do restaurante e do Centro Comercial do Estoril. Passei anos a imaginar as suas histórias e foi muito bom o que publicaste.

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  7. Dizem as más linguas que este local servia também de casino ilegal e que nas suas caves se practicavam coisas mais ilícitas como acordos nazis e afins.
    Há o rumor de que existe um bunker por baixo do edifício.
    Conhecia este restaurante como "Vela Azul" e não como "Boa Viagem".
    Há já algum tempo que estou em contacto com a CM Oeiras e não me conseguiram informar de datas de construção nem de nomes de engenheiros. Apenas sei quem são os proprietários actuais.

    Muito obrigada Gastão por ter satisfeito a minha curiosidade. Não fazia ideia de como seria o interior deste local e nunca me quis aventurar por lá pois soube que estava ocupado de vez em quando.

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    1. Kami, fale-nos mais sobre o que sabe, estamos a realizar um trabalho e achámos interessante a sua informação, quem é que são os actuais donos neste momento?

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    2. Olá como posso contactar?! raquel.miranda1983@gmail.com

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  8. Sempre me doeu ver este imóvel arrasado pelo vandalismo e incúria, aliás, como no nosso Rio Sado, após a foz da Ribeira da Ajuda (Comenda) doi ver o antigo Restaurante A Gávea, no estado miserável em que se encontra. Mesmo sem a qualidade arquitetónica daquele, mas também colocado em situação ímpar face a um espelho de água magnifico, a ex-Gávea é um espinho cravado na Costa Azul.

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  9. Lembro-me de ter ido a este salão de chá,na esplanada, de uma confusão de gente e de uma mau serviço,como nas esplanaddas de Algés.
    É um edifício curvo á beira de uma curva,no fim da Auto-estrada, entre Lisboa e Cascais,no meio de nada,sem explicação.Faliu pouco depois da abertura:uma bela arquitectura curva no meio de uma curva,não chega para sobreviver.
    (Pensei que era do Keil).Hoje está sob a tensão de mais uma "cidade-isaltina" projectada ao longo de todo aquele vale, que além de ilegal(construir em vales de cheia) será mais uma ruína futura,para o nosso arruinado país.
    Mas mas as suas fotos são ,como sempre, revitalizantes !
    Abraço
    Ant. Muñoz

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  10. o arquitecto que construiu este restaurante. João Faria da Costa, é o autor de outros edifícios em Lisboa como na Av. D. Carlos I ou no Rato. Mas ele era sobretudo um urbanista, responsável pelos planos da Costa de Caparica ou de Alvalade - ambos nos anos 40.
    Interessante é também um ante-projecto que assinou para a Praça da Figueira, com edifícios de escritórios em seu torno.
    mais sobre este arquitecto em http://fariadacosta.no.sapo.pt/.
    Pedro Prostes da Fonseca

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  11. Belissimas fotos !! Gostava de visitar esse sitio também !! Como chego la ?? Obrigado

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  12. Obrigada,
    Também eu toda a vida passei por este edifício, e sempre me perguntei como é possível que não seja reaproveitado. A localização é excelente!

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  13. É interessante ver tantas considerações feitas aqui e verificar a veracidade de algumas e a falsidade de outras... Neta do caseiro desta quinta, já depois da casa de chá ter encerrado, terei todo o prazer em esclarecer as dúvidas de alguns e desmistificar a imaginação de outros... Nunca foi casa assombrada e não existem bunkers. Existe uma sala do forno de lenha e duas grutas, que não são mais do que minas (as nascentes) que abasteciam a quinta de água.
    Estou ao dispor.

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    1. Corroboro a sua versão acerca de certos comentários fantasiosos acerca desse espaço, já fechado em 1955(?).
      Essa das minas de água era um facto absoluto em toda a região de Sintra e Lisboa, como fonte única de abastecimento. Os terrenos do Estádio Nacional, a nascente possuíam (e possui) também uma corrente de água que desembocava numa fonte nos parques de estacionamento das instalações dos campos de ténis, prosseguindo a sua corrente de água até à Quinta da Graça (em frente ao INEF), também ela a degradar-se.
      Certamente somos contemporâneos desses maravilhosos tempos.

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    2. Gostaria de saber quem são os atuais proprietários e se há algum projecto para o imóvel. Sempre me lembro de o ver assim abandonado e é uma pena...

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  14. Se alguém souber como contactar os proprietários agradecia que me enviasse e-mail (barbarasreis@hotmail.com)

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  15. Eu vim viver para Paço de Arcos em 1966, e não tenho memória de alguma vez ter visto o restaurante a funcionar. Mas não posso garantir que nesta data já estivesse encerrado. Eu não me lembro de o ver aberto.
    De facto não deixa de ser estranho que com uma localização privilegiada, em tantas décadas, nunca alguém tenha recuperado o restaurante.
    Há coisas estranhas!

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