quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Convento de Almiara / Mosteiro de Verride

A descoberta deste monumental mosteiro, foi para mim uma surpresa proporcional ao seu tamanho, não só pela imponência e pelas memórias, como também pelo seu estado de conservação.
Está situado em Verride, a poucos quilómetros de Montemor-o-Velho e a sua história é bem longínqua. 
O terreno foi doado em 1194 por Afonso Geraldes e sua mulher, Belide Soares, a frades regrantes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que foram os responsáveis pela sua edificação.
Foi idealizado para o descanso e recreio dos frades desta ordem, era como uma colónia de férias para estes homens de Deus, que ali nas margens do rio Mondego passavam o Verão. Foram também os frades que introduziram na região o cultivo de arroz, cultura que ainda hoje ali perdura...
O Mosteiro de Verride terá entretanto mudado de mãos e foi vendido aos monges da ordem de Santana, sendo novamente  vendido aos monges de Santa Cruz em 1285 e que o ocuparam até 1834.
Da estrutura arquitectónica primitiva e da sua índole medieval pouco ou nada resta. O mosteiro sofreu intervenções em 1580, e mais tarde durante os séculos XVII e XVIII foi acrescentado o torreão e remodelada a capela, conjugando elementos de arquitectura dos períodos  barroco e neoclássico. 
 
O seu interior era ricamente decorado com painéis de azulejos e o chão era revestido a pedra mármore, hoje quase desaparecidos pela espoliação continuada levada a cabo por gatunos sem escrúpulos, todo o estado de conservação inspira cuidados e necessita urgentemente de uma profunda intervenção para evitar uma derrocada.
A sua ampla fachada pombalina é quase simétrica e adornada ao meio por uma varanda sustentada por quatro colunas com um frontão neoclássico e o corpo esquerdo é arrematado por um torreão, já o corpo direito está completamente derrocado no primeiro andar , a falta do torreão leva-nos a crer que o projecto ficou inacabado.
Já dentro do mosteiro, tendo-me introduzido pelas cavalariças impregnadas de um ambiente nostálgico, onde há ainda vestígios da vida monástica e rural, o ambiente quase nos faz regredir aos seus gloriosos tempos. Ao fundo deste espaço há umas velhas escadas que nos conduzem  por aí ao primeiro andar.
Com o vislumbre de um corredor ladeado pelas espartanas celas dos monges e abrindo-se ao fundo uma ampla sala iluminada por uma LUZ divina cheguei ao torreão. O cenário que encontrei é um misto de magnificência com desolação, todos os lambris de azulejos, tal como o chão foram selvaticamente rapinados, deixando como testemunha um magnífico fresco barroco final datado de 1755, representando as armas de Portugal e da ordem de Santa Cruz de Coimbra, ladeados por dois harmoniosos "putis" que quase  ainda fazem ecoar naquelas paredes as suas douradas trombetas. Há também nesta sala uma curiosa porta pintada em "tromp l'oeil" em relativo bom estado... 
Segui o meu caminho na demanda da capela, que seria certamente a parte mais rica deste mosteiro, depois de recuar o corredor encontrei mais uma ala derrocada que nos leva por outro corredor a outra sala e ao coro alto... uma vez mais é desolador o cenário... todo o espólio desta capela desapareceu com requintes de vandalismo, sobrando apenas vestígios do retábulo e alguns restos de painéis de azulejos que ilustravam a vida neste mosteiro.
No andar inferior do corpo direito deste edifício,  temos o "acesso" para o inexpugnável claustro que pela invasão de silvas e outros agressivos elementos  não pude sequer fotografar... mais à frente, mais um corredor, mais desoladoras alas habitadas por morcegos...
 
Há ainda neste mosteiro uma curiosa estrutura circular igualmente vedada por silvas, que creio ser um poço e ostenta numa cantaria a data de 1580,  mas só poderia ter apurado essa dúvida se tivesse uma catana e disposição para desbravar mato... mas vou tentar saber...
Tal como muitos outros monumentos eclesiásticos, este também foi condenado à ruína quando foram extintas as ordens religiosas. O decreto de 30 de Maio de 1834 foi uma das maiores injustiças da história da nação!!!
Após a guerra liberal e aquando a convenção de Évora Monte, em que foi assinada a capitulação de D. Miguel, uma das primeiras medidas apresentadas a D. Pedro IV pelo novo governo de Duque da Terceira e pela mão de Joaquim António de Aguiar, ministro das pastas da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos, foi a extinção das ordens religiosas masculinas.
Dirigindo-se ao novo Rei proferindo as seguintes palavras «Senhor: Está hoje extinto o prejuízo que durou séculos, de que a existência das Ordens Regulares é indispensável à Religião Católica e útil ao Estado, e a opinião dominante é que a Religião nada lucra com elas, e que a sua conservação não é compatível com a civilização e luzes do século, e com a organização política que convém aos povos»... o que lhe valeu a alcunha de "Mata Frades" além de ter enterrado ainda mais a nação...
Este malfadado decreto  impunha  a imediata extinção de todas as casas religiosas (art.1) e a incorporação dos seus bens na Fazenda Nacional (art.2), à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam atribuídos aos ordinários das dioceses (art.3).
Segundo a descrição de uma testemunha, “muitos religiosos saíram cobertos com mantas e descalços; os próprios doentes e paralíticos tiveram que abandonar o leito das enfermarias”.
O artigo 3 do decreto afirmava que seria concedida uma pensão anual aos religiosos que não obtivessem benefício ou emprego público” mas a promessa das pensões “não passou de irrisão”. Alguns anos depois, Alexandre Herculano insurgiu a sua voz a favor destes “desgraçados” e implorava “pão para metade dos nossos sábios, dos nossos homens virtuosos, dos nossos sacerdotes que morriam de fome e frio”.
  
Essa impopular medida iria supostamente pagar as dívidas do estado que se encontrava completamente depauperado. Uma vez que o povo não aguentava mais cargas fiscais por estar à beira da miséria, restavam as ordens religiosas e o seu imenso património para pagar essa pesada factura da dívida pública e externa... e quando o mar bate na rocha... coitado do mexilhão!!!
O cenário económico e social infelizmente não nos é difícil de imaginar, conforme se pode constatar pelas contas públicas dos dias de hoje, no entanto a situação de então deveria ser muito mais difícil, senão vejamos...
Depois de termos sofrido as agruras de três invasões francesas e de todas as consequências que se possam contabilizar deste triste episódio, vimos rumar para o Brasil as nossas maiores riquezas e rendimentos. Como dois males nunca vêm só, ainda tivemos de suportar um governo autoritário inglês durante dez anos que nos sugou até ao tutano...
Após tudo isso vem uma guerra civil entre dois gananciosos irmãos, que em nome do patriotismo e dos melhores valores que se possam defender, devastaram famílias inteiras, povoações e cidades... este país à beira mar abandonado virou um caos total... não havia indústria, estradas, agricultura e tudo o mais que pudesse funcionar ou impulsionar a nossa economia, todo o nosso império sofreu graves mazelas que nos deixaram profundas cicatrizes...
Quando o caos é total e como bem sabemos, os nossos messiânicos governantes apresentam-nos medidas políticas geniais que supostamente nos salvarão e reconduzirão à prometida glória... no entanto é raro conseguirem prever com alguma exactidão as repercussões e proporções que essas medidas têm a médio e longo prazo...
Uma lei que iria dar a oportunidade aos pequenos agricultores adquirirem um talhão de terra e serem independentes, apenas beneficiou alguns abastados investidores que aproveitaram os  monumentos a preço de "uva mijona" como investimentos imobiliários, pois os pequenos agricultores estavam tão depauperados que não tiveram poder de compra, além da maioria dos camponeses terem perdido o emprego nos mosteiros que lhes davam trabalho...
Assim ficaram abandonados muitos mosteiros por este país fora com prejuízo para todos nós... isto para não falar dos milhares de homens que sempre trabalharam e se devotaram a uma santa causa, que de um momento para outro passaram a mendigar para sobreviver, enfrentando ao mesmo tempo a miséria e preconceitos que se geraram contra eles...
Estes monges eram descendentes e continuadores dos bravos homens que conquistaram Portugal. Sem as ordens religiosas e o seu papel social e militar através dos tempos, certamente não seríamos o que somos... eram as ordens religiosas que administravam os hospitais, as escolas, os campos... eram os ministérios da ciência, cultura, educação, saúde, agricultura, etc... o estado apenas geria as contas públicas e a guerra, tudo o mais era feito por esta gente de Deus... e foi um valha-me Deus para um enorme património histórico... desde então e até agora, como se pode ver pelas imagens desta reportagem que não conseguem fazer justiça a este pobre edifício...

Outra nefasta consequência deste decreto, foi o destino dado a todo esse património que de repente passou a estar à guarda do estado sem haver sequer preparação logística e administrativa. É que além das propriedades, não tinham contabilizado a quantidade de livros das inúmeras bibliotecas e todas as relíquias que os monges guardavam, eram vários séculos de arte e cultura que necessitavam de rigorosos cuidados de conservação e certamente deitaram a perder um valiosíssimo espólio histórico...
A história devia-nos contar lições para evitar cair nos mesmos erros dos nossos avós, mas a história é cíclica e repete-se, e o homem... esse não tem emenda...

17 comentários:

  1. Gastão, não se esqueça da invasão que antecedeu as francesas e que foi a de Olivença, no âmbito da chamada Guerra das Laranjas. As perdas dessa ainda não foram recuperadas...

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  2. Deixe-me dar-lhe uma sugestão: comece a colocar, no fim de cada reportagem sua, uma espécie de tabela com informação prática. Refiro-me a algo do tipo:

    "Posição GPS / Nível de dificuldade / Nível de segurança pessoal / Material aconselhado", etc. Deve ser uma coisa padrão que deixe os leitores interessados em seguir os seus passos informados sobre se "deverão" ou não ir aos sítios onde você esteve.

    Um abraço.

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  3. É sempre com angústia que vejo o que nos mostra.

    País pequeno, de mentalidades pequenas...

    Beijo

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  4. Mais uma excelente reportagem fotografica e não só.
    É triste ver o nosso património neste estado.

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  5. Fiz uma leitura de relance e gostei da reportagem muito bem documentada pelas fotos. Excelente trabalho.Beijo

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  6. Caro Gastão

    Que fotos!!!

    O tamanho delas é proporcional à desolação que nos provocam!! Mas porque é que somos tão cavalos e deixamos arruinar tudo?

    Abraços

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  7. infelizmente tenho quase a certeza que este vai ser mais um que vai desaparecer...

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  8. A estrutura circular a que se refere é um Pombal, já lá estive dentro e realmente é desolador, ver um edificio tão imponente degradado e à merce do tempo e da ruína. O nosso país continua a não saber aproveitar o que tem de património histórico e não só mas isso é outra conversa.

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  9. A recuperação do imóvel esteve para ser feita há cerca de 20 anos .
    O IPPAR na altura inviabilizou o negócio levando ao desinteresse dos interessados(Era para ser um hotel de "charme".
    Depois do roubo + ou - 15 anos, foram recuperados parte dos azulejos que estão em posse de um interessado. (Tenho fotografias como era antes do roubo).

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  10. Esqueci-me de dizer que sou um dos proprietários deste edificio , acabado de receber a avaliação geral das Finanças no valor de 417.200,00 euros- para pagar imposto!!!

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    1. Caro amigo, é de facto lamentável como o próprio estado reage a uma situação deste calibre... seria justo publicar esta situação num jornal diário e denunciar tamanha cretinice... desejo-lhe melhor sorte, e que haja alguém que aja pelo nosso melhor património.

      Na minha franca opinião, este tipo de propriedades deveriam ser isentas de qualquer contribuição e ser alvo de subsídios para a sua urgente recuperação... tem todo o apoio do Ruin'Arte e divulgarei esta situação.

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    2. Boa noite.Hoje mesmo fui visitar a Quinta de Almiara,e de facto é desolador. Apesar de ser da familia não a conhecia no seu interior,portanto Sr.Luis Barbosa queira entrar em contacto comigo.zeluisbento@gmail.com gostaria de conhecer essas fotografias de que fala.

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  11. Caro Luis, denuncie, grite, dê pontapés! Não deixe que mais este atentado contra o NOSSO (neste caso seu) património vá em frente!
    Os impostos sobre o património não podem ser legais, visto que já se fizeram pagar por inúmeras vezes.

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  12. Depois de alguma busca para qual estou vocacionado por questões juridico-profissionais recebi a notificação da isenção de IMI ao abrigo de diversa legislação invocada .
    Agora falta a Câmara de Montemor pensar em adquirir o IMóvel !

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  13. Graças a este Blog foram já encetadas negociações pela Câmara de Montemor-o-Velho, no sentido de transmissão de parte do património de forma a que esta possa , após analise estrutural , proceder à recuperação do edificio para local de divulgação de arte e cultura , com a colaboração dos proprietários .

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  14. A estrutura circular de que fala é um pombal e não um poço. Estive lá dentro ha cerca de 4/5 meses e confirmei isso mesmo. Cumps,

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  15. Convento onde permaneci 2 anos (1952/54, vivia lá o Dr Augusto, cor.med ref, já então com 95 anos. Na altura ainda estava em boas condições pelo menos uma das áreas bem como a belíssima capela. É uma pena encontrar-se em ruinas.
    Manuel Lopes da Costa

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