segunda-feira, 16 de abril de 2012

A estrutura e a ruptura da Cultura

A Cultura é em si, um termo demasiado vasto para ser entendido como um simples conceito, e pode ser sucintamente definido como a acumulação de conhecimento e experiências... mas não é apenas isso, é muito mais.
Podemos falar sobre cultura pessoal, cultura geral, cultura popular, cultura de um País... mas afinal o que é cultura e que falta nos faz?? Podemos viver sem ela?? Sem dúvida, mas leva-nos todos os dias à ruína...
A sua etimologia transporta-nos à Roma antiga, onde esta ilustre palavra "colere" significava literalmente cultivar, no sentido fazer de crescer, levando-me a concluir que a Cultura é uma coisa que nos torna maiores como seres humanos, pois faz-nos crescer.
É precisamente este conceito que pretendo aqui abordar,  tornamo-nos melhores sempre que crescemos espiritualmente e intelectualmente, pois "os Homens não se medem aos palmos", e não é só em altura que se pode crescer.
É como que se nos valorizássemos cada vez que adquirimos conhecimentos, ficamos muito mais ricos do que se nos saísse um "totomilhões", porque esse tipo de riqueza é efémera e não a levamos quando partimos para outro plano...
A Cultura dá-nos sensibilidade para apreciar a vida de uma forma muito mais requintada, pois um boi a olhar para um palácio é sempre uma cena lamentável... e quantas vezes fazemos nós esse papel?
A Cultura não é apenas uma palavra cara que nos extrapola para um mundo de erudição, onde Professores e Doutores trocam diplomas em cenários solenes com cerimónias encantadas e elaboradas.
A Cultura está ao alcance de todos nós e é movida pela curiosidade. Como é evidente não basta ser curioso, temos de satisfazer também a curiosidade e procurar respostas a todas as questões que nos surjam, só assim poderemos compreender a própria vida.
Compreender é  perceber mais do que o óbvio, é ver mais além e conseguir conjugar os conhecimentos com a realidade para chegar a uma solução... há sempre novas soluções e só as podemos equacionar se tivermos conhecimentos... isto sim, é Cultura!
Num momento de profunda crise financeira que todos nós atravessamos, podemos perguntar até para que nos serve a Cultura, se com ela não satisfazemos os nossos apetites primários, mas se a soubéssemos aplicar poderiam ser evitadas muitas crises e sair delas com estilo... pois o passado deu-nos valiosas lições.
Tudo aquilo que estamos neste momento a passar como nação, não é nada comparado com muitos outros episódios que nos maltrataram e muitas mazelas deixaram, tais como várias epidemias, invasões e guerras civis, perda de soberania e de privilégios, autênticas derrotas financeiras, bélicas, sociais e morais...
Felizmente este povo de "alma lusitana" nunca sucumbiu e sempre conseguiu ultrapassar todas as dificuldades, e ainda hoje resiste a uma furiosa intempérie que o castiga diariamente... 
 
Será isso uma forma de Cultura? A nossa remediada Cultura é uma Cultura do "desenrasca", é a verdadeira "Coltura" que todos os dias nos conduz a uma  eminente ruína.
É essa "Coltura" a verdadeira culpada de toda a nossa crise social, pois se valorizássemos os nossos conhecimentos e património, muitas aberrações teriam sido evitadas e teriam sido estabelecidas prioridades.

Exemplos infelizmente não nos faltam, desde supérfluas auto-estradas, catedrais de futebol, shoppings e mega stores às moscas, centros "colturais" e "impresariais" que não cumprem nem sequer com os motivos que lhes deram vida... se todos estes investimentos tivessem sido direccionados para a Cultura, algo poderia ter mudado no nosso País.
Confunde-se muitas vezes Cultura com espectáculo e entretenimento, tal como também confundimos Cultura e arte. Embora  possamos dizer que uma expressão artística é uma forma de Cultura,  a meu ver não é bem assim...
A Cultura não é um objecto sem vida numa galeria, Cultura seria conhecer esse objecto antes de o ver, ou tentar saber mais sobre ele depois de o conhecer ao vivo e a cores.

A Cultura não tem forçosamente que ser história, filosofia, música clássica ou outro assunto tido como erudito. Qualquer informação ou aprendizagem que nos faça crescer é sem dúvida Cultura, poder-se-ia dizer também que a Cultura é a anti-futilidade, pois esta faz-nos estagnar.
Cultura é tudo aquilo que fica do que se aprende, e leva-nos a ser permeáveis à arte dilatando a nossa sensibilidade. Uma pessoa mais sensível é por conseguinte uma pessoa mais civilizada, ponderada e evoluída, tornando-se mais bonita e interessante em todos os sentidos.
Há quem diga que a Cultura não é mensurável no ponto de vista financeiro, pois a Cultura não tem taxas de juro, spreads, cotação na bolsa e outros importantes factores económicos... nunca estiveram tão enganados!!!
 
O que seria de países como França, que absorve mais de 50% do turismo  mundial, de Itália, Inglaterra, Holanda, Índia, Japão... se não mantivessem, investissem e incentivassem a Cultura?? Certamente que não se afirmariam com a mesma força nem teriam o protagonismo que têm.
Todos os países civilizados apostam na Cultura, ciência e artes, pois sabem que a sua própria evolução dela depende... despromover a Cultura é condenar um País a um limbo social, suprimindo a sua identidade.
A Cultura não é instrução... é tudo o que sobra da mesma !! Nem sempre ter um "canudo" é apanágio de se ser culto. 
 As escolas e universidades são apenas veículos que temos ao nosso alcance para nos instruirmos, é a vida e o sumo que dela tiramos que nos dá Cultura, dá-nos também atitude, responsabilidade, dinâmica e empreendedorismo, inteligência e nível de vida, espelhando-se e espalhando-se em todo o ambiente.
As ruínas que tanto nos incomodam, são testemunhas de falta de Cultura, de sensibilidade, inteligência, empreendedorismo, visão e respeito por todos nós!!!
É indesculpável o estado a que chegou boa parte do nosso património histórico, e a falta de interesse por ele demonstrado ao longo de muitas gerações. 
Não é só o valor artístico e histórico que estão em causa, é essencialmente a nossa Cultura que definha sem que alguém sequer note a falta que ela nos faz...
A Cultura abre-nos portas para o mundo e janelas para a vida... e se nos cultivássemos mais?

11 comentários:

  1. Boa noite Gastão. Desculpe-me! Há quanto tempo não o visito! Apanhei-o aqui no FB e fiquei deveras agradada. Continua a mostrar-nos a nossa ruinosa maneira de ser, onde a cultura, a história dos nossos edifícios se vai, sem que possamos fazer nada para a recuperar. Fica a imaginação a formular estórias depois de olhar as suas fotos. Serão as únicas testemunhas de que existiram em Portugal famílias de muito bom gosto e uma cultura arquitetónica riquíssima. Reparei que o seu 4 patas continua a fazer parte das estórias.
    Quanto ao meu «cantinho» tem estado em banho-maria.
    Muito gosto em rever o seu blog. Boa noite.

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  2. Viva Gastão!
    Cultura... uma grande falta e falha em Portugal.
    A Cultura que refere, é a que "fala" Helena Vaz da Silva "É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar".
    E, continuando nas citações, como disse Dalaima, o seu trabalho e o projecto Ruin’arte é uma "prenda que ofereces a um povo que ainda está a aprender a merecer indivíduos como tu!”.
    O reconhecimento, mais que merecido está a chegar, e com um sorriso enorme e cheio de LUZ.
    Muito obrigada pelo seu trabalho, isto sim, é Cultura!!!
    Abraço,
    MSK

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  3. Gastão

    Há um certo óptimismo iluminista nas tuas palavras. A cultura é a luz e uma forma de o homem procurar a felicidade. É um espírito muito século XVIII. Nesse período, os governantes procuravam a felicidade dos povos, ou pelo menos os filosofos, aconselhavam-nos nesse sentido.

    Hoje sinto com algum arrepio que os governos não procuram a felicidade dos povos. Existe uma corja de gestores a esmifrarem toda a gente.

    De uma forma nobre, o Gastão apresenta ruínas terríveis, embora belas. Mas será que os autarcas lêem estas páginas?

    Sei que no Ministério da cultura o Gastão é lido, mas quem dirige a cultura é uma gente que anda ali a soldo da troika e dos loucos todos que nos governam. Se ao menos soubessemos de um caminho para fugir a isto.

    Um abraço e obrigado por estas fotografias

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  4. Bela dissertação!!! Apoiado, obviamente. Abraço.

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  5. Gastão,
    meu Bravo, apetece-me dizer-te que Vozes do céu não chegam a burros (invertendo o sentido do ditado...). É que os nossos ilustres governantes só vêem à distância da duração de um mandato de governação! Qualquer projecto 'Á lá longue' que possa trazer louros, pelo seu resultado, a uma força política oposta da que está agora instalada... é para esquecer!! Esta mentalidade/estratégia funciona para todos os quadrantes da nossa sociedade (é transversal, como agora se diz). É também um sinal dos tempos: fast food, fast credit, fast cars, tudo rápido, pronto a consumir e de satisfação imediata. Será que também fazem sexo da mesma maneira, a correr e rapidinho- 'vai ser tão bom, não foi?' Acredito que sim. E deste modo se estão cag.... para tudo aquilo que pede tempo: o que tem que ser planeado, pensado, que procura abrangência e consensos ou comunhão de esforços, que exige sensibilidade e bom senso. Mas não sou eu que te vou esmorecer o ímpeto! De maneira que... sempre P'rá Frente! és um homem de fibra que a indiferença de uns quaisquer brutos não deita abaixo! A tua mensagem é nobre e toca-nos e faz-nos pele de galinha! Ela dá-nos ESPERANÇA num PORTUGAL de que nos orgulhemos e que não envergonhe os nossos egrégios avós. BEM HAJAS. JM

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  6. Como se ouve… “depois da tempestade vem a abundância”.
    Os nossos egrégios avós [Deus os tenha em descanso], têm certamente muito orgulho neste trabalho. GASTÃO, o Bravo (sic JM), o Inconformista, o Lutador, o Historiador, o Aventureiro, o Ruinólogo, o Fotógrafo, o Homem…
    Transversal, alavancar, empreendedor… termos “modernos” demasiado usados… sem que, uma boa e grande parte das pessoas que os usa, perceba o seu real significado. Estes três conceitos referidos anteriormente, estão presentes neste trabalho, são o sumo do Ruin’arte…
    O dia da LUZ e do sorriso já aconteceu. Que permaneça e se efective!!!
    Que justiça seja feita pelo valor deste trabalho, que me põe em “pele de galinha”!
    Um abraço,
    MSK

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  7. Ah!
    Esquecime-me.... o Poeta!
    Abraço,
    Msk

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  8. um monumento que eu acho que seria interesante de fotografar, e que mostra o estado de degradação do nosso pais, é a quinta da Cardiga, na Golegã. Em algumas partes, este monumento, devido á sua belesa, até dá a entender que está bem preservado, mas depois que ve com mais atenção, ou olha para a fachada do lado, ve o grau de degrada~ção que cada ves mais se está a assentuar neste belo monumento

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    1. Concordo com o que disse, eu fiz um trabalho sobre a Quinta e tive que investigar sobre a mesma (visitar o local etc) e está em degradação, o que é de lamentar pois é um sitio muito bonito...

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  9. Caro Gastão, sempre que falam ou escrevem sobre património, e principalmente sobre um determinado edifício, estrutura ou monumento em "adiantado estado de decomposição" corro para o seu blog, para confirmar ou infirmar se também já se cruzou com essa fatalidade. O Gastão tornou-se a minha referência neste domínio e, por isso, gostava de o convidar a ver este pequeno filme sobre um local de onde já trouxe para este blog um conjunto notável de fotografias, a bataria da Albarquel em Setúbal. O forte do Casalinho está a pouca distancia da bataria.
    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=1Qm7UrDh3rg

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