quarta-feira, 12 de junho de 2013

Quinta da Marquesa - Azambuja

 
Esta foi mais uma reportagem na alegre companhia do meu ruinoso amigo, Jorge Gil de Almeida, ambos conhecíamos a existência desta quinta e ambos ficámos surpreendidos com este desolador e encantador cenário.
A Quinta da Marquesa, é uma típica propriedade rural situada na Azambuja, as suas ruínas lembram a história desta terra como um marco na agricultura portuguesa, que também já conheceu melhores dias.
Era uma propriedade nobre, cuja índole agrária se espelha na sua simples traça maneirista, e a distancia das faustosas residências de então, sem no entanto lhe retirar importância e protagonismo.
Da sua estrutura faziam parte além da residência, cavalariças, um pombal, armazéns e uma capela, que era consagrada a N. Sra. do Desterro, e de onde, até ao final do século XVIII se realizava pela Páscoa uma romaria popular.
Por cima da entrada da capela,  encontra-se uma lápide encimada pelos três brasões da família (Castro, Mascarenhas e Meneses?), denunciado os seus proprietários e as vitalícias obrigações para com esta casa, onde (quase) claramente se pode ler:
"D. Isabel de Castro, Filha de Fernão Teles instituiu este morgado dos Mascarenhas no ano de 1618 com a obrigação de se pagar dele 30 mil réis: 25 mil réis para uma missa quotidiana (diária) em Alcácer do Sal, 3 mil réis para  fábrica, e 2 mil réis para a Misericórdia de Alcácer, por ser administradora da capela; 18 de Junho, ano de 1621."
Quando iniciei a pesquisa sobre a quinta, esta era descrita como tendo sido propriedade da casa de Aveiras e Vagos, levando-me a crer que a dita marquesa era desta última casa.
No entanto, como se podia ler na supra-citada lápide era referido o morgadio dos Mascarenhas, que por esta data não eram ainda marqueses de Fronteira, levantado cada vez mais dúvidas sobre o nome da propriedade, quem era afinal a marquesa?
Contactei então a Fundação de Fronteira e Alorna, herdeira desse morgadio, para ser elucidado através dos seus ancestrais arquivos, tendo-me prontamente e simpáticamente sido facultadas  todas as informações...
 
...afinal a propriedade é Lafões, e é a Marquesa de Arronches que empresta o nome...

Começa então assim, a história:

Isabel de Castro, filha de Fernão Teles de Menezes, 7º senhor de Unhão, casou com D. Nuno Mascarenhas, senhor de Palma.
Por sua vez, seu filho D. António Mascarenhas, conde do Sabugal, (daí o morgado dos Mascarenhas) casa com uma senhora igualmente chamada D. Isabel de Castro, cuja filha D. Mariana, se casa com Henrique de Sousa Tavares da Silva, 1º marquês de Arronches, 3º conde de Miranda do Corvo e 28º senhor da Casa de Sousa,  dando então o nome à Quinta da Marquesa...
Sua filha, Maria Casimira de Sousa, nascida em 1672, vem a casar com Carlos José de Ligne , um nobre flamengo, Príncipe do Sacro Império e que em Portugal pelo casamento foi 2º Marquês de Arronches e 5º Conde de  Miranda do Corvo.
Deste casamento foi gerada D. Luísa Casimira de Sousa Nassau e Ligne, elevada por D. João V, a Duquesa de Lafões, tendo-se casado com  D. Pedro Henrique de Bragança, neto ilegítimo de D. Pedro II que adopta o mesmo título.
Desde então que esta e outras magníficas propriedades nesta zona se mantiveram na família, sendo ainda pertença de um dos seus descendentes.
Já no século XX, a quinta era utilizada como apoio à quinta da Bafoa, outro latifúndio da casa de Lafões anexa a esta, que aqui refugiava o gado em época de cheias.
 
Foi aqui também estabelecida a primeira escola de toureio da Azambuja em 1948.
No pós 25 de Abril, e em plena reforma agrária, as forças populares que tinham ocupado a Herdade da Torre Bela, também propriedade Lafões, tentaram subverter os empregados destas quintas, então alugadas a um outro empresário, e levaram segundo se conta, "uma valente carga de porrada"... tendo apenas ocupado esta quinta...

Agradecimentos:
- D. Nuno Geraldes Barba.
- D. Fernando Mascarenhas Cassiano Neves.
- D. Afonso de Bragança Mendes.

6 comentários:

  1. Excelente trabalho de reportagem e pesquisa ...

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  2. Amigo Gastão de acordo com os Dicionários Geográficos do século XVIII, pertencia já na primeira metade desse século ao «Ilustríssimo e Excelentíssimo Duque de Lafões», mas no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa existe uma cópia da Licença para se dizer missa na dita ermida pelo ano de 1628 a favor de uma D. Isabel de Mendonça (se é que eu li bem ?) ....

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    1. Obrigado, Rui...Seria eventualmente Isabel Mascarenhas, uma vez que era o nome da casa por adopção matrimonial... quanto ao Duque, terá casado em 1715, é natural que em meados do século fosse referido como proprietário.

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  3. Sempre fotografias estupendas. Já é um vício vir cá espreitar. Um abraço

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  4. Excelente!!! Há anos visitei esta quinta e adorei, ainda tentei descer as escadas que levavam ao imenso reservatório de água que se encontra por baixo da habitação mas faltou um resto de coragem...
    Parabéns e obrigada :)

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  5. Passei algumas férias na quinta da marquesa quando era garota. O meu avô era trabalhador lá. (Capataz)
    É triste ver o estado em que se encontra.

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