segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Mina de S. Domingos

Foi mais uma ruinosa aventura por terras de Além Tejo. Já tinha programado à muito uma incursão a este local por ser uma das ruínas mais mediáticas e fotogénicas do país, era uma das lacunas deste projecto que finalmente colmatei com esta reportagem. 
 
Fui surpreendido pela aventura gráfica que estes locais geralmente oferecem, só que nunca me tinha ocorrido que esta mina fosse tão rica em pormenores, estruturas e grafismos, tal como nunca pensei que fosse tão grande.
Fotografar debaixo de um intenso calor alentejano acaba por se tornar num suplicio e para cobrir todas as áreas de interesse temos que fazer um suado esforço digno dos mineiros que aqui trabalharam.
 
O sol agressivo e a seca circundante tiram em boa parte o animo para fotografar e todas as distâncias acabam por se tornar maiores, embora tivesse o incentivo da paisagem e da melhor motorista que se pode  desejar...foi um trabalho de “três em pipa”...
 
A mina de S. Domingos é uma das ruínas industriais mais carismáticas do País. Fica situada na Serra de S. Domingos a cerca de 20 Kms de Mértola e foi a primeira exploração mineira do País.
A exploração desta mina foi iniciada na era de ocupação romana, como se pode corroborar  pelos achados arqueológicos que este povo nos legou e que constituem um valioso espólio de arqueologia industrial.
É uma povoação que foi fundada pela actividade mineira e chegou a empregar cerca de 1500 trabalhadores durante mais de um século de pesado labor. Encontra-se hoje abandonada por ter esgotado os filões que explorava, condenando a uma quase desertificação toda esta povoação.

O cenário onde vive, lembra o pano de fundo de um filme apocalíptico ou uma paisagem aligena , com facilidade podemos imaginar algumas cenas de acção do “Mad Max” ou da “Guerra das Estrelas” sem ser necessário recorrer a efeitos especiais.
 
Todo o estigma deste cenário é reforçado pelas cores da paisagem circundante. Entre vermelhos vivos que testemunhos de uma forte presença de ferro, aos ocres garridos pelo enxofre com laivos de azul cobalto. 
 
É sem dúvida alguma uma carta geológica pronta a ser lida pelo mais leigo dos observadores, que dificilmente ficará indiferente a semelhante paisagem.
 

As decrépitas estruturas e a aridez da paisagem fazem deste local uma espécie de paraíso fotográfico que proporciona um sem fim de oportunidades de fotogenia sem igual, atingindo com facilidade a quota de produção que este projecto impõe, evitando um superavit de imagens que dificultariam a selecção e edição fotográfica.
Em princípio e por não ser propriamente uma ruína fruto de descuro ou desleixo não deveria estar presente neste projecto, antes pelo contrário, já que a CM de Mértola tem desenvolvido um grande esforço na recuperação desta mina, transformando-a num museu de arqueologia industrial. 
Uma vez que foi um núcleo industrial que indubitavelmente faz parte da memória de um povo e constitui hoje um museu ao ar livre que continua a trazer progresso a esta erma localidade, seria uma grande injustiça omitir este espaço. 
Podemos adivinhar pela envergadura deste local, a importância económica que representou para esta região e para o País. Daqui se extraíram cerca de 25 milhões de toneladas de minério entre 1855 e 1966, sendo a sua principal extracção a de pirite e de cobre.
Na era romana a exploração da mina foi feita a céu aberto e em subterrâneos que chegaram aos vinte metros de profundidade, mais tarde entre 1867 e 1880 chegaram a atingir 100 metros tendo na altura coberto cerca de 42.000 m2 de área e removido mais de três milhões de metros cúbicos de terras.
 
Para fazer a decantação do minério, foram criadas em redor da mina algumas lagoas cujas águas se encontram hoje contaminadas. 
 
A  acidez destas aguas é de Ph 2,4, o que equivale aproximadamente ao sumo do limão, a sua cor tem tonalidades entre o lilás e o vermelho púrpura, o que torna este local num fantástico quadro de mais uma paisagem surrealista.

Em virtude das infiltrações no solo todos os lençóis freáticos das imediações estão irremediavelmente condenados, o que representa uma verdadeira ameaça a toda a saúde pública, já que toda a água destinada ao consumo e regadio é influenciada por estas sulfurosas linhas de água.
Apesar de tudo isto e de todos os prejuízos que este problema possa trazer para as populações e ambiente rural e natural, há uma parte boa a considerar que é o facto de muitas pessoas usarem estas águas ácidas para curar algumas feridas, conforme é corroborado pela população mais velha : “Esta água cura os males”.
Toda a mina era suportada por uma completa e complexa estrutura logística. Aqui, além da extracção mineira, havia também armazém de ferro, fundição, serração a vapor, casas das máquinas de esgoto, extracção e compressores de ar, oficina, casa da balança, laboratório, sala de desenho, escritórios, estações de caminho de ferro, palacete do engenheiro director, casas dos empregados e operários, quartéis militar e de polícia, cavalariças, cocheiras, armazéns de víveres, mercado, hospital e farmácia,  igreja e cemitério. 
 
Embora essas estruturas não estejam devidamente identificadas deixando-nos adivinhar a utilidade de cada uma, podemos conceber a complexidade social e empresarial que aqui se instalou e desenvolveu, além dos investimentos necessários em termos pecuniários e humanos para manter em laboração esta autêntica cidade industrial.

Ouvi dizer que há um projecto de reabilitação de alguns edifícios para habitação e apoios à população, o que me parece um pouco bizarro... 
Quem gostaria de viver numa ruína industrial?? Quem gostaria de viver feliz numa paisagem árida cheia de recordações de árduo trabalho?? Quem gostaria de viver num local onde todas as redes de água naturais estão contaminadas para as próximas gerações??
 

Este é um dos poucos casos que considero ser mais proveitoso para todos manter as ruínas e todo o romântico ambiente que aqui existe.
A Mina de S. Domingos é uma memória viva do trabalho de muitas gerações, deverá ser mantida como tal e será recordada com a saudade de quem a visita e de quem lá viveu...

Para saber mais :  http://www.lpn.pt/LPNPortal/DesktopModules/SubPaginaProjectosDetalhes.aspx?ItemId=298&Mid=40&ParentId=114
http://www.monumentos.pt/Monumentos/forms/002_B2.aspx?CoHa=2_B1

10 comentários:

  1. Parabéns pelo excelente trabalho!
    Reportagem FANTÁSTICA! Fotografias EXTRAORDINÁRIAS! Texto FABULOSO!
    Obrigada pela partilha.
    Conheço o local e concordo plenamente que deva permanecer como está, um pedaço da nossa história que se respira e sente, na forma como se encontra.
    Este lugar tem uma alma que não deve ser tocada...
    Desejo o maior sucesso para o Ruin'arte - magnífico projecto, digno do maior reconhecimento possível.
    Abraço,
    MSK

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  2. Olá. Parabéns pelo trabalho que partilha aqui.
    Não conheço, mas já ouvi falar.
    Um abraço.

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  3. fantástico!! Parabéns pelo excelente trabalho. As fotos estão de facto fora de série e o texto está muito muito bom! Um sítio a visitar, em breve! Um belo cenário de ficção científica!
    Cumprimentos

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  4. Fantástico, absolutamente fantástico!

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  5. Estive lá no passado Verão e andei kilómetros pela "margem", passando por diversos lagos ao longo da Mina e diversas construções que devido ao avançado da hora não pude explorar com grande pena minha... ficará para a proxima que espero fazer o trajecto até ao Pomarão!

    Continue o Optimo Trabalho e OBRIGADA pela partilha!

    Paula Costa

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  6. Parabéns Rui, não sei como posso relatar neste momento o orgulho que senti ao ver tão excelente trabalho.
    Para mim faz parte da minha história também, pois cresci aqui nas proximidades, destas paisagens apocalípticas e deslumbrantes aos nossos olhos.
    São sem numero as histórias que sempre ouvi contar, são um sem número as vezes que por ali passei e continuo a passar, parece que aquele lugar tem uma aspecto diferente, todos os dias.
    Faço-o a pé,de bicicleta, sozinha e em grupo, e por cada dia que lá passo, considero, que também eu, já faço parte deste pequeno mundo.
    Para todos que por aqui passam, o meu bem haja.
    E por esta tão bela história aqui contada eu tenho de partilhar, o meu Obrigada Rui"

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  7. Portugal é Mina de S. Domingos, o resto é paisagem

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  8. Brutalidade de fotos! Adorei

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  9. Fotos muito profissionais. Lindas. Brilhante. Muitos parabéns!!

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  10. Parabéns pelas fotografias. São lindas ... revelam uma beleza de olhar que só um grande fotógrafo pode ter. A mina para mim é um lugar quase místico. Ali consigo fechar os olhos e voltar atrás no tempo e ver centenas de pessoas trabalhando naquelas estruturas. Conheço bem. Tenho dois livros com 'histórias da Mina' escrito por um natural de lá ... sou uma apaixonada por aquele sítio. Obrigada.

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