sexta-feira, 26 de março de 2010

QUINTA DA (des) GRAÇA - CRUZ QUEBRADA

Desde a primeira vez que fotografei este palácio, que tenho andado a tentar apurar a sua história, por isso adiei  este post para uma ocasião que reunisse as mínimas condições elucidativas sem ter de inventar muito...
A quinta da Graça pertence à Universidade de Motricidade Humana e é o que resta da sua defunta biblioteca. Foi vítima de um incêndio em 1993 que consumiu todo o seu interior, e desde então que aguarda um restauro...é a única certeza que tenho ...

Tudo o resto, e depois de vasculhar arquivos, blogues e sites diversos, emails  vários sem resposta, encontrei uma duvidosa e escassa informação:
Construída sobre o Convento dos Frades Gracianos, no século XVIII, a sua edificação é atribuída ao proprietário José Manuel Machado, armador marítimo. Esta marca de homem do mar está patente na muralha do lado Norte do edifício representando a proa de um navio.
 O palácio, quinta e terrenos envolventes foram expropriados em meados da década de trinta do século passado, aquando da construção do Estádio Nacional.

Descrita pelo Padre Figueira nos Trabalhos Literários como «(...) Digna desse nome pela formosura do palácio, um dos mais ricos dos arredores de Lisboa, e beleza da quinta, de bons arvoredos, jardim, estufa, lagos, pomares, tudo tratado com exemplar esmero», na sequência de um violento incêndio em 1993 veio a ficar quase em situação de abandono.
Não querendo por em questão a informação recolhida noutro blogue, os estilos arquitectónicos no Séc. XVIII foram entre o barroco , o neoclássico e o pombalino, o que choca com a traça deste edifício  marcadamente romântica, além de que tem uma lápide datada de 1860 com as iniciais FXM por cima da entrada. Para assumir que ambas as hipóteses são verdadeiras é forçoso admitir que esta é a terceira estrutura a ser erguida neste local...
Todo o palácio é um colosso de opulência. Pela sua arquitectura e pela sua localização é difícil passar despercebido, tal como é corroborado pelo Padre Figueira nos seus trabalhos literários. Fica sobranceiro ao vale do Jamor e tem uma vista que poderia ilustrar uma caixa de chocolates Regina.
A estrutura do edifício  é de uma dimensão incomum, tem três pisos com áreas de cerca de seiscentos metros quadrados por andar, a avaliar pelas medidas que tirei no Google Earth.
A simetria de todos os elementos da fachada dão-lhe um equilíbrio estético reforçado pela distribuição de portas, janelas e varanda. Tem no piso térreo cinco portas, uma centrada e duas em corpos adossados em cada canto com a  forma de meios octógonos. Ainda no piso térreo, tem seis janelas  sendo duas de sacada e  quatro ovais de menor dimensão e com vestígios de vitrais. As molduras das janelas e portas são rematadas em arco abatido ou de cesto, as suas dimensões são bem proporcionadas com uma cantaria simples mas de uma qualidade e rigor que as fazem quase peças de arte.
O segundo andar  tem uma generosa varanda com um esmerado gradeamento, servida por três janelas centrais e outras duas em cada lado criando harmonioso conjunto. No último andar tem três sacadas ao centro da fachada. Os alçados são de uma certa monotonia pela falta varandas ou de elementos decorativos, embora o enorme conjunto de janelas perfeitamente distribuídas lhe dêm uma grande imponência afirmando-se pela quantidade que a preenche em toda a sua amplitude. 
No alçado poente tem um pátio com uma varanda que é sustida por um enorme muro, lembrando uma inexpugnável fortaleza ou com um pouco mais de imaginação, o tal navio em alto mar...
 
Os jardins são o único elemento preservado deste conjunto arquitectónico. O seu tamanho em pouco se compara ao tamanho da casa e não tem lago  ou peças de estatuária, apenas tem canteiros e buxos além de várias árvores, o que leva a pensar que seriam apenas uma breve parte deste espaço que se deveria expandir pelo vale do Jamor, onde hoje estão diversos  campos de jogos e uma pista de canoagem...  
Como não vi, li ou ouvi nenhum rumor sobre o seu futuro, leva-me a pensar que este é no mínimo incerto e  mais desGraçado que o seu glorioso passado...

14 comentários:

  1. Mais uma vez, deslumbrada. Com a história e as fotos. É um dó, mas não será prioritário, por isso e mais uma vez, a culpa é da(s)crise(s).
    Fique bem.

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  2. Querido amigo, tem um selinho pra ti em meu blog: http://desejosedeliriospoesiassensuais.blogspot.com/ Bjs e um ótimo fim de semana ...

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  3. Muito interessante o seu trabalho. Excelentes fotos. Acho que as autarquias portuguesas deveriam fazer como algumas congéneres espanholas: durante um certo período de tempo (digamos 5 anos) só emitiam licenças para reconstrução e recuperação de edifícios já existentes.

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  4. Realmente há edifícios magníficos ao abandono no nosso pais. Acho que deveria ser dada uma maior atenção para o nosso património e raízes que nos dão identidade, ou não...enfim.

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  5. Estive neste lugar lindissimo,observei a arquitectura detalhadamente! Sentei-me num banco de pedra! Depois dei um passeio pelos arredores! Isso nos mostra um pouco a beleza de outrora quando este edifício esteve no auge da sua pompa! Ainda hoje se respira o romântismo do seu jardim.

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  6. Caro Gastão,
    Tive a informação de que esta casa foi construída com a forma de um barco. Se alguma vez lá for novamente repare que ao descer as escadas que vão dar à parte do edificio que fotografou (penúltima fotografia deste blog) irá encontrar 2 "buracos" que se assemelham ao local onde as âncoras dos barcos se encontram penduradas.

    Espero que ache esta informação interessante. Irei colocar fotografias no meu site que o convido a visitar: http://kaminaru.deviantart.com/gallery (procure na pasta Urban Exploration).
    Cumprimentos
    Raquel

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  7. Existe uma tese de mestrado em Arquitectura, da autoria de António Ernesto de Deus Martins, datada de dezembro de 2010, que se pode consultar na net, em ficheiro PDF, na qual este propõe a transformação desta quinta num hotel de charme. Parece-me uma boa ideia e esta casa bem merece deixar de ser votada ao abandono. É muito triste verificar no que deu a prepotência de Salazar e Duarte Pacheco ao expropriar esta casa dos seus legitimos herdeiros há cerca de oitenta anos...

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  8. Isso era da minha família !!!

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    1. Família Vinagre por casamento com Dona Maria da Graça Machado.

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  9. Parabéns pelo trabalho! Ainda tive aulas neste edifício. Conheci-o durante os anos da licenciatura, precisamente antes do incêndio. Entrei no curso em 85/86 e saí em 91/92. Era lindíssimo, com imensas salas onde chegámos a ter várias aulas. Funcionava lá igualmente um gabinete de fisioterapia. é uma pena que não o recuperem... Gostava só de fazer uma correcção: não é Universidade de Motricidade Humana, é Faculdade de Motricidade Humana.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. O Jardim de Buxo do palacete continha estátuas de mármore. Consta que no dia da inauguração do Estádio Nacional o neto do proprietário ao pendurar-se numa que ainda não estava bem assente esta tombou sobre ele matando-o pelo que o avô mandou destruir todas as estátuas.

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