terça-feira, 13 de abril de 2010

Aldeia de Safira - Silveiras / Montemor o Novo

Numa viagem cibernética na demanda de mais interessantes ruínas  encontrei  uma aldeia abandonada que agoniza no Alentejo. As descrições que li sobre este local não lhe fizeram suficiente justiça ou a minha imaginação não terá sido suficientemente estimulada...é mais um local paradisíaco que além de distantes recordações guarda ainda entre as suas pedras muitas memórias latentes.
 

 Quando falei neste local ao meu novo amigalhaço que me levou num agradável e ruinoso passeio por terras alentejanas, para grande sorte minha, não só ficava no nosso itinerário como também já conhecia este local. A aldeia de Safira fica situada perto de Montemor o Novo, numa via de acesso a escassos kilómetros da EN4. Por ser demasiado isolada das vizinhas populações foi perdendo importância social e económica, que acabou por condenar esta povoação a uma morte lenta. Irónicamente, as distâncias hoje em dia são fáceis de cumprir, embora de nada valha a esta velha aldeia que ninguém se lembrou de ressuscitar.
 A aldeia de Safira foi erigida no cume de um pequeno monte, circundado por uma lagoa e campos de montado. Avista-se o cemitério na outra margem, que embora não esteja bem cuidado é ainda utilizado e não está em ruínas. A  estrutura da aldeia é bastante pequena, resumindo-se a um pequeno aglomerado de casario e a uma igreja, cujas dimensões que testemunham que esta terra era frequentada por uma numerosa população.
 

É mais uma paisagem idílica que parou no tempo. Aqui reinava a paz e a alegria de uma manhã de primavera... todos os elementos constantes nesta paisagem eram de uma harmonia incomensurável, não só pela quietude do espaço circundante, mas também pela comunhão que esta aldeia tem com a natureza, justificam a toponímia de “Safira” como uma valiosa e rara jóia.

Todo este património natural, histórico e arquitectónico fizeram-me viver uma forte emoção e inspiraram um dia de trabalho ruinoso. O ar puro que se respira convida a sentir o cheiro do campo e apura todos os sentidos, sem um único indício de poluição sonora, visual, actos de vandalismo ou qualquer outro agente intoxicante, facilmente nos deixamos envolver nesta atmosfera cheia de fantasmas e boas memórias.

 As habitações são humildes e construídas em taipa, como é característico nesta região. Este tipo de construções utilizam como matéria prima para a sua edificação a própria terra que é retirada quando se escavam os alicerces. 
 Com esta terra é feita uma argamassa que junta com a pedra, mantém firme  as robustas paredes. Por serem utilizados materiais que não oferecem grande resistência aos agentes erosivos, a manutenção torna-se difícil e constante tornando-as vulneráveis a um período de tempo bastante mais curto em relação a outro tipo de construções.

Há apenas quatro casas em Safira, por serem de arquitectura chã não permitem um grande aglomerado populacional, o que leva a concluir que toda a importância deste local se centrava na igreja, pólo de atracção social de todas as localidades vizinhas e certamente deu um enorme protagonismo económico e político a Safira, tendo esta chegado a ser freguesia do concelho de Montemor o Novo e teve até um titular, Augusto Dâmaso Miguens da Silva Ramalho da Costa, um latifundiário de Montemor-o-Novo, cidade onde exerceu também o cargo de Presidente da Câmara. O título de Visconde foi criado  por decreto do Rei D. Luís em 30 de Abril de 1886 e mais tarde foi elevado a Conde. Faleceu em Montemor a 3 de Fevereiro de 1945, sem descendência.
 “No ano 1768 o Padre Thomás de Vasconcelos Camello, respondendo "aos interrogatórios" ordenados pelo  Arcebispo de Évora Dom Frei Miguel de Távora, escrevia: "tem esta freguesia 57 propriedades, e nelas se incluem 120 fogos onde residem 578 pessoas. No alto de uma charneca estão edificadas a igreja e as casas do padre e do sacristão ". 
 
 Segundo esta descrição, este pequeno aglomerado era o centro de uma dispersa povoação que para aqui convergia  pela existência de uma “casa de Deus” . A igreja foi construída no século XV, durante o bispado do Infante Cardeal D. Afonso, filho de D. Manuel I e foi severamente castigada no terramoto de 1755. Dela restam hoje apenas as paredes, o telhado há muito que derrocou  deixando exposto o seu interior. 
 

 A fachada  mantém-se firme desde o último restauro em 1903, conforme a data de uma lápide que teimosamente resiste às intempéries. 
 O retábulo era ornamentado com frescos em trompe l’oeil dos quais restam ainda ilegíveis vestígios, tem três nichos e uma escada que dá acesso ao nicho maior . Onde era a sacristia jaz hoje no chão um telhado apodrecido, entre quatro paredes pintadas num vermelho vivo que bem condiz com o vinho tinto da região. 

As casas que compõem este conjunto são bem diferentes entre si. A primeira estrutura da aldeia tem uma comprida fachada e uma arquitectura mais ou menos elaborada entre as casas que une.  São três casas geminadas que certamente terão sido a taberna e loja, além de habitação.   

A casa menor quase se sobrepõe a esta, plantada a caminho da igreja bem no meio da encosta evidenciando-se pelo isolamento e pela arquitectura mais rude e robusta... embora a sua robustez já não seja a mesma, as suas paredes mantém-se de pé.
 

A maior casa seria certamente a do padre e é a que se encontra em pior estado de conservação não havendo sequer vestígios da sua traça. Tem como vizinha duas oliveiras e tem ainda nas traseiras um nostálgico forno.

Safira estará para sempre preservada enquanto o seu espírito se mantiver vivo,  salvando-se pela solidão que a mantém a sua índole incólume e intocada pelo progresso.

24 comentários:

  1. Não é uma safira mas sim um tesouro. Está no top 3 das tuas descobertas. F

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  2. É uma pena que não se pegue nestas aldeia e se faça algo de útil com elas. São sitios com história mas que passaram ao esquecimento.

    Algo que não passa ao esquecimento são as fotografias. A fotografar como faz a coisa mais feia torna-se em beleza. Isso sim é joia rara.

    Obrigada pela partilha

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  3. Verdadeiras pérolas estas tuas descobertas, Gaston...a Torre já conhecia...;)

    Abraço a f:64

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  4. Boas fotografias! Infelizmente existe muito património edificado a agonizar pelo Alentejo (região que conheço melhor).
    Quanto à exposição do Museu de Évora - "Rituais de Poder. Armas Orientais" só mesmo vindo a Évora é que se pode ter o privilégio de ver aquelas peças magníficas!

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  5. A minha trisavó nasceu na casa da foto #4. Parabéns pela recolha.

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  6. A minha familia é de Safira e Ervideira (Freguesia Nsª Senhora da Vila) em Montemor-Novo... Nomes de familia: Azinheirinha e Serranheira.

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  7. grande trabalho adorei volta às minhas raizes toda a minha família paterna é de safira,grande trabalho parabens

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  8. Parabens pelas fotos, é bom relembrar Safira, minha familia parte paterna (Lagartixa e Reis)nasceram na casa que esta na foto 4, sera que pertence ao Duarte?

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  9. o trabalho esta espectacular.
    eu ainda conheci safira quando era safira.
    fui criado no monte que esta antes,monte da herdade.
    da do de ver como esta tudo agora...e uma vergonha
    nao e so safira que esta assim...aconselho o a ir visitar o tal monte que esta antes de chegar a safira pois ate uma escola la existia(agora ruinas pois)
    os meus avos foram os ultimos a sair dessa zona como moradores e eles foram casados na igreja de safira assim como o meu pai,tio e tia foram la batizados e casados tambem.
    ass:NUNO SILVA

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    1. Parabéns pelas fotos também. Estive este verão em Safira a visitar com a minha família. Sou filho do Alexandre Lobo e Alzira Alexandrino que nasceu no monte das colónias e neto da Custodia Calção (no papeis aparece como Custodia da Herdade) e do Filipe José Lobo. O meu neto materno nasceu em Safira e chama-se Ângelo Alexandrino.

      O meu pai disse-me que esteve de jovem na taberna durante festas.

      Queria perguntar entre as pessoas que estão naturais de Safira por aqui se tiveram por acaso algumas fotografias de quando era ainda viva ?

      Podem contactar-me com o endereço global@ouvaton.org

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  10. Tambem conheço muito bem Safira, Monte da Herdade, a escola essa ainda melhor andei la a escola entre 1957 a 1960, decerto que devo conhecer alguns dos familiares do Nuno Silva, tambem posso acrescentar que nasci no Monte Cordeiros do Vacas, lembro-me de uma professora a Lucinda Ferro.

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  11. Ilda Maria
    Conheco muito bem Safira,nasci no Monte de Vale-de-Galega fui a muitas missas a essa igreja,isto nos anos 60.Infelismente nenhuma autoridade competente, tem o bom sensso de fazer alguma coisa por ela.
    No cemitério estão aí os meus antepassados a minha irmã e os meus avós.

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  12. Vejo que Safira ainda trás saudades as pessoas que viveram néssa região, tambem conheço o monte de Vale-de-Galega, Monte chaminé e Monte Carapinha, de onde vinham alguns miudos para a Escola de Safira, tambem fui a muitas missas a Igreja e a Taberna do Sertório Lagartixa.

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  13. Espantoso! Acabei de visitar Safira, sempre a imaginara de outra forma. Tenho a intenção de pesquisar tudo o que puder sobre a aldeia e achei muito interessante encontrar aqui comentários de pessoas que lá residiram.
    :)

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  14. Estou a pensar em conseguir um dia para passear por Safira, tirar algumas fotos a Escola, Cemitério, Igreja e casas existentes, para recordar a minha mocidade, o que será feito da rapaziada que passou pela escola? hoje todos com uma bonita idade? alguns ainda vivem na zona das Silveiras, Vendas Novas, M-O-Novo, outros seguiram o rumo da vida para outras paragens.

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  15. jorge o meu pai morava mesmo em frente a escola no monte da herdade.estive ha dias a visitar aquela zona toda.a escola agora serve para as ovelhas passarem a noite,o monte da herdade tambem ja esta quase como safira menos uma parte que e onde quardam a palha para o gado.enfim ate me vieram as lagrimas aos olhos de ver aquilo tudo abandonado.ja agora o meu pai chama se antonio jose lagartixa da silva...deve conhecer de certeza.

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  16. Conheço o seu pai, ou pelo menos penso que ainda o conheço se o encontrar, andemos a escola, recordo-me que tem mais um irmão e uma irmã,o seu pai é filho do Fandango, desculpe mas não me recordo do primeiro nome, e ainda é meu parente, pois minha mãe tambem é Lagartixa,um abraço ao seu pai e para si também.

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  17. Olá a todos pelos vistos já somos uns quantos que mostramos interesse neste blog sobre safira pois também eu sou filha da terra e é com grande mágoa que vejo o estado de abandono tanto de safira como da escola pois também fui aluna da professora Lucinda Ferro eu morava no monte das veladas sou filha do Zé Filipe de safira

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  18. Boa tarde Joaquina,é bonito este interesse que se esta a ter por Safira, quanto a ser filha do Jose Filipe de Safira, para mim foi novidade o nome do seu pai, pois só conhecia o Jose Filipe da Herdade, mas junto de um meu familiar, penso ter ficado com uma idéia de quem é o seu pai, quanto ao Monte das Veladas, conheço relativamente bem, havia o monte da horta e outro monte mais acima, tenho umas recordações desses montes por duas coisas, uma é porque onde eu vi o primeiro telefone(monte na horta) e junto ao monte de cima era onde se ia buscar OCA para pintar as barras dos montes, tambem tenho a acrescentar que nasci no Monte de Cordeiros do Vacas em 1950, por agora dou por terminado e cumprimentos de um Safireno.

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  19. Alguem que queira comprar a Escola de Safira, aproveite, que vai a leilão no proximo mês de Junho?

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  20. Alguém sabe quem é/são o(s) proprietário(S) de Safira?
    Se souber, ou onde posso obter essa informação, informa-me?
    meu mail: anavasconcelos@gmail.com
    Obrigada

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  21. O meu nome é João Vargas, neto de Custodio Matias da Herdade de Cordeiro de Matos. Andei na escola que existia na herdade de Safira em 1973 e a minha professora era a dita Lucina Ferro. Traz-me uma certa melancolia ver tudo abandonado. Cumprimentos

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  22. Ola João Vargas.
    Não sei se jà vi o meu comentario. Nunca estive em Safira mais a miha avó vinha da Herdade Custodia Maria (da Herdade) Calção. Estava casado com O Filipe José Lobo. O meu pai e Alexandre José Lobo e a minha mãe Alzira Antonia da Vizitação Calção.

    Estou a procura de fotografias do tempo no qual Safira era ainda viva. Se tiveres algumas para partilhar seria muito grato.

    Cumprimentos

    Georges Lobo

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