quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma dissertação ruinosa...

Meus caros amigos, confrades, compatriotas e fieis seguidores...
 
Como já sabem, este projecto tornou-se numa causa que não consigo abandonar...há muito trabalho pela frente, muito território para desbravar, muita história para escrever, muitos fantasmas para acordar...
O Ruin'Arte começou por ser um projecto modesto, à minha medida, sem pretensões e com um relativo empenho, só que acabou por ganhar uma dimensão que se adivinha ser cada vez mais gigantesca, uma causa nacional que merecia ter um movimento cívico, político, militar...uma revolução!!!!
Em nome da nossa liberdade conquistada pela tenacidade de um povo que fez história no mundo, deveríamos todos tomar medidas radicais para inverter a derrocada de toda a herança que os nossos antepassados com esforço edificaram...
Por motivos culturais, sociais e económicos todo este património deveria ser defendido com o mesmo empenho com que todos os portugueses defendem a nossa bandeira, com o mesmo patriotismo que apoiam a selecção de futebol...


 
É urgente sensibilizar as nossas consciências para este descalabro que assola o nosso amado País, a  história está em risco de ser apagada, a perda do património é irreversível, os danos serão vitalícios...
 
Embora tenha o apoio de alguns seguidores e amigos que indubitavelmente me reconfortam o ego, acabo por me sentir um pouco só nesta luta titânica...não consigo ter os apoios necessários que me permitam continuar este trabalho com a dedicação que precisa e merece...
Neste espaço que pode ser considerado um sítio de fotografia, é também relacionado com arquitectura, história, política, arte, sociologia, antropologia, património, um pouco de filosofia barata e por vezes alguma boa disposição...  
Uma vez que sou originalmente fotógrafo de publicidade e arquitectura e tenho abdicado do meu modo de vida para poder realizar este projecto, vou ter de ou abandoná-lo ou conseguir viver dele para poder cumprir os objectivos a que me proponho...
 


 EDITORES E GALERIAS...  MECENAS PROCURAM-SE !!! (dão-se alvíssaras) ;-)~




Necessito de apoio logístico e financeiro para cobrir todo o nosso território. Fazer um levantamento a nível nacional é um investimento que não posso suportar sózinho, além das despesas inerentes a essa demanda, tenho que cumprir com as minhas obrigações pessoais e que são inadiáveis, senão tenho de "fazer-me à vida"...
 
Tenho tentado recorrer a mecenas e patrocinadores, todos os dias faço infrutíferos contactos com galerias, editoras, comunicação social, empresas de construção e reabilitação, hotelaria, gasolineiras, associações de defesa de património, fundações várias...
As galerias costumam-me pedir curriculum artístico, à espera que tenha exposto em Paris, Nova York ou Serralves...condição sine qua non poderão aceitar um novo "talento" como artísta comprovado...
 
O Ministério da Cultura só tem programas de apoio a causas culturais duas vezes por anos, o IGESPAR fugiu de mim a sete pés, o arquivo de Sacavém está mais teso do que eu, as câmaras municipais puseram-me um número de processo e de vez em quando mudam-me de secretária...
 
As editoras pedem-me patrocinadores, as gasolineiras estão secas, outras empresas só patrocinam crianças desfavorecidas e a maior parte nem sequer responde...
A pesquisa histórica exige a consulta de várias fontes para poder ser corroborada com veracidade, são necessários  telefonemas, emails, arquivos, sites, bibliotecas,  muito tempo e paciência...
As deslocações são pagas a peso de refeições e gasóleo e mais tempo ainda, (que poderia ser aproveitado para facturar)...
 
As reportagens exigem pesquisa, condições de luz, autorizações e /ou invasões de propriedade, riscos de assaltos e derrocadas... 
A edição fotográfica absorve-me mais neurónios e horas do que os meus filhos...
Os meus filhos, além dos monumentos que aqui foquei,  são sem dúvida o meu maior património e é em parte por eles que me tenho dedicado a esta causa, sei que são o meu futuro e a continuidade da "minha espécie", representam também tal como todos os outros jovens, o futuro de Portugal...
 
Por eles, Mafalda, Marta e Dinis e por todos nós, quero-vos continuar a presentear diariamente com as ruinosas aventuras neste País à beira mar abandonado...não posso parar este projecto que já leva mais de ano e meio de dedicação e me parece ser único no seu género...
Aqui foram reveladas histórias à muito esquecidas, foi mostrada cruamente uma realidade que a todos diz respeito, foram partilhadas experiências inesquecíveis para todos nós...são um misto de legado pessoal e de Portugal...
Deveria ser uma aprendizagem inata para todos os portugueses, saberem o hino nacional, ter orgulho na nossa linhagem, terem vivas as memórias da nossa cultura ancestral, habituei-me a conviver com tudo isso desde que nasci e nunca tinha percebido que estes delicados assuntos passam despercebidos  à maior parte da população e classes políticas...sempre aconteceu através dos últimos séculos... 
A história serve em parte para nos ensinar e recordar como nos portamos através dos tempos, muitos ensinamentos podemos tirar se lhe prestarmos alguma atenção...
Se observarmos os novecentos anos de história que orgulhosamente recordamos através de heróis e mártires, reis e imperadores, conquistas e hercúleos feitos, cientistas, diplomatas, artistas, poetas, "enormes grandezas" nunca dantes igualadas...
Poderíamos com facilidade dar a volta a todas as crises financeiras, culturais e sociais. Se pusessem em  prática algumas leis que os  primeiros reis da dinastia afonsina tiveram a sensatez de aplicar ter-se-ia já reabilitado muito património, fixado populações, dinamizado a economia, aplicado severas multas e castigos aos corruptos e gatunos que se aproveitam do erário público...
D. Afonso Henriques foi o primeiro a defender o direito à diferença cultural e a atrair povos de outros países, conseguindo desse modo fixar populações, incentivou-as também fiscalmente através  de forais e privilégios conseguindo desta maneira granjear respeito internacional, o que consolidou o seu poder. Soube também e muito bem, outorgar as conquistas a sul às ordens religiosas e a exércitos particulares, o que lhe permitiu alcançar as metas que não conseguia sozinho atingir ...é lembrado como O CONQUISTADOR...
Abreviando toda essa dinastia e poupando-vos a uns valentes parágrafos para mais depressa referir como ficou conhecido  D. Fernando I, O Formoso, O Belo, O Inconstante ou O Inconsciente, mas que foi suficientemente lúcido para aplicar a lei das sesmarias, colocando assim todo o País a produzir... todos os campos tiveram que ser cultivados e os vadios foram postos a trabalhar, com pena de serem confiscados ou presos (os vadios)... sábio rei...
Se os nossos governantes se lembrassem da segunda dinastia poderiam aprender o que se pode fazer  com muito trabalho, ciência, coragem, inteligência, dinamismo e tecnologia de ponta... (iríamos todos  novamente além mar, e com estilo)... 
Outra lição também se pode tirar desta epopeia... no fim  foram vítimas da opulência, ganância de poder, fausto, consumo desmedido de uma riqueza efémera que os conduziu à decadência política, social e económica...  e acabou em Alcácer Quibir...
O que nos vitimou novamente com nosso eterno sebastianismo...ainda hoje esperamos milagres nas manhãs de nevoeiro...
Outra memória indelével é a ocupação filipina...foram sessenta anos de atraso e repressão que acabaram com pesadas perdas que ainda hoje têm cicatrizes bem marcadas...saiu-nos caro esse episódio... muitas vidas se perderam, terras e negócios, rotas comerciais, alianças e inimigos políticos, mais guerras... 
É porque boa parte do nosso espaço cultural está a ser economicamente conquistado e cobiçado por multinacionais que acabam por ditar a sorte de autênticas pérolas de património arquitectónico e transfomam-nas em enormes mamarrachos... são permitidos todos os golpes baixos que desfiguram a nossa identidade...irónicamente é muitas vezes a sua "salvação", pois a derrocada seria eminente pelo estado a que deixámos chegar esses moribundos edifícios...
 
Lembro-me de ter visto à muitos anos na televisão um prédio que ia ser demolido na Av. da Liberdade, onde vive hoje o nª245 e tinha tectos pintados por José Malhoa...mais tarde  fotografei este prédio para o construtor...e lá estavam no hall o "Zé Malhoa"...foi salvo pelo seu carrasco...irónico, não é??
Tudo isto (muito sucintamente) se passou nos primeiros 500 anos da nossa história...os últimos 400 são mais fáceis de recordar e deixaram cicatrizes ainda mais profundas em alguns casos, deixaram também saudades de um Portugal que foi outrora um belo País à beira mar plantado e um sem fim das melhores referências de quem todos descendemos...os tais egrégios avós, não se deveria por eles levantar hoje de novo o esplendor de Portugal?? 
A propósito...como seremos recordados pelos nossos netos?? Os decrépitos avós...???
Certamente... tal como o estado em que se encontram todos os palácios, castelos e fortificações, conventos e mosteiros, povoações inteiras, estruturas hoteleiras, igrejas, fábricas, prédios urbanos, rurais, barracas e seres humanos...
...com que tive o privilégio de me cruzar nestes ruinosos caminhos...
 Bem hajam e muita LUZ...



13 comentários:

  1. Uma tarefa difícil sim. Mas estou certa que a há-de levar a cabo. Sei que o nosso apoio é parco, mas estamos aqui, os seus leitores. Abraço.

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  2. Uma pena um trabalho tão lindo não ser reconhecido, lute por isso meu lindo, que irás conseguir tenho certeza...beijos em ti...

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  3. Gastão

    A luta pela defesa do Património, é tão pouco atendida, que até parece uma luta solitária... mas não é...

    Para já vou divulgar este post no Facebook, quem sabe se por lá alguém ouve este grito de ajuda...

    Um grande abraço e continuação de bom trabalho

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  4. Gastão estão aqui uns companheiros de luta....
    http://osbardinos.blogspot.com/2010/04/bardinos-na-assembleia.html

    Eles andam por aí.......

    Abraço

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  5. Que triste que fico sempre com as suas imagens tão belas... é urgente serem publicadas em livro, exposições, filmes, etc, etc, que ignorantes aqueles que não o compreendem, que têm medo de se associarem a esta denúncia e à tentativa de salvar ainda alguma dignidade a este país...
    até sempre
    Teresa Leal

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  6. Não desista, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.É pena que só o apoio dos leitores não chegue para a sobrevivência.

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  7. Olá Gastão:-)
    Vim aqui ter através dos Diários de Lisboa, onde deixaste um comentário. Eu costumo utilizar imagens dos Diários e escrever a partir delas. Gostava de te pedir autorização para fazer o mesmo com as tuas fotografias que são maravilhosamente inspiradoras.
    Gosto do lado estético da destruição.
    PS - por acaso não estudaste no Filipa de Lencastre?

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  8. Olá Vera...dê-me o seu contacto...ou contacte-me por email...

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  9. É difícil mas não impossível. Uma sugestão - divulgue o seu trabalho no facebook. Quer queiramos ou não as redes sociais são uma boa ferramenta para divulgar a palavra, ou neste caso o seu interessante projecto.

    abraço

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  10. O tema da reabilitação do património é um tema que há muito é falado. Entrei no seu blog porque gosto de fotografia e as suas são muito boas, bem como a ideia que está por trás delas. Sou arquitecto, e há anos que penso neste assunto da reabilitação do património. Vejo as entidades que o deviam defender apenas a complicar, e a não defender quando interesses económicos estão por trás.
    Tenho cada vez mais a certeza de que a solução passa por uma mudança radical porque para além de se assistir à degradação do património construído também se assiste à degradação da paisagem e dos ambientes com as novas construções a proliferarem para encher os cofres (sem segredo) dos municípios portugueses. Quero dizer com isto que se constrói, e continua-se a construir, como se fosse necessário termos mais construção. Não será suficiente a construção que temos para as actuais necessidades dos portugueses?
    Porque não criar cotas de construção? Quem quer construir de novo tem de demolir em outro lado, no mesmo concelho, num raio de tantos quilómetros, etc. Porque não alterar a política de taxas de construção? Quem quer construir de novo tem de pagar duas ou três vezes mais em taxas do que quem quer aproveitar e reabilitar os edifícios antigos, devolutos, anteriores a 1950, obtendo reduções nas taxas para edifícios ainda mais antigos.
    Claro que um pensamento destes vai gerar polémica e os interesses económicos e individuais de quem tem poder sobrepor-se-ão aos interesses culturais, ambientais e colectivos do património de um povo, como é costume. Tal como o levantamento que tem feito apenas sinaliza as situações mas não produz efeito efectivo, ajuda a mudar algumas consciências e a activar outras que estão adormecidas. Mais tarde ficarão apenas recordações pois a realidade foi transformada de tal forma que torna-se inviável repor os bens destruídos ao longo de décadas. As recordações manter-se-ão enquanto os que as tiverem viverem, depois vão-se perdendo com o tempo e ficarão nos arquivos e nos museus.
    A mudança terá de ser radical mas passa por uma mudança de atitude política que terá de ser feita em todas as áreas e não apenas nesta da reabilitação do nosso património cultural e ambiental.

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  11. Gastão, break a leg :-)
    No Vekiki já está publicado o texto escrito a partir de uma fotografia tua.
    Quando conseguires descomprimir da estreia de hoje, passa lá e deixa a tua impressão.
    Boa Luz :-)

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  12. Eu sou um lurker (alguém que vê tudo mas não fala nada) puro mas desta vez tenho de lhe/te[?] dar os parabéns. O post está épico e, embora faça um revisão do que já se sabe e do que já se viu é, surpreendentemente, revitalizador.
    Infelizmente eu não vejo grande saída politica, social e, principalmente, mental para o meu amado país e, como diz o MSG em cima "a mudança terá de ser radical". Tão radical que dificilmente acredito nela?
    De qualquer modo gostaria de perguntar: onde vai buscar tamanha motivação? O bem mais precioso e escasso nas gerações de agora.

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  13. Continua, Gastão, pois a tua (nossa) vitória está na atitude, no acto de lutar. Entretanto rezamos para que apareça um mecenas tipo Luis da Baviera... Isto porque, realmente, dos nossos governantes não há sinal de comprometimento com iniciativas deste género- de carácter educacional, cultural, diria passo a expressão, de "sobrevivência do gene Lusitano". João Montalvão

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