sábado, 23 de janeiro de 2010

As ruínas, a arte e o egoísmo andam muitas vezes de mãos dadas...

Fui desafiado pelo Pedro Rolo Duarte, reconhecido jornalista e editor do Jornal I, para   desenvolver um  texto ilustrativo sobre um tema  característico da "raça lusitana" que a revista semanalmente explora.  Este fim de semana foi dedicado ao EGOÍSMO...apressem-se a comprar o Jornal I, pois egoístamente comprei uma série de exemplares e a edição tende a esgotar...

Foi-me também pedido que lhes enviasse algumas imagens que pudessem exemplificar a minha dissertação, tal como essa dissertação teria de cruzar as ruínas do património e o assunto supracitado.






Foi mais um desafio que aceitei com gosto mas também com algumas reservas, pois nunca tinha analisado as ruínas como fruto de EGOÍSMO, e descobri após uma profunda introspecção que afinal as ruínas, a arte e o EGOÍSMO andam muitas vezes de mãos dadas... senão vejamos:



No meu caso pessoal e falando na qualidade de fotógrafo e artista, conclui-se facilmente que este projecto foi uma forma de EGOÍSMO. Todos os artistas têm um ego do qual não se conseguem dissociar, é o motor que nos move, é o nosso alimento. Ao explorar as ruínas e o património arquitectónico degradado, encontrei uma forma de espelhar o  narcisismo intelectual e valorizar o meu nome como profissional...sim, foi por puro EGOÍSMO que nasceu o projecto Ruin’Arte...

Este por ter atingido uma dimensão e proporção nunca imaginada na minha vida pessoal, acabou por me ultrapassar como forma de fotografar e se tornar numa causa ... as causas são ALTRUÍSTAS, com nobreza e sentido social, são uma forma de luta por um motivo emocional. Normalmente são lutas por causas perdidas ou vozes oprimidas e cai sempre bem ter uma causa, o Karma agradece...



Vi-me de um momento para o outro a lutar com todas as armas que disponho para combater este flagelo, fazendo fogo com toda a minha sensibilidade e técnica,  disparando com verborreia e tenacidade e apaziguando com diplomacia e boa disposição...é uma “guerra” que promete ser eterna e que de uma forma EGOÍSTA se tornou numa atitude ALTRUÍSTA...





O  ALTRUÍSMO é o EGOÍSMO disfarçado de nobreza e filantropia , uma vez que esperamos sempre algo em troca quando algo  damos, mais que não seja alguma notoriedade, gratidão e talvez uma recompensa financeira... acabamos sempre por ser EGOÍSTAS. O EGOÍSMO é apanágio do ser humano, é inevitável e inerente à nossa condição tanto no plano pessoal como social.


O EGOÍSMO como forma de estar, pode ser muitas vezes uma vantagem pessoal que conduz ao sucesso muitas carreiras e fortunas,  obstando quase sempre o mesmo sucesso de uma sociedade ou circulo social. Um dos melhores espelhos sócio-culturais que podemos observar, é a qualidade da arquitectura e ambiente urbano de determinada povoação. Os edifícios são testemunhas de cultura e fortuna, não só nos estilos  e materiais com que são construídos, mas também e essencialmente pelo estado em que esta se encontra. Por EGOÍSMOS vários muitos edifícios foram condenados à ruína...



Todos os  governantes portugueses desde a nossa fundação, tiveram o mérito de edificar obras faraónicas e megalómanas com a desculpa que estarem a servir o País, talvez com a esperança de ver EGOÍSTAMENTE o seu nome ligado a um grandioso monumento e estabelecer dessa forma uma conexão com a sua ilustre pessoa para entrar nos anais da história. Mas ao mesmo tempo nunca tivemos um governante que se preocupasse em reabilitar o património já existente devotando-o ao esquecimento, esse sim um testemunho de grandiosidade de uma longínqua linhagem lusitana, exemplo de cultura e determinação de um povo.

Desde os castelos que D. Afonso Henriques construiu para defender o seu património, passando pelos palácios reais, catedrais, até aos estádios de futebol do Euro 2004, o CCB, a sede da CGD e muitos, muitos outros edifícios foram construídos para satisfazer apenas a vontade politica e ego de um governante que ALTRUÍSTAMENTE legou ao País este pesado fardo, cujas facturas pagamos diariamente ...é puro EGOÍSMO político a edificação de certos projectos, principalmente quando é posta em causa a qualidade de vida de um povo e o futuro de um País...





Outros casos ruinosos são de herdeiros de património imobiliário e familiar que EGOÍSTAMENTE se desentendem por questões  financeiras, antigas querelas e por vezes maldade e ganância que acabam por deitar a perder com prejuízo pessoal, familiar e social bons edifícios, contribuindo EGOÍSTAMENTE dessa forma para a degradação urbana e cultural.



Há ainda os casos de vandalismo gratuito, EGOÍSTAMENTE perpetrados por tipos sem escrúpulos, sensibilidade e cultura e com requintada criatividade destruidora, que sujeitam toda a sociedade aos pequenos egos revoltados. Tal como há também o EGOÍSMO “intelectual” que certos empreiteiros e autarcas nos impingem de uma forma coerciva ruinosas “reabilitações”,  o que é outra forma de arruinar ainda mais o património arquitectónico.



Temos também  os EGOÍSTAS investidores, senhores de grande capital que EGOÍSTAMENTE pretendem ver as suas propriedades inflacionadas pela especulação imobiliária condenando a sociedade, a história e o ambiente urbano a uma morte morosa e dolorosa. Controlando pela ruína o valor de uma propriedade, andando ao sabor da bolsa de valores e especulando com o dinheiro que muitas vezes nem lhes saem dos bolsos, até a viabilidade da reabilitação ser posta em causa por não ser economicamente favorável, isto com a conivência do poder político, o que se torna ainda mais grave...
 
Outros EGOÍSTAS preferem ver uma conta bancária cheia de zeros a terem de investir na reabilitação de um património que acaba por ser de todos nós, uma vez que qualquer edifício que se encontre em estado degradado é uma ameaça para a saúde pública, é sem dúvida um grande EGOÍSMO por em causa a integridade física seja de quem for, tal como todo o ambiente urbano apenas para poupar algum dinheiro...





Podemos também referir os EGOÍSTAS que preferiram deixar de investir em rentáveis empresas que deixaram falir, enviando para o desemprego e consequente degradação social populações inteiras de eternos colaboradores, escapando desta forma às obrigações financeiras e lucrando na maior parte das vezes com a especulação imobiliária e alienação do património.



Para finalizar esta breve dissertação, devo também focar o EGOÍSMO sócio-intelectual de certas eminências que para defenderem o seu cargo ou estatuto, evitam associar-se a outros indivíduos ou instituições para não perder o protagonismo, pois dividir louros ou conceder espaço é coisa que lhes tiraria algum poder e protagonismo, o que é mais importante que dar força a uma causa pela unificação de várias entidades...



Concluindo : o EGOÍSMO é inversamente proporcional à grandeza de espírito de cada um, tornando-nos cada vez mais pequenos e insignificantes sempre que olhamos para o umbigo, com o perigo de nos conduzir a uma eminente ruína...



5 comentários:

  1. EXCELENTE texto, Don Gaston!
    Muitos parabéns!

    Um abraço amigo

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  2. Parabéns Mestre, acho na verdade um trabalho muito interessante e positivo em todos os quadrantes...mais uma vez adorei!!!

    Um Abraço Mestre

    Carlos Gomes
    Curso Foto. ISLA

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  3. Filomena

    Brilhante

    inda bem que algum "Egoísmo" (o seu) pode dar corpo a projectos como o Ruin´Arte.

    Já era sensível á degradação do nosso Património, mas agora ainda reparo mais.

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  4. Hoje, mais de 50% das ruínas que encontramos quer nas grandes cidades, quer nas vilas são maioritariamente de antigas fábricas, oficinas ou armazéns...muitos delas são espaços com autoria reconhecida, com um estilo definido, detentores de grande história familiar e empresarial. Ruínas, muitas delas nascidos ainda no século XIX ou nos inícios do século XX, que foram sendo transformados ao longo do tempo para outras actividades. Elas, outros edifícios "activos", participaram do desenvolvimento económico, produziram bens e serviços, acolheram e empregaram técnicos, operários...
    Hoje, aguardam o grande projecto imobiliário, a reconversão arquitectónica ou mesmo a simples demolição...Esta realidade contrasta com os novos valores deste novo milénio, onde se fomenta a reutilização de materiais, a recuperação das técnicas construtivas, o equilíbrio do espaço urbano ou a defesa do nosso património.
    Neste país à beira mar plantado, sem indústria, sem exportações, sem orgulho pelo que produzimos, sem rentabilidade..., poderíamos ao menos juntar gastronomia, património, simpatia, vontade de criar e os valores mais intrínsecos da nossa cultura e identidade.
    O que será de nós - PORTUGAL - dentro de 20 anos ?????

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  5. E por falar em Egoísmo: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1490080764486.2068632.1007974952&l=565a7073bd

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