segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cinema Paris - Lisboa


Lembro-me bem da última vez que fui a este cinema... tinha 15 anos e fui ver um filme com o Sean Penn passado num reformatório, era um filme de um adolescente rebelde com um enredo que servia de lição moral e social para essa camada mais jovem... são as últimas memórias vivas que tenho deste espaço. Hoje, não só pela nostalgia como ainda mais pelo ambiente urbano, arrepio-me cada vez que subo a R. Domingos Sequeira e me deparo com esta impingida ruína, que nos é dada a apreciar pela vontade do próprio proprietário que se recusa a dar solução...Soube por um amigo que a CML e Junta de Freguesia da Lapa, não se têm poupado a esforços para recuperar este edifício, porém esbarram com as incontornáveis burocracias que protegem os vândalos proprietários...seria mais um caso para ser evocada a Lei das Sesmarias...!!! 

Nos meus idos tempos de juventude, não dava tanto valor a estes pormenores que hoje tanto me incomodam. A degradação do património arquitectónico e sua consequente perda são assuntos que não importam a um adolescente, mas no seu futuro irá realizar pelas saudades das distantes memórias essa triste realidade. Gostava de deixar como herança, apenas os meus momentos e ensinamentos, todo o meu património financeiro independentemente da sua envergadura, em nada se poderá comparar a todas as experiências que poderei partilhar e perpetuar através do testemunho que deixo para trás...
Aos meus filhos, Mafalda, Marta e Dinis...espero que tenham a felicidade de viver num País melhor e que as vossas boas memórias não sejam incomodadas pela podridão,  pela incompetência política e pela estupidez humana...


Como descrever a triste situação de que padece o antigo (e belo) Cinema Paris em Lisboa? É isso mesmo...uma situação triste, confrangedora e de bradar aos céus. Um outrora edificio que embelezava a zona do Jardim da Estrela, agora não passa de um mastadonte a cair aos pedaços que ninguém quer saber...
Mas antes de chegar a esta fase actual tão cinzenta, vai ser contada em poucas linhas a história deste cinema. Tudo começou em 1931, quando foi edificado e inaugurado na Rua Domingos Sequeira, logo a seguir ao Largo da Estrela, um cinema baptizado de Paris. O autor desta pequena beleza arquitectónica foi o Arqtº Victor Manuel Carvalho Piloto, que criou uma sala de cinema de bairro, pequena e elementar que competiu com as salas maiores que surgiram na mesma altura como o Éden e o Cinearte (actual Teatro "A Barraca").


O seu autor fixou-se numa superficie simples, de tratamento decorativo Art Deco, com uma suave e curvílinea saliência superior e a tradicional pala de abrigo, térrea, em betão. Contudo, era de noite que o seu famoso lettering luminoso fazia realçar a sua arquitectura simples, mas muito elegante.
No entanto, esta sala acabou por encerrar portas no final dos anos 70, principio dos anos 80 e desde então tem vivido uma degradação total, que ninguém com poder neste país quer resolver.
Para quando a restauração do cinema Paris? Porque não utilizar este edificio (que actualmente encontra-se emparedado, tal como o Pathé) com outras funções?
Cada vez mais vai se acendendo a discussão em torno desta questão. Só é pena que as antigas e belissimas salas de cinema de Lisboa estejam literalmente a desaparecer. Infelizmente, desaparecem sem deixar rasto, não criando a ponte entre a geração actual com as memórias de um passado não muito distante.

Fonte: Fernandes, J.M (1995) Cinemas de Portugal. Edições Inapa.

5 comentários:

  1. Pois,Gastão, mais uma ruína. Esta do Arquitecto Piloto. Estes atravessaram a Escola de Belas Artes durante várias gerações...
    Também,de vez em quando faltava às aulas para ver uma fitazinha....

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  2. Gostava de descrever a beleza que este antigo cine-teatro possui no interior, o aspecto degradado exterior, esconde no interior fragmentos do passado, memórias gravadas nas paredes hoje preenchidas por um vazio tenebroso.
    Tenho alguma dificuldade de me recordar em que ano entrei neste edificio, tempos de escola, a curiosidade de entrar apesar do aspecto abandonado e degradado, consegui entrar nas instalações, (recordo-me que na altura as portas principais estariam abertas, pouco tempo antes de a câmara municipal tomar medidas para prevenir a entrada de desalojados ás instalações).
    Estava degradado, o chão estava coberto de antigos bilhetes de tonalidade rosa, recordo-me do chão em madeira com uma ligeira inclinação, gostada de vos descrever o tecto, o extraordinário tecto, branco, alto, e com uma decoração a bese de vidro de diversas tonalidades, espectaculo, que pena, o palco ergue-se bem alto á medida que os olhos se adaptam á muito pouco claridade que atravessa as janelas da 2ª plateia, as cortinas acompanham os limites do palco de côr Bordô,impávida, no piso de cima, não restam cadeiras, apenas fragmentos diversos, iluminados pelo feixe de luz proviniente da sala do projector, que serve agora como alojamento de pombos de várias idades, é imponente o espaço que aquela sala possui, o palco a todo o comprimentos com rebordos trabalhados em madeira, o tecto decorado ao característico estilo anos 70, extraordinário, á esquerda, o que resta de um casino, é talvez o ponto mais degradado deste edificio, apenas o indico como casino devido á gravura preservada em uma das paredes onde é possivel lêr "Casino París", por trás deste, as escadas em marmore de tons claros, suficientemente iluminadas por janelas posicionadas nas traseiras, é talvez o espaço mais limpo, que faz esquecer por breves momentos, que toda aquela arquitectura, está ao abandono...
    Já se passaram alguns anos, a última vez reparei nas chapas colocadas pela Câmara Municipal a impedir o acesso ao perimetro desta construção.
    Para finalizar, gostava de vos poder descrever com maior precisão o interior do que resta do cine-teatro "París", resta-me apenas o meu ponto de vista, o aspecto interior difere bastante do aspecto exterior. E a meu vêr, penso que estamos a perder um simbolo, uma referência e uma arquitectura que merece vida novamente.

    Cumprimentos aos leitores
    Atenciosamente
    Helder Nogueira

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  3. Quantos de voces estariam dispostos a apoiar um Projecto para este espaço???

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  4. Respostas
    1. Não faço a menor ideia, deve-se dirigir à CM de Lisboa para ter essas informações.

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