terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Lazareto Novo ou Asilo 28 de Maio - Porto Brandão


O Lazareto Novo de Lisboa era um local onde os viajantes que entravam na capital por via marítima suspeitos de alguma doença contagiosa ficavam retidos de quarentena. Este lazareto fica situado no Porto Brandão, localidade pitoresca e aldeia piscatória na margem Sul. Estava agregado ao forte de S. Sebastião da Caparica ou Torre Velha,  foi construído em em 1869 para substituir o antigo que  que estava integrado na fortaleza atrás mencionada. Mais tarde foi baptizado como Asilo 28 de Maio e albergou no pós 25 de Abril sob a tutela da Casa Pia, uma pequena multidão vinda das províncias africanas, em especial de Cabo Verde.



Este edifício é de uma envergadura extraordinária,
era tido como um dos melhores e maiores da Península Ibérica, distingue-se pela sua arquitectura de planta radial e é composto por seis blocos no seu interior. Os doentes e funcionários coexistiam em alas separadas e possuia também um cemitério privativo, além de uma ala para desinfecção e armazéns.Chegou a servir de morada a 841 almas nos seus últimos tempos. . 

É um monumento que foi devotado ao ostracismo pela nossa história, ali se passaram inúmeros episódios de relevo que caíram no esquecimento tendo sido apagados das nossas memórias. Soube da sua existência por um programa do Prof. Hermano Saraiva e desde então que o quis visitar. Quando iniciei este trabalho lembrei-me de o incluir e comecei as diligências para o fotografar. Contactei a junta de freguesia que me enviou para a Casa Pia, passados um mês e meio e após várias tentativas fui novamente  enviado para a Sagestamo, empresa pública que faz a alienação do património do estado e era na altura o proprietário, foi recentemente vendido a uma sociedade investidora que faz questão em preservar o anonimato.

Tive na Sagestamo uma  longa e prazeirosa reunião onde expus o meu projecto à direcção que depressa anuiu na autorização para o visitar,  tal como fizeram questão de se juntar e acompanhar a sessão de fotografia, pois são também aficcionados dessa arte. Formou-se um divertido grupo de fotógrafos que mais  pareciam crianças a viver uma aventura dos cinco. Além de ter enriquecido este portfólio ainda fiz bons amigos, apoiantes incondicionais desta causa que é a preservação do património arquitectónico.


Quando cheguei à ruína, separei-me do grupo para melhor sentir o ambiente, tentar viver as suas histórias e ouvir as suas memórias impregnadas em todo o lado. Sabia que além de um incêndio, tinha havido uma derrocada que infelizmente ceifou algumas vidas. Havia vestígios dos últimos locatários em cada metro quadrado desta estrutura. Restos de brinquedos, roupas velhas e esquecidas, peças de mobiliário, electrodomésticos ferrugentos, as caixas de correio que ostentam ainda os nomes dos antigos inquilinos, pinturas murais... Autênticos “fantasmas” que se fazem ouvir a todo o instante cuja presença não nos deixa esquecer as vivências diárias de uma comunidade que ali habitou durante vários anos, criando uma curiosa viagem no tempo.





Todo o complexo é rico em linhas de pura  de arquitectura, com a traça de um estilo pesado e austero, porém com algum romantismo e ao mesmo tempo muito rico em pormenores  que indubitavelmente valorizam este espaço...colunas de ferro fundido que se mantém tão firmes como quando foram concebidas para suportar os pesados tectos, enormes escadarias que conduziam a todas as alas entre si por entre labirínticos corredores, permitindo uma comunicação rápida e eficaz dentro de todo o edifício.




Por ter havido derrocadas e devido a prolongado estado de abandono do Lazareto, é deveras perigoso aventurarmo-nos nalguns dos locais mais  fotogénicos, além de que a sua fachada Norte é demasiado grande e não nos  permite um espaço de recuo suficiente para tirar partido de um enquadramento total, pois fica sobranceira a uma arriba mesmo de frente para Belém, como tal nunca uma reportagem fotográfica conseguirá expor da melhor maneira esta grandiosa estrutura...gostava de ter um avião só para estas andanças...quem sabe um dia... 




A ruína é guardada por um funcionário e sua família, o simpático Xarepa, chamamos-lhe por brincadeira o “Shrek”, que nos soube receber com um copioso lanche antes da despedida gerando-se depois uma agradável tertúlia. O “Shrek” tem a sua criação no local e entre cabras, ovelhas, galináceos e os amigos "sacanideos", lá vive feliz com uma magnífica vista sobre Lisboa, na calma e melancolia sossegada de um monte devoluto tão perto e tão longe da civilização. A sua generosidade e simplicidade marcam a sua humilde pessoa, tal como um frade que recebe no seu mosteiro e que quer ter a certeza que todos ficaram agradados.

Foi um prazer conhecer o "Shrek"...




 Disseram-me que está pensado um hotel para o local, seria uma grande iniciativa na reabilitação deste imóvel, ele merece e nós também...




Foi de longe a ruína mais marcante que fotografei, gostaria de lá voltar e reviver esta aventura.



Já programei uma nova visita para fotografar a Torre de S. Sebastião da Caparica...aguardem o post  pois vai ser um dos mais interessantes...trata-se da mais antiga fortaleza costeira do País...em ruínas...


Á Elsa, Patrícia, Dr. Ondas Fernandes e Engº. João Malafaia...obrigado...

22 comentários:

  1. Visitar o seu blog, pelo qual lhe dou os parabéns, é como um vicio proibido. Se as fotografias são de uma beleza inquestionável, fico sempre com um aperto no coração e uma sensação de impotência por ver o nosso património (o nosso BOM património) assim, votado ao abandono!

    Devia haver uma lei que punisse quem quer que seja responsável por tais crimes.

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  2. Gostei muito do seu post. Passo muitas vezes em Porto Brandão e já me tinha interrogado sobre a historia daquele edificio em ruinas. É uma pena que aquele efificio, com tao grande potencial, esteja deixado ao abandono.

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  3. Não sei como vim aqui parar, mas a verdade é me senti muito bem por cá e ainda não explorei nada do blogue, para além desta reportagem pelo Asilo 28 de Maio, de que gostei imenso. Gostei da reportagem, não do abandono do edifício, entenda-se.Teria algumas informações com interesse para acrescentar, mas este espaço não permite. A título de exemplo: em adolescente acampei no terreno do antigo cemitério e passei férias de Verão nas alas do edifício, embora já abandonado, que se mantinham ainda seguras. E fui ao funeral de duas antigas alunas que morreram no desabamento do edifício, quando aí ainda funcionava uma secção feminina da Casa Pia de Lisboa, cujo nome era Secção de 28 de Maio.

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  4. gostei muito da reportagem especialmente porque foi nesse local agora abandonado que passei os meus primeiros 13 anos de vida quanto ao estado em que se encontra nao e de admirar retrata bem o estado do nosso pais

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  5. Estube mirando desde el rio ese edificio, fue el domingo, y desde ese dia, soñe con comprarlo, en fin, solo sueños de un extrangero enamorado de las ruinas, de todos modos cuenten conmigo en ese projecto del libro, seria magnifica contribucion a la historia y al arte.
    Fredo de Monte-Reza

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  6. adoreeiii relembrar os velhos tempos.. nasci no asilo 28 de maio... saudades adoraria visitar o local onde passei toda minha infância.... muito obrigada por esta reportagem... muitos parabens...

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  7. Também já lá estive, é simplesmente fabuloso. Tinha piscina coberta ginásio. Numa das antigas salas de aula ainda lá estava um painel de azulejos "tipo" Roque Gameiro do género das ilustrações dos livros da terceira classe.

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  8. zenia Rodrigues---------zeniancrodrigues@gmail.com13 de junho de 2011 01:01

    Eu vivo no Asilo 28 de Maio, a minha casa era a ñumero 10, foram os melhores anos da minha vida, onde criei laços de amizade eternos e onde aprendi o verdadeiro significado do amor e da amizade... ver este bloco e saber que este local para mim, tao magico, tem valor.... é muito bom.... vivi la desde 1981, quando meus pais vieram de Angola, sendo uma das familias "acolhidas" pela casa pia, mas sai de lá em 1989, lembro-me de sentir muita mágoa, pois deixava para tras amigos e aventuras... mas a vida me brindou e reencontrei os meus melhores amigos no bairro novo, em frente á escola preparatoria do Monte de caparica....

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  9. zenia ,,,,,,zeniancrodrigues@gmail.com13 de junho de 2011 01:03

    por favor se por acaso alguem se lembrar de mim ou da minha mae.......a Tia cordália, como lhe chamavam,,,,,,,,,, contactem-me por e-mail

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  10. maravilhoso atraves das suas fotografias revisitei alguns dos locais de brincadeiras da minha infancia pena que nao subiu a ladeira e fotografou o cemiterio velho que era o nosso campo de futebol saudaçoes

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  11. Nasci no Asilo 28 de Maio e sim tive uma boa infância lá, porque brinquei imenso e conhecia toda a gente.
    Apesar da situação precária em que vivíamos, éramos felizes!

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  12. JOSE ALEXANDRE DE SOUSA RAMOS16 de abril de 2012 12:35

    TENHO 56 ANOS FOI NASCIDO E CRIADO NO PORTO BRANDAO SUBIA A ESCADARIA MUITAS VESES MAIS OS MEUS AMIGOS PARA IRMES BRINCAR LA PARA DENTRO E TINHAMOS ACESSO POR UMAS ESCADAS FEITAS POR NOS AO LAZARETO ONDE IAMOS TENTAR DESCOBRIR TESOUROS E FIQUEI TRISTE COM O ESTADO DE DEGRADAÇAO QUE O EDEFIÇIO ESTA ESPERO QUE SEIJA RECUPERADO EU AINDA HOJE A CASA DOS MEUS PAIS FICO A ADEMIRAR O EDEFICIO E A PENSAR QUE SE PODIA TRANSFORMAR O MESMO PARA MUITAS UTILIDADES.

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  13. A minha mãe e tia,hoje com quase 9o anos viveram no asilo...elas ainda comentam a grandiosidade do edifício...falam de um tal António Ferreira Lopes,a quem chamavam "paizinho",que era uma pessoa muito querida, o qual morreu atropelado...Foi um dos diretores do asilo...Por vezes contam situações aí passadas...

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  14. Se Essas Paredes Falassem

    Se essas paredes falassem
    Se contassem cada vez
    Que me vi de joelhos
    Na escuridão
    Com medo de levantar
    E fitar na penumbra
    Meus olhos no espelho
    Dizendo que não
    -Poderia começar assim com esses versos dos "Dance of The Day" as minhas memórias do Asilo 28 Maio; mas cairia num extremismo se não incluísse também um trecho de Sandra Botelho; -Que o mundo nunca nos descubra, que a noite nunca termine, que a vida seja infinita...
    Que possa morrer te amando...Em êxtase!
    Cheguei ao Asilo aos 19 anos, procedente de Cabo Verde, com sonhos e aventuras na minha bagagem. O sonho tornou se num imenso pesadelo, quando um dia por um daqueles imprevistos do destino, tive um encontro do qual me regeu durante, os próximos 14 anos: a heroína me encontrou, tornamo-nos amigos e depois me escravizou; e o Asilo tornou se um exílio, ou melhor uma prisão; porém mesmo sendo escravo amei, aprendi e quiçá também ensinei,...nem sempre coisas boas. Mas como dizia Soeiro P.Gomes : "mas o escravo liberta". E na verdade há 20 anos que fui liberto, conheci a Verdade que liberta; conheci a Jesus!
    Asilo da minha juventude; toda escangalhada e destroçada! Haverá também esperança para ti?...haverá algum messias que virá para também te restaurar!?...
    Maranatha!

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    Respostas
    1. o asilo é certamente uma das coisas que vai ficar em minha mente para sempre pois foi ali minha infância e praia de porto brandão onde existia a fabrica do atum .
      cor não existia existia sim amizade companheirismo e muita brincadeira.... a minha Infância foi certamente uma das melhores infâncias de todos os tempos pois foi no asilo que tudo começou amizade amigos de escola primaria e ect: .. parabens por exelente trabalho e recordação ...

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    2. Grande Zé Manel....... Que Deus te abençoe

      Beijos

      Zénia


      https://www.facebook.com/ZeniaNaiole

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  15. Excelente trabalho. Parabéns.
    Quando nos anos 50 atravessava o rio para ir de férias para a FNAT, via esse imenso edifício que me diziam ser um asilo e ficava com a alma pequenina, pensando em ambientes como os descritos por Charles Dickens.
    Oxalá lá o projecto de recuperação se concretize. Seria um local fabuloso e cheio de memórias, com uma vista soberba sobre Lisboa.

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  16. Precioso reportaje! Desde qué lo vi, desde la Torre de Belem, no cejo en mi empeño de algún día poder visitarlo. Hoy mismo, he almorzado en Porto Brandão, pero no he podido entrar.

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  17. É o retrato do provincianismo, mediocridade, lorpice, ignorância, tacanhêz, etc., etc., dos políticos e de, quer custe ou não, do que o povo português te vindo a ser "martelado". Os exemplos estão por aí. Eu sei o que me custa escrever isto e a vós de ler.
    Não dou os parabéns porque falta História à reportagem. Nos idos anos 50 este monumento ardeu, morreram crianças eu era menino de 10, 11 anos. Lembro-me da Rosinha, sepultada debaixo de um dos muros que caiu devido ao incêndio. Essa menina, era mais velha do que eu, andou comigo no então Asilo dos Velhos de Marvila. Conheci perfeitamente a família, Timorense, principalmente a mãe, da qual gostava muito, a D. Rosa, amiga e companheira de minha mãe. Esta família tinha vindo refugiada de Timor (ironia histórica) por causa da 2ª guerra mundial. Portanto, este que deveria ter sido considerado Monumento Nacional, está dramaticamente ligado à História, não só do drama que relato aqui como também à descolonização e seus refugiados. À Saudade e Memoria de todos que de uma forma ou de outra aqui viveram os seus dramas.
    J.Coelho

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  18. hoje estive no Porto Brandão e curiosamente optámos por ir de barco , de Belém para lá e foi assim q me apercebi da grandiosidade do edificio, da ruina em q está e de como seria interessante recuperar aquele edificio que tem uma vista priveligiada .
    Espero bem q n ão fique votado ao abandono por muito mais anos

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  19. Parabens pelo seu blog. deixo uma sugestão para pesquisa que se localiza na Foz da Sertã junto ao rio. Um antigo hotel com termas de aguas unicas na Europa pela sua composicao. Estas foram analisadas e recomendadas por medicos para certas terapias . Está abandonado e serviu tambem de albergue pós 25 Abril. A sua localização é extraordinária e unica nas redondezas. Abandonado e vandalizado principalmente por aqueles que fazem dinheiro à custa do belo que nao lhes pertence mas que vendem a alma de todos nós a qualquer custo. Fica a dica...

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