sábado, 28 de novembro de 2009

As cavalariças de Norte Júnior - Estoril




É um edifício enigmático, não só pela sua arquitectura, como também pelo seu enquadramento urbano e pelo estado de conservação. Muitas vezes me interroguei qual seria a sua utilidade, a quem pertence, porque é que não o recuperam e aproveitam?? Que desperdício...que tristeza...são os enigmas que se encerram neste monumento.




Conheço-o desde sempre e desde sempre que o conheci abandonado...sabia que tinha sido em tempos uma garagem, dentro do imaginário de um miúdo idealizava-o com uma quantidade de calhambeques a entrar e sair, os Isotta, Bugatti, Rolls, Hispano-Suiza... a azáfama diária dos motoristas da alta burguesia que frequentava aquela zona balnear e o casino do Estoril.




Hoje fotografei-o pela segunda vez, melhorei a luz e a abordagem, além que não tinha de volta os inúmeros carros estacionados que costumam parar mesmo em cima do passeio. Notei também a riquíssima estatuária que o ornamenta, uma pintura em trompe l'oeil por baixo da degradada e majestosa varanda, nos dragões e águias que guardam este monumental edifício e aguardam melhores dias.




O edifício encontra-se entaipado, porém consegui espreitar para o interior através de uma fresta, e fiquei perplexo com o que vi... houve recentemente uma intervenção de "restauro" com betão armado, o que inevitavelmente ainda degradou mais esta obra prima de arquitectura...





O desenvolvimento de Cascais, iniciado nas últimas três décadas do século XIX com a presença da corte e com o hábito de "ir a banhos", repercutiu-se nas áreas envolventes que beneficiaram, já no reinado de D. Carlos, de novas vias de comunicação, entre as quais se destaca a linha de caminho de ferro, a funcionar desde 1889 (SILVA, 1988, p. 93). O Estoril, e o seu casino, foram um pólo fundamental, em torno do qual gravitou uma nova sociedade burguesa, com hábitos de veraneio que se reflectiram no urbanismo e na arquitectura do concelho.
A casa de António Santos Jorge, implantada junto à linha férrea desde 1896, destaca-se pelo imponente edifício das cavalariças e cocheiras, cujo projecto, da autoria de Norte Júnior, data de 1914. Já a habitação, de volumetria tradicional e fachada lateral aberta ao mar, apresenta decoração muito sóbria. Crê-se que o plano de Santos Jorge era bastante mais ambicioso, e incluía a reedificação da casa, segundo o modelo das cavalariças, mas o projecto nunca chegou a ser concretizado.
Assim, é o edifício das cocheiras que ainda hoje se impõe na leitura desta faixa urbana, destacando-se a fachada de gaveto, aberta por uma porta em arco de volta perfeita, e com uma varanda apoiada em carrancas, a que se sobrepõe um arco flanqueado por duas colunas. É o alçado de maior riqueza decorativa, revelando bem o estilo ecléctico de Norte Júnior, e a sua aprendizagem parisiense na Escola de Belas Artes (IDEM, p. 124; BRIZ, 1989, p. 96). Este gosto de influência francesa é visível noutras habitações da linha do Estoril, mas o edifício das cocheiras Santos Jorge é o seu expoente máximo, filiando-se nos modelos traçados por Charles Garnier para a ópera de Paris, mas principalmente, para o Casino de Monte Carlo. (RIO-CARVALHO, p. 22).
Por outro lado, o início das obras de remodelação da sua casa de verão pela área das cavalariças, denota o sentido de veraneio da época "como se o conforto burguês devesse ceder aos encantos inesperados de um provisório abrigo. E um gosto exótico, pessoal e indisciplinado livremente decidisse vestir as cocheiras com os ornatos habituais de um palácio" (SILVA, 1988, p. 125).
(Rosário Carvalho)

fonte : IPPAR

4 comentários:

  1. A Riquesa no nosso pais de hoje é falada eu Euros!Os monumentos não fazem Euros.
    Portugal ja morreu ha muito!Hoje vive de Historia!JulioSilva

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    Respostas
    1. Tem toda a razão. Este país só olha para os euros. Querem lá saber dos monumentos. Na terra onde vivo, Sintra, o problema é igual. Tanto casario ao abandono na zona histórica e o nosso presidente a preocupar-se é com o Benfica. Isto de presidentes que nada têm a ver com a nossa terra mais tarde ou mais cedo leva a isto.

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  2. Não sei onde será esse "restauro" em betão armado, mas devo dizer que a construção original já o usava. Se vir este estudo, verá ali referências ao "cimento armado". O livro em questão está aqui, de acesso livre e imprimível: https://www.researchgate.net/publication/272075916_Caracterizacao_Arquitectonica_e_Construtiva_das_Cocheiras_Santos_Jorge_Estoril_Portugal

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