quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Palácio do "Rei do Lixo" - Coina



Sempre tive curiosidade nesta ruína, sabia por alto que pertencera ao "rei do lixo" e nada mais, ouvi rumores e boatos mas nada de concreto. Quando me tornei fotógrafo, pensei em fotografa-la para portfólio, lembro-me na altura de telefonar várias vezes ao proprietário e nunca obtive resposta...estava marcada!!!

Quando iniciei este projecto obviamente tinha que a incluir, fui ao local, falei com os vizinhos que me adiantaram alguns pormenores, tornei a telefonar para ter licença e uma vez mais continuo a aguardar a resposta. Como a propriedade é grande e o guarda nem sempre está por perto arrisquei e entrei. Sabia que foi a quinta do Inferno e a ruína ameaça derrocar a qualquer instante, talvez por sugestão senti uma espécie de ambiente pesado e percebi que não podia entrar e abusar da minha sorte, além de muito perigoso tive respeito ao próprio local e apenas e tirei partido do exterior.

A sua traça além de estranha e de gosto duvidoso, não deixa de ter imponência e de ser um marco importante da nossa arquitectura. Não pude deixar de observar que para um edifício desta volumetria e tamanho, apenas era servido por duas entradas bastante desproporcionadas em relação ao palácio.

Aproveitei com a devida autorização, um dos melhores textos sobre este monumento, escrito em 2004 por um aluno do ensino secundário, que à data o publicou no jornal escolar "A Banda",  de Janeiro de 2004. Aqui vos deixo o seu contributo.

O palácio de Coina foi sempre para mim motivo de imensa  curiosidade e muitas fantasias, quando me dirigia a Lisboa, ou me deslocava à freguesia de Coina deparava com aquele edifício muito singular, marcava de tal forma a paisagem e tinha um tipo de arquitectura tão invulgar que se tornou num enigma a desvendar.

Perguntei aos meus pais (procedimento habitual sempre que tenho alguma dúvida) de que edifício se tratava, quem o construíra? Responderam-me que era vulgarmente conhecido pelo “Castelo do Rei do Lixo”, Conformei-me sobre o qual havia muitas estórias curiosas,  não tinha ainda maneira de saber qual a verdadeira história do “castelo”. Sabia no entanto que Coina não tinha nenhuma casa aristocrática e que todos os reis se insurgiriam com o cognome de “rei do lixo”.

Após anos de perguntas sobre tão estranha construção, decidi aventurar-me na descoberta da história deste “castelo” e publicá-la no jornal que dirijo. Durante este trabalho fui confrontado com a existência de um projecto de urbanização para aquele espaço e da possível destruição do castelo que alimentou o meu imaginário e que me fez descobrir um pouco mais acerca da história do meu concelho.

A história do palácio de Coina remonta ao século XVIII, a quinta fazia parte das vastas terras de D. Joaquim de Pina Manique, político, cavaleiro da ordem de Cristo e irmão de D. Diogo de Pina Manique fundador da Casa Pia de Lisboa.
Ainda hoje a marca de D. Joaquim está patente na quinta pois encontra-se uma cruz de Cristo inscrita numa lápide nos muros da quinta.
Em finais do século XIX parte da propriedade foi comprada pelo “rei do lixo”  que construiu um império a partir do nada! Manuel Martins Gomes Júnior nasceu em 1860 no ceio de uma família humilde em S. António da Charneca, prometeu a si mesmo mudar de vida e foi o que fez! Trabalhou como empregado de uma mercearia em Lisboa, quando fez algum dinheiro regressou ao Barreiro e comprou o moinho de água em frente à Quinta de S. Vicente.
Ao conversar com Sr. Benedito, este especulou sobre uma das muitas formas em que Manuel M. G. J. ganhou a sua primeira maquia, referindo que assinou um contrato com uma seguradora, e posteriormente atiou fogo ao moinho, recebendo o dinheiro relativo ao estrago.

Assim comprou uma fatia daquilo que será a sua grande quinta. Durante os anos seguintes Manuel M. G. J. trabalhou na agricultura, emprestando dinheiro aos proprietários vizinhos para cultivarem a ceara. Porém houve anos maus (e Manuel não perdoou as dívidas!) e nesses tomou uma decisão radical, anexou as parcelas dos devedores à sua, formando assim uma quinta com mais de 300 hectares. Devido a seu profundo anti-deísmo baptizou-a de Quinta do Inferno. 


Tornou-se um grande proprietário, e havia que rentabilizar o terreno! Estabeleceu um contrato com um grande negociante e exportador de carnes, Manuel M. G. J. Alugou-lhe o espaço para porcos e participou no negócio de exportação de carnes. Pouco tempo depois o seu sócio morreu e Manuel assumiu o controlo dos negócios e passando a ser negociante de carnes. Devido à sua intuição nata para os negócios e ao seu caracter empreendedor atingiu o auge assegurando o controlo da recolha dos lixos em Lisboa (à altura os lixos eram apenas matéria orgânica) transportando-os para Coina nos seus cinco barcos (a que deu os nomes de Mafarrico, Lúcifer, Belzebu, Demónio e Satanás)  o lixo servia de alimento aos porcos, ele não gastava um tostão!
Apesar de ser profundamente ateu era muito dedicado à sua região, protegeu os pobres, financiou colectividades, construiu a primeira escola de ensino primário na freguesia e fundou a Companhia Agrícola Nacional.

Manuel Martins Gomes Júnior tornou-se uma figura política de peso, republicano e provávelmente maçónico. Em 1910 após a revolução republicana mandou construir o palácio de Coina investindo aí muito dinheiro, conta-se que o palácio foi construído com os mais ricos materiais da época. Nunca se chegou a saber qual a finalidade do edifício, uns afirmam que se destinava a “ir para lá morar com toda a sua família”, “que era para do alto avistar as suas vastas propriedades no Seixal”, ou “que era para fazer uma demonstração de grandeza e poder”. Outros disseram que seria nova sede da maçonaria visto que a sede ardera à pouco tempo. O Sr. Benedito está convicto que foi com este último propósito, recorda que circular no palácio era bastante complicado “era um autentico labirinto” – afirma.

Contudo o palácio, nunca foi habitado, Manuel Martins Gomes Júnior morreu em 1943 em circunstâncias estranhas, a causa da sua morte nunca viria a ser apurada. Deixou um enorme legado de propriedades e 143 mil contos que doou à Misericórdia.
Assim a Quinta do Inferno passou para o seu genro António Ramada Curto que posteriormente a vendeu a José Mota.
Este último retomou o cultivo da quinta e melhorou os seus jardins palacianos acrescentando à piscina; pérgula; labirinto de arbustos; escadas de pedra; pomar e palmeiras existentes uma capela. A Quinta do Inferno mudou então de nome e passou a chamar-se Quinta de S. Vicente.

Em 1972 foi novamente vendida, desta vez a António Xavier de Lima, conhecido urbanizador da margem sul. Este último afirmou publicamente ter um projecto para reconverter a quinta, e transformar o palácio numa pousada de cerca de 85 quartos.
Mas noite de 5 de Junho de 1988 o palácio foi totalmente devorado pelas chamas, Xavier de Lima disse ao jornal “A CAPITAL” que o restauro implicava um investimento não suportável. Desde aí o palácio encontra-se num total abandono e recentemente abateu toda a parte intermédia e o terceiro terraço. Transformando-se dia para dia a transformar-se numa enorme ruína.



Texto de David Leite das Neves

16 comentários:

  1. Já passei algumas vezes perto deste palácio e finalmente conheço a sua história.

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  2. Ainda bem que alguém desvendou a história de um monumento tão interessante. Passo por lá desde pequena, e sempre tive curiosidade...
    Obrigada por ter investigado e tornado público!

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  3. gostaria de saber se o proprietario nao teria interessa em restaurar pedido ajuda a voluntarios que gostassem de ajudar a reconstruir e fazer desse patrimonio um local de beleza e posteriormente visitas de turistas que comtemplassem a historia e um lugar que se for bem desenvolvido de certeza muitas pessoas gostariam de visitar e passar uns dias tipo pousada. E triste pensar que o vao deixar destruir pensem nisso.

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  4. desde criança que passo por Coina a caminho do Barreiro. a visão deste palácio sempre alimentou fantasias da infância e com o passar do tempo a curiosidade de saber porque um edificio tão imponente estava a chegar a um estado de tão grande degradação. não conhecia a sua história e fiquei com a certeza que por ela e pelo edifício é um crime deixá-lo destruir

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  5. Patricia Martins Jan 18-2011
    Esta historia do REI DO LIXO e a QUINTA DOS INFERNO, veio ao meu conhecimento ontem, meu nome e Patricia Martins hoje sou residente USA, o meu BISAVÓ MANOEL MARTINS GOMES, usou nomes da mitologia para seus filhos como PINA ( PROSERPINA
    RAINHA DOS INFERNOS E MINHA AVÓ) SIBEL, LIBERTINO, CRETINO, FLORA E
    LIBRE PENSADOR mais foi a igreja o padre disse que não poderia dar este nome ao seu filho ele voltou a igreja e deu o nome RODAS NEPERBIL, ele era um homem muito inteligente e com um talento para negócios, no surto que houve na EUROPA de febre amarela foi assim que o meu bisavó morreu, e parte da minha familia foi morar no RIO DE JANEIRO NO BAIRRO DE SANTA TERESA

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    1. Cara Patricia Martins,

      Infelizmente so li o seu comentario agora. Agradeco que entre em contacto comigo.

      Gostaria de partilhar outras informacoes consigo sobre MMGJ.

      Obrigado

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    2. Patricia, estou no momento a tentar a angariar alguns dados sobre a genealogia da nossa família e talvez o Gastão possa facilitar o contacto. Também eu, Miguel Martim MG, vivo hoje nos EUA. Posso atestar sobre a veracidade da história do Rodas Neprevil, que conheci pessoalmente na Moita do Ribatejo, onde tinha uma adega e vivia nos anos 80 na companhia da mulher e filha única. Se és neta da Prozerpina, terás de ser filha do Filipe, pois não creio que o António Maria tenha casado. Fico a aguardando contato.

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  6. bem isto e interessante, tem caminho para lá?
    Joana

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  7. Desde que fui morar para o Montijo, nas minhas passeatas passava por ali e imaginava quem tinha vivido lá e as suas histórias, agora embora triste porque já não posso imaginar, mas feliz por saber que alguem se interessa pelo restauro de uma obra que será um crime não se concretizar, entre tantas outras que temos em Portugal, é de lamentar que há dinheiro para tanta coisa sem interesse mas, para conservar a nossa história e o que temos de valor, nunca se faz nada..............Fernanda Nunes

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  8. Bem interessante esta história. Pena estar ao abandono, e já sabemos mais cedo ou mais tarde o que lhe vai acontecer.

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  9. Esta era uma das várias propriedades da Companhia de Agricultura de Portugal que foi criada pelo patriarca da família, Manuel Martins Gomes Júnior. Como Manuel Maria não tinha filhos, apenas duas filhas, acolheu os sobrinhos, órfãos, que educou e a quem atribuiu a gestão das suas propriedades, depois de se formarem todos com cursos na área de agricultura.

    O sobrinho mais velho, Libertino, ficou responsável pela administração da Herdade da Barrosinha em Alcácer do Sal: o sobrinho do meio, João (meu avô) ficou com a gestão da Quinta do Inferno em Coina; o sobrinho mais novo, António (também conhecido por Toni), ficou responsável pela Quinta da Trindade, no Seixal.

    A dissolução da sociedade entre António Maria e os sobrinhos, culminou com a partida de grande parte da nossa família para o Brasil. Um ano depois de se instalarem no Rio de Janeiro, levaram 60 famílias de Alcácer do Sal para trabalharem nas terras da propriedade da família em Itaguaí, estado do Espírito Santo. De facto, uma história que merece perseverar… e que tem outras ramificações não menos interessantes. Mas isso fica para outra altura e espaço.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Chamo-me António M. S. Martins Gomes, filho de Manuel Gomes da Silva Martins Gomes, e Neto de Martins Gomes Junior!
    Conheço todas estas historias, e cheguei a entrar na Torre do Avô! è uma lástima, está em Ruínas!
    Sei que uma importante parte da minha família Martins Gomes vive hoje no Brasil, meu pai falecido em 1997, chegou a visitar parte dessa minha família no Rio de Janeiro, algures nos anos 80, quando fez representou Portugal numa Exposição de Pintura algures no Rio de Janeiro, por ocasião da das comemorações do dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas nessa cidade ( meu pai Manuel, tornou-se Pintor nos Anos 80).
    Hoje também vivo no Brasil (Natal / Rio Grande do Norte), e adoraria encontrar a minha família residente no Brasil, e poder relembrar todas as histórias incríveis que a nossa família tem.
    O meu contacto é : antoniogomes68@gmail.com

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  11. Boa tarde,
    Sou David Neves, economista, nascido em 1989 no Barreiro.
    Já que ao Palácio de Coina não foi feita justiça, que me seja feita a mim: fui eu que escrevi o texto que cita no blog e posso prová-lo.
    Escrevi este texto nos idos anos de 2004, quando era aluno do 9.º ano e dirigia o jornal escolar "A Banda" na Escola Básica D. Luiz de Mendonça Furtado no Barreiro. A edição foi dedicada ao palácio de Coina e incluía uma entrevista ao então presidente da câmara do Barreiro, Emídio Xavier, que afirmava à época que "talvez fosse possível recuperar essa construção".
    O anónimo "ReidoLixo" limitou-se a copiar e a assinar como seu, o que é muito feio e, em certas situações é crime.
    Contudo não deixo de sentir um certo orgulho pelo texto de um miúdo que à época tinha 15 anos ter suscitado o interesse e do autor e dos leitores deste excelente blog.
    Deixo o sincero desejo de que, se não pudermos salvar o palácio, ao menos que a sua história não morra! Há 10 anos atrás eu dei o meu modesto contributo.
    Cumprimentos,
    David Leite Neves.

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    1. Caro amigo, antes de mais, parabéns pelo texto que tão bem teceu.

      Fiz no final do artigo a devida referência à sua autoria, que humildemente assinou como "Rei do Lixo". Com certeza que colocarei os devidos créditos e que justiça seja feita!

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    2. Caro Gastão de Brito e Silva,
      De certo não me expliquei bem.
      Não foi o Gastão que procedeu mal, pois cita a fonte de onde retirou o texto, mas antes quem o publicou sob o pseudónimo "ReidoLixo" no blog com o mesmo nome. Este senhor(a) plagiou o meu texto e introduziu um ou dois parágrafos no início e no fim, os quais aliás, abastardam e destoam bastante do resto do texto.
      Apesar de este texto ter mais de 10 anos e eu dos meus afazeres actuais, vou procurar o texto no "baú" e fica a promessa de deixar o link para a versão original do texto.
      Cumprimentos,
      David LN.

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